Falta pouco para uma península ser uma ilha. Não fosse conectada ao continente, esta “formação geográfica de terra que se projeta em direção ao mar ou um corpo d’água” seria justamente isto. É “cercada por água por quase todos os lados”. No caso da Península de Maraú, que fica na Costa do Dendê, na Bahia, de um lado temos o oceano atlântico. Do outro lado, uma convergência de rios, entre eles o Piracanga. Trata-se de “um santuário ecológico composto por um conjunto de ecossistemas, a exemplo dos campos naturais, restingas — arbustiva e arbórea — florestas, manguezais, praias, lagoas, piscinas naturais, estuários e recifes”. A tal península virou a queridinha dos turistas — cujos números vêm crescendo exponencialmente desde a década de 90.
Na sua pontinha temos Barra Grande. Outrora uma idílica e pacata vila de pescadores, “com direito a pracinha, feira e igrejinha”, hoje em dia, na época do verão está mais para um formigueiro humano. Barra Grande é a “principal base dos turistas que chegam à Península de Maraú”. A maioria das suas ruas é de chão batido (ou melhor, areia batida). O asfalto ainda não chegou por lá (e, a depender dos grandes empreendimentos, nunca vai chegar). Apesar de meio que explorar os turistas por meio de abusivos pedágios e taxas de entrada, a vila conta “bons restaurantes e comércio capaz de suprir todas as necessidades de alguns dias de viagem. Uma ótima base de hospedagem para os momentos de descanso nas lindas praias da região” — que são calmas, límpidas e absolutamente magníficas. Para chegar, basta enfrentar pouco mais de 50 quilômetros de estrada de terra (que, dependendo das chuvas, pode oscilar entre ótima ou terrível), ou pegar uma lancha rápida no porto da cidade de Camamu, encalacrada na Costa do Dendê. Mas nem sempre foi assim.
A história da minha família confunde-se com a de Barra Grande. Lá pelos anos 60, a vilazinha de pescadores era parte de um imenso latinfúndio esquecido pelo tempo. A família da minha então futura tia de alguma forma chegou por lá e se apaixonou. Convenceu o dono a lotear alguns terrenos e assim nasceu o embrião do que hoje é uma selvagem especulação imobiliária naquelas bandas. O pessoal desta tia era de Jequié-BA e a notícia de tal lugar paradisíaco logo se espalhou principalmente porque não era muito longe de lá (na verdade, a praia mais próxima). Meus avôs maternos se interessaram, compraram um lotezinho com uma casinha simples e passaram a veranear todo ano em Barra Grande.
Até o final dos anos 70 nem existia energia elétrica. Existia, sim, um gerador que deixava de funcionar às 22:00. As casas eram isoladas uma da outra por uma mata exuberante de palmeiras e dendezeiros. As praias eram absolutamente desertas, salpicadas de gamboas (filas de varas fincadas pelos pescadores com redes que, na maré baixa, apanhavam peixes) — que até hoje algumas ainda teimam em existir.
A primeira vez que estive em Barra Grande foi em 1974. Odiei. Vomitei todo o trajeto de 94 quilômetros de uma horrível estrada de terra que ligava Ubaitaba à vila. Em 1977, passei um mês lá com meus irmãos, meus tios e primos. Voltei gaguejando. Nos anos 80, já adolescente, poderia contar com os dedos de uma mão quantas vezes estive em Barra Grande. A estrada, praticamente impraticável, era um exercício de paciência e persistência. Mas a partir da década de 90, as viagens de barco de Camamu se tornaram mais frequentes e fizeram a travessia mais palatável. Mas à esta altura, já estava estudando nos Estados Unidos.
Quando me formei Quiropraxista e retornei ao Brasil, em 1996, após ter passados 8 longos e frios invernos em Iowa, tirando neve da calçada e raspando gelo do para-brisa do carro, estudando e me congelando adoidado, pude, enfim, finalmente ter uma renovada apreciação das belezas naturais de Barra Grande. A vila, apesar de mudada, ainda conservava um quê de pacato. Todo mundo conhecia todo mundo: dos nativos aos veranistas (os turistas, nem tanto — ainda que relativamente poucos se comparados aos dias de hoje). Uma das figuras folclóricas desta então idílica comunidade era um sujeito chamado Zeca Sandália (o nome poderia ter saído diretamente de uma novela de Dias Gomes).
Nunca soube o nome de batismo dele, mas Zeca Sandália era um cara meio biruta que andava a esmo pela vila, ora fazendo bicos, ora tomando café nas casas alheias. É que Zeca, apesar de doido, era também um cara muito simpático, boa praça. Os locais sempre estavam prontos a oferecer-lhe um cafezinho. Ocorre que Zeca Sandália odiava ser chamado de Zeca Sandália. Alguém colocou este apelido de “Sandália” nele e acabou pegando. Quando alguém lhe chamava de Zeca Sandália, ele prontamente devolvia:
— É a mãe!
Se repetissem o nome 3 vezes, ele retrucava 3 vezes:
— É a mãe! É a mãe! É a mãe!
Outro hábito que nosso protagonista cultivava era usar 2 ou mais relógios. Quando alguém lhe perguntava o porquê de tantos relógios, ele solenemente respondia:
— Quem tem dois, tem um. E quem tem um, não tem nenhum.
Zeca era, no fundo, um filósofo.
Andava todo torto, inclinado para a direita. Se não me falha a memória, meio que puxava de uma perna. Reza a lenda que ficou assim, empenado e lelé, após algum acidente (acho que caiu de um coqueiro). Imagino que deve ter batido a cabeça e afetado o juízo, a propriocepção e, de alguma forma, os movimentos. Pois meu avô cismou que eu tinha que ajustar Zeca Sandália. E numa das minhas visitas enquanto veraneava naquele pequeno paraíso, foi justamente isso que me propôs.
— Mas, voinho, o caso de seu Zeca não é um problema de coluna. Parece ser algo neurológico. Como é que eu vou ajustar esse homem sem nenhum exame de imagens, sem maca, sem Ativador, sem nada? Com as mãos é que não, né?
Meu avô, tal qual seu ídolo Getúlio Vargas, era um homem de poucas palavras. Depois de uma pausa cheia de suspense, suspirou e falou:
— Meu filho, eu já te pedi alguma coisa?
Engoli em seco. De fato, o velho não era muito de pedir nada. Nem mesmo um copo d’água. E nas raras vezes que pedia, só pedia uma vez. Caso fosse recusado, nunca pediria de novo. Recapitulei.
— Pode mandar chamar ele, voinho, que eu ajusto seu Zeca. — respondi, resignado.
No finalzinho do dia, lá vinha Zeca Sandália, todo contente, tortinho como ele só e arrantando a perna. Pedi para deitar de bruços no muro baixo da varanda. Coloquei 2 tênis debaixo da pelve dele para obter minha linha-de-correção. E comecei a ajustá-lo com Logan Básico (o IDQUIRO oferece um curso desta técnica). Por ser muito leve e gentil, pelo menos não colocaria o dileto paciente em nenhuma espécie de risco.
Caprichei. Sentia o ligamento sacrotuberoso pulsar e meu polegar esquentar. enquanto os dedos da minha mão auxiliar trabalhava a musculatura paravertebral — e exercia discreta pressão nos processos tranversos (torácicos) e mamilares (lombares), facilitando um leve ajuste passivo nas vértebras em questão. 15 minutos depois, concluído o processo pedi para nosso pitoresco herói se levantar.
Pois não é que Zeca Sandália se levantou todo retinho?
— TA-DAAA! — interjeitou, todo alegre.
Fiquei todo arrepiado — por mais ou menos 2 segundos. Aí, Zeca Sandália começou a se entortar de novo. E saiu da sessão como entrou: empenado e arrastando a perna. Ficou do mesmo jeito? Eterno otimista, sorriu, relatou sentir menos dores, e se foi assoviando feliz da vida. Até parecia puxar menos da perna.
Meu avô ria muito desta história quando volta e meia a contava. Às vezes tinha a impressão que o velho queria mesmo era me pregar uma peça só para ter o prazer de ficar tirando sarro da minha cara. Ele morreu em 1999. Zeca Sandália, acredito, alguns anos depois. Ou antes, até. Não me lembro. Aliás, quase todos os habitantes folclóricos de Barra Grande já não estão mais entre nós. A vila tem sido sistematicamente gentrificada.
Minha mãe acabou herdando a casa de Barra Grande, que foi engolfada pela vila. Mas ainda é um lugar sossegado. Um autêntico Xangri-lá. Quando tivemos filhos, era de praxe passar fins-de-semana durante o verão. Até porque Barra Grande fica somente 135 quilômetros de Ilhéus.
Que lição posso tirar deste curioso episódio?
É por essas e por outras, entre altos e baixos, nos sucesso e fracassos, e mesmos nestes efêmeros “milagres”, que podemos vivenciar o poder da Quiropraxia. Que Deus o tenha, seu Zeca!