Na minha família, o que não falta é Quiropraxista. Minha mãe é Quiropraxista. Meu ex-padrasto é Quiropraxista. Meu primo é Quiropraxista. Minha cunhada é Quiropraxista. Meu filho mais novo aspira ser Quiropraxista. E meu irmão é Quiropraxista.
Sendo crias de uma famosa Quiropraxista, figura pública conhecida em toda comunidade internacional da nossa profissão, cuja história de vida se funde efetivamente com o desenvolvimento da Quiropraxia no Brasil, quem está de fora pode pensar que ela foi a nossa inspiração para eu e meu irmão termos seguido o mesmo caminho. Apesar da óbvia influência, não foi bem assim. Ledo engano.
Pragmatismo me levou a fazer Quiropraxia. A paixão pela profissão veio depois. Mas meu irmão, ele, sim, tem uma história inspiradora, forjada a ferro e fogo, que vale a pena contar por aqui.
O relacionamento de Ian com a Quiropraxia começou quando fazia o ensino médio numa escola em Davenport, Iowa (que foi a cidade onde D.D. ajustou Harvey Lillard e o resto todo mundo sabe). Era 1989, e nossa mãe estava estudando no Palmer College of Chiropractic. Naquela época, nunca havia passado pela nossa cabeça seguir os passos dela. Nesta escola, o Central High School, meu irmão machucou o joelho. Quem examinou suspeitou que se tratava de algum tipo de lesão no menisco. Era uma dor aguda que o fazia mancar. Mas Ian era teimoso. Não ouvia os conselhos da mãe para dar um pulinho na clínica do Palmer e ajustar o joelho. Assim se passou mais de 01 ano. Até que um dia ele se cansou de mancar e resolveu ir. E lá no Palmer, conheceu aquele que seria sua verdadeira inspiração para, alguns anos mais tarde, estudar Quiropraxia: Garry Krakos (veja mais sobre ele no Artigo 243).
Cabe aqui um pouco de contexto: o Dr. Garry T. Krakos, D.C., M.S, BCA, formado com honras pelo Palmer College of Chiropractic, bacharel em Ciências pela State University of New York e mestre em Administração de Saúde pela University of St. Francis em Joliet, Illinois, fazia parte do corpo docente do Palmer, eventualmente se tornou Diretor de Clínica, e sua dedicação e participação foram essenciais para criar o programa de Quiropraxia na Universidade Feevale, em 1998. Ruivo, sardento, com orelhas de abano, extremamente culto, afável e educado, era, e continua sendo, um profissional de raro talento.
Sim, a vida era doce. Mas, mesmo com o tempo livre, era uma trabalheira doida. A barraca de praia exigia noites acordado. O pula-pula pesava em torno de 400 quilos — o que exacerbava uma lesão lombar antiga causada por uma queda de tobogã na neve no final de 1988. Resolveram ele e a patroa complementar o orçamento ensinando inglês nas instituições e resort locais.
Entre os dias 21 e 24 de abril de 1994, Ilhéus foi palco do 𝗜 𝗘𝗻𝗰𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼 𝗜𝗻𝘁𝗲𝗿𝗻𝗮𝗰𝗶𝗼𝗻𝗮𝗹 𝗱𝗲 𝗤𝘂𝗶𝗿𝗼𝗽𝗿𝗮𝘅𝗶𝗮 𝗱𝗼 𝗕𝗿𝗮𝘀𝗶𝗹. Realizada pela então recém-criada ABQ, resultado do hercúleo esforço da dra Sira Borges, do dr. Brent Mcnabb e do dr. Garry Krakos, o evento teve considerável impacto internacional. Se não foi, deveria ter sido considerado o 1° Congresso Brasileiro de Quiropraxia.
Em 1994, podia-se contar (nos dedos de uma das mãos) quantos Quiropraxistas atuavam no Brasil. Nossos colegas americanos prestigiaram o evento, que contou com a presença de Donald Kern, então Presidente do 𝗣𝗮𝗹𝗺𝗲𝗿 𝗖𝗼𝗹𝗹𝗲𝗴𝗲 𝗼𝗳 𝗖𝗵𝗶𝗿𝗼𝗽𝗿𝗮𝗰𝘁𝗶𝗰, dos legendários Robin Canterbury, Wayne Zemelka e do próprio Garry Krakos. Os cursos de técnicas eram, obviamente, exclusivos a Quiropraxistas e contavam 12 horas de CE (𝘊𝘰𝘯𝘵𝘪𝘯𝘶𝘪𝘯𝘨 𝘌𝘥𝘶𝘤𝘢𝘵𝘪𝘰𝘯). As demais palestras foram abertas a outros profissionais que compareceram maciçamente. A intenção era disseminar o conhecimento de uma então desconhecida Quiropraxia.
Precisavam de tradutores. Ian e a esposa foram chamados, entre outros. Pela afinidade e gratidão, ele passou muito tempo acompanhando o dr. Krakos. Conviveram e conversaram muito. Trocaram ideias. Acostumado a se virar com trabalhos braçais, meu irmão ficou fascinado com a elegância, a sofisticação e o glamour dos Quiropraxistas. Mais que isso, lhe agradava a ideia de usar a mente e as mãos para sobreviver. Foi naquele momento que decidiu: se fosse estudar alguma coisa, seria Quiropraxia.
Mas estudar dava uma preguiça… Continuou tocando sua vida de saltimbanco. Em 1995, nasceu a filha do dileto casal. Naquela época, tinham se maravilhado com a Chapada Diamantina, e, eventualmente, compraram propriedades por lá. A vida continuava doce. Curtiam em meio da natureza e levantavam uma grana nos fins-de-semana com o pula-pula.
Ian sempre foi muito observador. E, diferentemente de mim, aprendia assim, no olho. Desmontava um rádio quando pequeno para poder montá-lo de novo e entender seu funcionamento. Consertava bicicletas. Adulto, começou a “consertar” gente. Apesar dos meus sermões, muito para minha infelicidade, sacou algumas “técnicas” e começou a estalar a coluna alheia naquele fim-de-mundo. Nunca cobrou por isso, mas uma vez ou outra machucava alguém. Um amigo nosso em comum ficou com a torácica doendo por mais de 01 ano até que eu pudesse tratá-lo corretamente, quando regressei formado ao Brasil em 1996. “Arte de Ian”, eu dizia, contrariado. E admoestava meu amigo por ter tido a imprudência de entregar sua coluna para meu irmão. No entanto, tinha que admitir que não deixava de admirá-lo por isso. Eu, quando estudante, morria de medo de manipular. E ele, sem educação formal, o fazia de uma forma fluida — mesmo que às vezes o caldo entornasse.
O que levou Ian a ter um respeito renovado ao sagrado rito da Quiropraxia foi quando ele ajustou o pescoço de alguém que teve uma convulsão imediatamente depois. A partir daí, ele tomou medo e parou com esta coisa de estalar a coluna dos outros. Finalmente se deu conta de que simplesmente não tinha conhecimento suficiente para fazer aquelas manobras. Já não era sem tempo. Respirei aliviado. Mas pensava: “que magnífico Quiropraxista ele seria, se resolvesse estudar”.
Em 1998 nasceu o segundo filho. Diferentemente da menina, a criança chorava muito. Não dormia. Sofria horríveis espasmos na musculatura paravertebral. Não conseguia segurar o pescoço. Quando minha mãe foi conhecer o neto, ela diagnosticou logo de cara: o menino estava com paralisia cerebral.
Recém-nascido, ele teve icterícia. O cuero amarelo que lhe cobria dificultou identificar a tempo. O médico recomendou banho de sol, mas àquela altura, os níveis de bilirrubina não conjugada (bilirrubina indireta) já absurdamente altos, tinham atravessado a barreira hematoencefálica por ser lipossolúvel (ao contrário da bilirrubina conjugada, que é hidrossolúvel) e se depositaram no tecido cerebral, (principalmente nos gânglios da base e tronco encefálico), causando kernicterus ou encefalopatia bilirrubínica — uma lesão neurológica induzida pela bilirrubina, mais comum em bebês com icterícia grave. “É uma condição rara, porém séria, que pode levar a consequências permanentes, como paralisia cerebral (…) do tipo distônico ou atetósico.” E levou.
Esta tragédia familiar abalou os alicerces do mundo que meu irmão havia tão cuidosamente construído para si e seu pequeno núcleo familiar. Seu filho precisava de fisioterapia constante. Não dava para continuar vivendo no meio do mato em plena Chapada Diamantina. Tiveram que se mudar para Salvador. Eles, que sempre foram independentes, foram forçados a aceitar ajuda financeira da família e favores dos amigos.
Uma noite, angustiado, ele me ligou. Não sabia o que fazer. A vida, já não tão doce, havia lhe pregado uma peça. Não conseguia ver a luz no fim do túnel. A fisioterapia estava dando resultados limitados. Sugeri que se mudasse de volta aos Estados Unidos. Havia, provavelmente, melhores chances de tratamento lá. Ele se irritou imensamente com minha sugestão e me deu uma bela de uma bronca. Queria apenas ser ouvido, e não aconselhado. Depois de desligar o telefone, ficou matutando: se realmente retornasse aos Estados Unidos, além do tratamento do filho, poderia tentar estudar Quiropraxia. A ideia foi crescendo na sua cabeça.
Entrou em contato com o Dr. Krakos, que lhe informou não haver mais bolsas disponíveis. Mas o orientou a se matricular no Palmer mesmo assim. Alguns meses depois, Garry Krakos saiu da instituição.
Passado um tempo planejando, viabilizando e organizando, Ian vendeu o carro velho, o pula-pula, comprou passagens e, em 1999, se mandou com a família para a Terra do Tio Sam. O vôo fazia uma longa escala em Miami. Lá, com pouco dinheiro, com a menina correndo para lá e para cá, com o menino que não parava de chorar, foram para uma famosa “praça com bandeiras em frente ao Aeroporto Internacional (…), localizada na área de desembarque/chegada, com mastro central (e) bandeiras dos países das Américas (…)”.
Vendo toda aquela situação, as olheiras da companheira, o sofrimento do filho, a hiperatividade reacional da filha, ele entrou em desespero. “O que é que eu vim fazer aqui? O que vai ser da minha vida? Não tenho dinheiro para cursar Quiropraxia. Nem sequer sei se o tratamento do meu filho vai ser melhor aqui. O que eu fiz, meu Deus??”
Foi naquele momento que ele avistou uma figura ruiva, sardenta, com orelhas de abano, que tirava fotos das bandeiras naquela mesma praça. Era Garry Krakos — que, por uma incrível coincidência, estava também entre uma conexão e outra e havia resolvido sair do aeroporto também para espairecer um pouco. Conversaram muito. Ian lhe expôs suas agruras, suas angústias, suas preocupações, suas incertezas. Krakos reiterou que ele tinha que manter a fé. Que tudo iria dar certo no final. Que tudo que ele precisava era de vontade e gana. “Where there’s a will, there’s a way“. E que o resto iria se acertar.
Depois que se despediram, meu irmão respirou fundo aliviado. Aquele caos que estava vivendo naquele momento, mais cedo e mais tarde, iria desvanecer. Pegou o vôo para o destino final com sua famlía sereno, resoluto e convicto que as coisas iriam melhorar e que seus objetivos seriam alcançados.
A odisseia que ocorreu depois daria um outro artigo. Mas Ian se formou no Palmer em 2004. Entre perdas e danos, o resultado final foi que a profissão ganhou um Quiropraxista de alto calibre, um talento raro para entender biomecânica, um ajustador de primeira — uma das poucas pessoas que deixo ajustar minha coluna. Meu irmão, meu colega, meu Quiropraxista pessoal. Minha admiração. Meu orgulho.
E mesmo que tenham eventualmente perdido o contato, Dr. Ian Rocha, B.S., D.C. sempre diz sentir-se eternamente grato ao Dr. Garry Krakos por ter aparecido, tratado e lhe aconselhado em momentos diferentes e cruciais da sua vida — sua eterna inspiração. Seu anjo da guarda (e, por tabelinha, o meu também).
Em tempo: como nos tempos do pula-pula, o maninho ainda atende nos rincões da Bahia (ver Artigo 264) — usando a mente e as mãos.