Nota: O título deste artigo faz referência ao lamento do eterno Chicó (Selton Mello), personagem do Auto da Compadecida, quando o coronel Antônio Morais ameaçava lhe tirar “uma tira de couro” das costas: “Ai, meu couro, meu courinho, que nasci com ele, que cresceu junto comigo, que gosto tanto dele…” Pois é.

Por algum motivo, durante a pandemia, meus joelhos começaram a me incomodar.

Primeiro foi o joelho direito. Não era uma dor propriamente dita. Era uma sensação de inchaço — de peso, até. Sentia que flexioná-lo totalmente ficava cada vez mais difícil e desconfortável. Depois de algum tempo não dava mais para ficar de cócoras. Ao cabo de algumas semanas, o incômodo passou. Toquei a vida sossegado. Mas, alguns meses depois, eis que surge o mesmo incômodo — só que, desta vez, no joelho esquerdo. Não era nada que me impedisse de realizar atividades diárias. Não era empecilho para ajustar. Mas havia um incômodo incipiente.

Quando fui chamado para fazer parte da delegação brasileira a fim de corrigir e ajudar a criar avaliações do CCE-LA entre os dias 30 de outubro e 02 de novembro de 2021, a viagem para Cancún – México cobrou um preço. Os joelhos chegaram mais doloridos. Subir um degrau mais alto ficou mais difícil. O ato de andar ficou um pouquinho mais vagaroso. Após uma viagem aos Estados Unidos em maio de 2023, minha esposa sugeriu ômega 3. Ceticamente acatei. E não é que o suplemento alimentar meio que melhorou? Passei alguns meses sem grandes percalços. Mas o incômodo acabou retornando.

Parecia piorar com esforço. O dia seguinte após caminhar por muito tempo era batata os joelhos chiarem. Curiosamente, andar de bicicleta (um hábito que cultivo desde 2009) não causava qualquer tipo de desconforto (ver Artigo 238). Por outro lado, a magrela seria uma explicação para os joelhos darem sinal de vida. Por receio de cair e machucar as mãos, o coxim é mantido baixo. Gosto da possibilidade de por os pés no chão ao sentir alguma instabilidade. Mas o fato da bicicleta ser um pouco mais baixa do que deveria talvez fosse um fator de oneração dos joelhos.

Outro aspecto é o sobrepeso. Os anos de clínica me ensinaram que dores de coluna não têm lá muita correlação com o peso do paciente. O estado da musculatura paravertebral e os multífidos, esses sim têm ligação direta com lombalgias. Mas peso e joelho definitivamente não combinam. E 35 anos de sobrepeso podem estar finalmente cobrando a fatura.

Além disso, a condromalácia patelar me persegue desde os 20 e tantos anos. Os joelhos rangem tanto ao subir escadas que é possível ouvir de longe. Não dá para pegar ninguém de surpresa. Mas nunca havia me incomodado antes. Suponho que, como o sobrepeso, tenham vindo também cobrar a fatura.

Isso sem falar no ácido úrico. Tenho gota desde os 32 anos de idade, mas nas raras vezes em que aparecem as crises, as dores se concentram no calcanhar (ver Artigo 110). Apesar de manter os níveis controlados através de relativa dieta (no meu caso, basta diminuir carne e cerveja que meio caminho já está andado), e as dores nos joelhos serem diferentes de uma típica crise de gota, quem me garante que esses incômodos não sejam de alguma forma relacionados?

Então temos aqui 4 fatores: a bicicleta, o sobrepeso, a condromalácia patelar e, possivelmente, a gota.

Num determinado ponto, comecei a sentir dores noturnas. Tinha que frequentemente mudar de posição ao dormir. Até no Pilates os joelhos doíam. Mas o problema era de veneta: ia e vinha. Havia períodos em que piorava e inchava pra valer. E havia períodos que até me esquecia dos joelhos por semanas. Bastava, no entanto, exagerar na caminhada que no dia seguinte sentia. Era tiro e queda. Fazer uma viagem em que eu andasse muito e ficasse muito tempo sentado no ônibus ou no avião costumava provocar estes sintomas — que, previsivelmente, melhoravam assim que a rotina fosse retomada e normalizada.

Isso até em junho de 2025, quando fui convidado a fazer uma palestra e dar um curso num congresso em Toluca – México. Contrário de outras viagens-relâmpagos, que ia na véspera e voltava logo depois do evento, resolvi desta vez passar mais tempo por lá e curtir um pouquinho. Cheguei no México uns 3 dias antes do congresso e voltei 4 dias depois. Andei pra cacete — eu estimaria uns 40 quilômetros, mais ou menos. Bati perna no centro de Toluca e também no centro da Cidade do México. Subi e desci colinas visitando ruínas. Entrei e saí de carros, ônibus, metrô, teleférico urbano e trens.

Faltando 2 dias para ir embora, depois de ter passado um determinado domingo passeando das 10 da manhã às 10 da noite, senti, por volta das 6 horas da tarde, o joelho esquerdo fadigar e doer — a ponto de ter que andar mais lentamente. Isso já não era novidade, necessariamente. Havia acontecido antes após uma caprichada caminhada. Não estranhei o fato, pois costumava melhorar no outro dia. À noite, porém, doeu a ponto de atrapalhar o sono. Na segunda-feira, as dores haviam se localizado na parte medial do joelho — bem na região do menisco. Me peguei andando como meu saudoso avô: numa marcha lenta com curtos passos. Mas não quis tomar medicação. No meu entendimento, precisava das dores para me nortearem — já que não pretendia passar o meu último dia na Cidade do México macambúzio num quarto de hotel. Então, naquele dia, fiz o contrário do que costumo recomendar a meus pacientes: ignorei os avisos de meu corpo e andei um bocado — com cautela, devagar e sempre. E tendo o máximo de cuidado para não magoar o joelho. À noite, sucumbi e tomei um analgésico para diminuir as dores e assim dormir mais sossegado. Raciocinei que o efeito duraria umas 8 horas e que as dores voltariam no dia seguinte. E, por isso, decidi, prudentemente, que terça-feira pela manhã iria andar somente pelas imediações do hotel.

Acordei maravilhosamente bem. Mas sempre desconfiando ter sido obra da medicação. Ganhei as ruas andando devagar e com cautela. Por sorte, a Biblioteca Municipal da Cidade do México e uma importante feira de artesanato ficavam bem pertinho de onde estava hospedado. Visitei-os, e no último, comprei umas lembrancinhas. De volta ao hotel, terminei de fazer as malas, fiz o check-out e segui para o metrô que também ficava pertinho.

Bem na frente da estação, mesmo andando com cuidado, senti o joelho esquerdo estalar. “Que bom”, pensei, com a esperança de que as coisas estivessem finalmente se encaixado. Qual o quê! Foi aí que a dor medial do joelho esquerdo doeu (como se diz na Bahia) “com gosto de gás”. Não conseguia apoiar direito a perna no chão. Mancava. Neste suplício, fui capengando os corredores intermináveis do sistema de metrô da Cidade do México até pegar dois deles e, entre trancos e barrancos, chegar no aeroporto. E capengando, alcancei meu portão de embarque. Pus minha perna esquerda sobre a mala e resolvi que, sendo eu um Quiropraxista afinal de contas, ora bolas, ia eu mesmo mandar brasa no meu joelho. Autoapliquei trigger points nos quadríceps. O vasto medial estava particularmente dolorido. Estimulava movimento na patela, que também estava dolorida e parecia menos flexível do que a da direita. A área da articulação tibiofemoral medial estava insuportável ao toque. Mas, passado alguns minutos, tudo foi se arrefecendo e, quando me levantei para embarcar, o joelho parecia melhor.

A viagem de avião foi tranquila e cheguei bem no Brasil — apesar de quase perder a conexão para Ilhéus por andar a passo de cágado do Terminal 3 ao Terminal 2.  Simplesmente não ousava andar muito rápido por medo da dor. Mas peguei o voo.

Durante a primeira semana de trabalho, tudo transcorreu bem. Fazia de tudo para não mancar na frente dos pacientes. Logo percebi que, se andasse com os joelhos ligeiramente fletidos, sem levá-los a extensão completa, conseguia andar normal (como um octogenário andaria). Mas naquele sábado, iria trabalhar numa cidade do interior. Resolvi ir de ônibus. A viagem me fez sentir o joelho um pouco, mas achei melhor do que ficar acelerando e freando carro. Após terminar os atendimentos, resolvi mais uma vez ignorar meu corpo e seguir caminhando para a rodoviária. Notei aí uma coisa interessante: subia e descia ladeiras sem problemas. Andar numa superfície plana era o que me causava incômodo. A viagem de volta foi tranquila, mas o couro comeu quando saltei do ônibus em Ilhéus. Me culpei por ter não ter feito uns trigger points no joelho enquanto sentado. Como não estava incomodando, não fiz. No entanto, quando comecei a andar, tive dor e dificuldade.

Passei a semana relativamente bem, mas andando coxo feito um ancião. Sabia, porém, que havia uma luz no fim do túnel. Naquele final-de-semana, iria visitar meu irmão, Ian Rocha, D.C. — Quiropraxista dos bons (ver Artigos 264 e 292). Passei quatro dias lá. E, por 4 vezes, Ian tirou um tempinho para tratar meu joelho.

O primeiro e segundo dia não foi bolinho, não. Meu irmão resolveu entrar de sola no meu vasto medial e poplíteo e mandou ver nos trigger points. Suando frio e com a respiração entrecortada pela dor que me dava vontade de urrar, balbuciei rangendo os dentes: “mas por que o poplíteo?” Ele me respondeu: “irmãozinho, a parte medial do teu joelho está comprometida. E o poplíteo que se origina no côndilo lateral do fêmur e corno posterior do menisco lateral, fica extremamente tenso como resultado. E é ele quem desbloqueia a articulação do joelho.”

Enquanto me torturava, Ian pacientemente me explicava o porquê de cada procedimento: que tensões na cadeia lateral da perna (com o tensor da fáscia lata “puxando” o trato iliotibial) eram muito comum entre ciclistas — incluindo o peroneo. Que a chave pra tratar o joelho era trabalhar os pontos de origem dos músculos da panturrilha, parte lateral da coxa e extensores do joelho: “fêmur pra tíbia e tíbia pro fêmur”, explicava. E que isto comprometia a rotação externa do quadril e a capacidade de cruzar as pernas ou sentar na posição de lótus e acabava inevitavelmente afetando o joelho — que foi ajustado, mas secundariamente. Ainda no primeiro dia, já conseguia caminhar sem ter que manter o joelho fletido sem extensão completa.

Curiosamente observei que meu corpo não queria retornar à marcha fisiológica. As compensações que adotei para andar melhor poucos dias antes pareciam não querer ir embora — mesmo que não houvesse dor para me limitar. Fiquei pensando quão difícil seria para um paciente mais crônico poder recuperar os movimentos normais do joelho. Eu só estava há dias assim e o corpo já demonstrava alguma resistência.

No terceiro dia, a musculatura estava significantemente melhor. Ian resolveu fazer uma tração no joelho, aplicou um thrust e CLUNK! Foi uma tremenda cavitação. A diferença foi imediata (interessante como um estalo na entrada do metrô causou tanto sofrimento e um “estalão” desta magnitude podesse causar tanto alívio). Ian explicou que, tal qual como aconteceu uma vez com ele quando adolescente, o menisco medial estava “dobrado” e o ajustamento o liberou (ver Artigo 292). Mas aí, isso só foi possível após a musculatura relaxar o suficiente para permitir tal manobra.

No quarto dia nem parecia o mesmo joelho. Os trigger points nas musculaturas afetadas já não doíam. Houve um último ajustamento, mas com mínima cavitação. Eu já me sentia muito melhor. Havia ganho meu joelho de volta. Ian me alertou que a bicicleta força muito o vasto lateral. Isto acaba lateralizando a patela. E pode ser um portal de entrada para alguns problemas que me acometia. Me avisou sobre a possibilidade de rotura do menisco medial e me orientou a conversar com meu instrutor de Pilates para começar uma série de exercícios de fortalecimento do vasto medial (ver mais sobre Pilates e joelhos no Artigo 277). Me aconselhou a andar mais e pedalar menos — e aumentar a altura do coxim (o que, confesso, ainda não fiz — e, sinceramente, não sei se vou fazer — o medo de cair e machucar as mãos sempre fala mais alto).

Um parêntese: Estes e outros macetes serão discutidos no curso Extremidades em Detalhes: Abordagens Simples e Pragmáticas, ministrado pelo próprio Ian Rocha, DC, e oferecido pelo IDQUIRO em 07 e 08 de março de 2026. Beber conhecimento de uma fonte tão abundante é uma rara oportunidade e um raro prazer.

De todo modo, logo após regressar daquela extraordinária viagem, consultei um ortopedista. Ele fez os testes ortopédicos de praxe e descartou prontamente envolvimento no menisco. Pediu uma ressonância magnética dos dois joelhos. Mesmo tendo uma noção do que apareceria na imagem, devo confessar uma certa melancolia ao constatar os resultados:

  • “Alterações degenerativas tricompartimentais, caracterizadas por redução da fenda articular, osteófitos marginais, afilamento e irregularidades condrais, com sinais de reação por exposição óssea subcondral no compartimento femorotibial medial e femoropatelar.”

  • “Imagem linear com hipossinal nas sequências, paralela à superfície articular, localizada no côndilo femoral medial, circundada por extenso edema, podendo corresponder a fratura por insuficiência.”

  • “Alteração na intensidade do sinal localizada no corpo e corno posterior do menisco medial, com extensão às suas margens superior, compatível com rotura horizontal.”

Em suma: condromalácia patelar com um bruto edema; rotura do menisco medial (tal qual Ian havia dito); e o tal edema ósseo — sugestivo de fratura por estresse. Este último me surpreendeu.

O laudo do joelho direito não estava muito diferente do esquerdo — só mais “comportado”. Mas acusava tendinopatia infrapatelar e possível rotura do menisco medial.

Bem. Passados 5 meses de reabilitação, constato que aqueles 4 dias de ajustamentos foram cruciais para minha “recuperação” — entre aspas mesmo, para ilustrar que ainda sinto o joelho quando ando muito — mas agora já sem inchaço e definitivamente sem os sintomas ocorridos no México. O joelho voltou a ser previsível. Ainda levemente problemático, mas previsível. Imaginem se tivesse a oportunidade de fazer tratamento com Ian pelo menos uma vez por semana por um período mais extenso de tempo. Teria sido supimpa!

Quando meu instrutor de Pilates isolou o vasto medial, o exercício de extensão do joelho parecia tarefa impossível. Hoje já consigo fazê-lo sem grandes problemas. A bicicleta, minha grande paixão, ainda não tive coragem de deixá-la. Mas caminho mais que antes — seguindo o conselho do meu filho mais novo, que cursa Educação Física e planeja fazer Quiropraxia. “Pedalar estimula alguns músculos das pernas. Andar estimula todos”, afirmou.

O coxim, no entanto, este ainda não levanto de jeito nenhum. Afinal de contas, o que é um Quiropraxista com joelhos e sem as mãos?