Desde os meus primeiros anos de prática clínica que havia notado que, no que diz respeito à hérnia de disco, tamanho não faz muita diferença, não. Pacientes com extrusões impressionantes não poucas vezes melhoravam mais rapida e sucintamente do que pacientes com protrusões mixurucas. Achava interessante, mas não sabia o porquê.
Em 2017 fui convidado pela FLAQ a auxiliar uma renomada Quiropraxista Radiologista (DACBR) num curso meio que inovador. A ideia era ela dar um curso de imagens apresentando condições diversas, como hérnia de disco, anterolisteses, MODIC, HIZ, fraturas, etc.. E eu entraria depois apresentando imagens dos meus pacientes com as correspondentes aplicações clínicas — corroborando e reforçando à tarde o que havia sido ensinado naquela manhã. Tudo se encaixava como uma luva. A DACBR tinha mais de 30 anos de profissão e mais de 30,000 imagens no seu banco de dados. E eu, naquela época, com 2 décadas de experiência clínica, havia amealhado pouco mais de 3,000 imagens de pacientes reais. Todos devidamente documentados. Fizemos 3 cursos, eu e ela: um no Brasil e dois no México.
Foi através dos ensinamentos desta incrível profissional que pude finalmente encontrar a resposta à minha pergunta do 1º parágrafo: a razão pela qual pacientes com extrusões impressionantes não poucas vezes melhoravam mais rapida e sucintamente do que pacientes com protrusões mixurucas era pelo fato de que nem sempre as dores eram causadas por compressão mecânica. As raízes nervosas possuem neuroplasticidade. E, portanto, têm alguma capacidade de se readaptar em espaços restritos provocados por uma hérnia sem que, necessariamente, sofressem tanto assim os efeitos compressivos (ver Artigo 146). Mas muitas vezes eram vítimas de processos inflamatórios originados justamente por esta compressão — por mais pequena que seja. Isso se chama radiculite química — e foi para mim o divisor de águas em compreender, tratar e gerenciar melhor os pacientes com dores radiculares.
Esta teoria começou a tomar corpo no final de 1977 ocasião em que foi publicado um estudo na revista Clinical Orthopaedics and Related Research. Estes pesquisadores foram os primeiros a postular a hipótese que o mero rompimento do anel fibroso — mesmo sem compressão física da raiz nervosa — poderia, não só resultar em dor lombar debilitante, como também em dor irradiada para os membros superiores ou inferiores.
“Radiculite química é uma condição inflamatória da raiz nervosa causada pela ruptura do ânulo fibroso e pela disseminação de fluido discal ao longo da bainha da raiz nervosa. O componente inflamatório do fluido discal é a glicoproteína. A inflamação é uma reação a lesões repetidas na coluna vertebral, como, por exemplo, no levantamento ocupacional de cargas pesadas. A ruptura do ânulo fibroso e a liberação de fluido discal nos tecidos também evocam resposta de anticorpos circulantes e reação autoimune.” Então, neste caso, a causa de dores radiculares (como, por exemplo, ciática) seria secundária à irritação das raízes nervosas adjacentes devido ao vazamento de substâncias bioquímicas do disco.
Um ponto importante que os autores fizeram foi avisar que, nos casos de crise, “repouso prolongado pode ser contraindicado devido ao risco de formação de aderências radiculares” (ver Artigo 151).
“Assim, nasceu a teoria da radiculite química. Essa teoria tem intrigado muitos cirurgiões de coluna há anos, mas até hoje a síndrome permanece um mistério.” E desde então, pesquisadores têm publicado estudos após estudos para tentar “elucidar o fenômeno da radiculite química“:
Entre 1996 e 2002, pesquisadores japoneses arregaçaram as mangas e progressivamente fortaleceram a hipótese da radiculite química. Mais recentemente, pesquisadores chineses foram os que chegaram mais perto de elucidar este enigma. Neste estudo de 2024, eles ressaltam que “as explicações tradicionais têm se concentrado na compressão mecânica das estruturas neurais, e essa explicação tem sido amplamente aceita há várias décadas. No entanto, essa visão foi contestada por descobertas recentes que indicam que (hérnia discal lombar) frequentemente se resolve espontaneamente, mesmo sem intervenção cirúrgica, e que o tamanho da hérnia nem sempre se correlaciona com a gravidade dos sintomas da ciática.” Há outros fatores a considerar:
Já este estudo, conduzidos também por pesquisadores chineses 10 anos antes do anterior, ressalta que “(…) o diagnóstico de radiculopatia lombar ainda não é satisfatório, uma vez que a associação da dor com sua base neurobiológica é amplamente desconhecida.” E que “vários modelos animais usados para explorar a base neurobiológica subjacente da radiculopatia lombar podem ser classificados como mecânicos, químicos ou ambos, dependendo do componente da lesão”.
A lesão mecânica:
Já a lesão química:
Foi através deste mesmo estudo que foi estabelecido as bases da neurobiologia das radiculopatias lombares:
Sim, a questão imunológica desperta interesse para nós, Quiropraxistas. Restaurar a função articular fisiológica — e assim promover movimento sem restrição — tudo isso acaba estimulando o sistema linfático. E pode ser a chave do “porquê” do 1º parágrafo: independentemente do tamanho da hérnia discal, é justamente a liberação deste movimento que vai eventualmente ajudar uma raiz nervosa bombardeada por agentes inflamatórios a dissipá-los.
Algumas ponderações finais a considerar:
Pois é. A teoria da radiculite química foi apresentada desde 1977, “mas ainda não foi comprovada por estudos clínicos” — por mais que eles existam ao longo destas décadas. O assunto é definitivamente complexo. Mas todo problema tem pelo menos algum tipo de solução.
Solução esta que envolve crioterapia (ver Artigo 77). Reabilitação também (ver Artigos 90, 133, 156, 189).
Até porque não podemos esquecer a influência da lipossubstituição — sobretudo na musculatura eretora lombar (ver Artigo 258).
E Quiropraxia, mais do que nunca, é parte integral desta solução. Como dito antes, reconhecer que a dor que aflinge o paciente por ser de origem mais química do que física, ajuda na compreensão, comunicação, gerenciamento e tratamento do caso.