Tive uma das minhas melhores experiências quando estudava no Palmer College of Chiropractic durante a matéria Técnicas Toracolombares (ministrada pelo grande Michael Bovee, D.C.), mas não teve nada a ver com as técnicas em si — e sim com uma atividade valendo ponto que foi transformada numa pequena peça de teatro.
O professor dividiu a turma em 8 grupos e sorteou diferentes problemas pontuais na região toracolombar. O intuito era cada grupo fazer uma apresentação que envolvesse sintomatologia, análise postural, palpação estática e dinâmica, instrumentação, radiologia, ajustamento e protocolo de tratamento. A gente ficou com “PRS em L3 com severo envolvimento discal interno ao nível de L3/L4 irradiando para um membro inferior“. Ele disse que valia tudo para apresentar o trabalho — inclusive humor e originalidade.
Naqueles tempos, eu não sabia direito se queria realmente fazer Quiropraxia (a paixão pela profissão veio mais tarde). Até então, gostava mesmo era de turismo, teatro, comunicações e jornalismo. Enxerguei ali uma oportunidade de exercitar minha verve tespiana e propus ao grupo, no encalço do recente sucesso da época Drácula de Bram Stoker (1992), o que aconteceria se o Príncipe das Trevas, tal qual a vespa “cavalo-do-cão” faz com a aranha caranguejeira, provocasse primeiro uma subluxação incapacitante em suas vítimas antes de beber-lhes o sangue? E se o eterno caçador de vampiros Abraham Van Helsing fosse um Quiropraxista?
O pessoal gostou. Escrevi o roteiro. Cada um do grupo contribuiu com as devidas informações didáticas e assim nascia a paródia A Maldição do Drácula (Dracula’s Curse) — encenada entre os dias 10 a 13 dezembro de 1993 (comigo no papel do vampirão usando uma capa preta e caprichando no sotaque romeno). Segue abaixo o roteiro na íntegra, coloridamente traduzido — e escancarando quanta distância aquele ingênuo e então despreparado jovenzinho de 23 anos teria que percorrer para realmente entender a cerne da nossa profissão. Por isso, agradeço desde já a paciência e me desculpo também desde já pelas possíveis incongruências…
A MALDIÇÃO DE DRÁCULA
INT. INGLATERRA, FINAL DO SÉCULO XIX — QUARTO DE DORMIR — NOITE DE LUA CHEIA
Cena 1: (É uma meia-noite nublada, escura e sombria. Lucy está se preparando para dormir quando alguém voa pela janela.)
LUCY — (Assustada) Quem sois vós?
DRÁCULA — Permita-me que eu me apresente. Sou o Príncipe Vlad, da ordem da Draculia. Conde Drácula para os íntimos.
LUCY — Drácula, o vampiro? Oh, não! Por favor, não me machuques. Vais me morder o pescoço e beber meu sangue?
DRÁCULA — Pior, minha cara. Antes de deliciar-me, lançar-te-ei minha patenteada Maldição da Subluxação. (Além de ser um poderoso vampiro e controlar as criaturas da noite, Drácula sabia empregar uma mesóclise maneira como ninguém)
LUCY — Oh, não! (realmente horrorizada) Tudo menos isso!
DRÁCULA — (Fazendo gestos com suas afiadas unhas e tenebrosos dedos de 4 falanges) Tu sofrerás grave comprometimento interno do disco ao nível L3-L4. Haverá dor dermatogênica rápida envolvendo tua perna direita. Serás condenada a viver com L3 perpetualmente em PRS. Penarás com o terrível destino de ter uma protrusão discal posterolateral e viverás o resto de seus dias com déficit sensorial e motor. Aí então, eu beberei o vosso sangue.
LUCY — Ahhhhhhhhhhhhhh!!! (Assume uma incapacitante posição antálgica)
INT. MESMO QUARTO — POUCOS DIAS DEPOIS
Cena 2: (Mina está ao lado da sua amiga Lucy, que acamada, geme de dor. Dr. Van Helsing bate na porta e entra no quarto.)
MINA — Dr. Van Helsing, meu professor e Quiropraxista! Graças a Deus o senhor veio!!
VAN HELSING — Não há de quê, Mina, minha aluna favorita. Mas, pelo que você me contou ao telefone, tenho notícias terríveis.
MINA — O senhor não quer dizer que Lucy tem…
VAN HELSING — Isso mesmo, Mina. Lucy sofre da temida e famigerada subluxação!!
MINA — Oh, não! A humanidade! O horror!
VAN HELSING — Felizmente, sou a maior autoridade em coluna vertebral do mundo. Lucy, deixe-me confirmar isso com você. Há uma semana, você se machucou por causa do infame Conde Drácula. Você tem uma dor lombar persistente que irradia para a superfície interna da sua perna. A dor desaparece quando você se inclina para a esquerda e piora quando se inclina para a direita. Isso a deixou acamada. Estou correto?
LUCY — Sim, doutor.
VAN HELSING — Mina, me parece que a dor é de origem dermatogênica. Como você pode ver, ela está antálgica para a esquerda. A cabeça dela está começando a inclinar para a direita. O que você descobriu com os instrumentos?
MINA — Utilizei um nervoscópio de dupla sonda para obter uma comparação bilateral da temperatura da coluna vertebral, a fim de localizar áreas de inflamação. Observei uma oscilação rápida de 8 incrementos para o lado direito no processo espinhoso de L3. Repeti isso três vezes. Também encontrei uma deflexão menor na área C1-C2.
VAN HELSING — Ótimo. E quanto à amplitude de movimento?
MINA — A extensão dorsolombar estava limitada com dor a 18°. Havia dor mínima na flexão, mas estava dentro dos parâmetros normais. Rotação direita estava limitada e dolorosa a 22°. Rotação esquerda estava dentro dos parâmetros normais, embora ela sentisse dor no final do movimento. Flexão lateral direita estava diminuída e muito dolorosa com apenas 15°. E flexão lateral esquerda apresentava alguma dor, mas com 32°, o que estava dentro da normalidade. Meus achados concordaram com a palpação do movimento.
VAN HELSING — E isto significa…?
MINA — Que o segmento de L3 estava preso em P-A. Além disso, a coluna não girava muito para a esquerda e não se inclinava lateralmente muito para a direita. Também senti calor e hipomobilidade em L3-L4. E alguns espasmos musculares.
VAN HELSING — Hmmm. Interessante. Isso caracteriza uma listagem PRS em L3, o que converge totalmente com meus achados na espinografia. Na incidência lateral, notei uma diminuição da porção posterior do espaço discal de L3-L4. Também houve um aumento no espaço “e” em comparação com os outros segmentos. Na incidência A-P, notei que o processo espinhoso de L3 estava rotacionado 8 mm do centro para a direita. Também notei um aumento do espaço intervertebral direito em L3-L4. Veja a radiografia dela (coloca a imagem contra a luz do candeeiro). Todos os outros achados pareciam normais. O que você descobriu no seu exame neurológico?
MINA — Há um déficit sensorial na face medial da perna dela. Durante o exame, Lucy apresentou dormência nessa área. Houve sensibilidade vibratória dimuída no maléolo medial. Lucy também apresentou diminuição do reflexo patelar. Notei fraqueza no músculo tibial anterior durante a dorsiflexão e inversão. Observei atrofia e diminuição do tônus nesse músculo. Lucy está sentindo dor dermogênica na face medial da perna — mais intensa nos primeiros quatro dias, mas agora já diminuindo um pouco. Ah, também notei uma certa fraqueza no músculo quadríceps.
VAN HELSING — Agora, deixe-me confirmar esses testes ortopédicos com você. O Sinal de Adams foi negativo em relação à escoliose, mas havia alguma dor associada a ele. O Sinal de Avanço (Advancement sign) foi positivo na perna direita, que podia dobrar até 45°. O Teste de Bechterew foi feito sem dor, mas houve dificuldade de levantar a perna direita. O Teste de Lasègue Bilateral mostrou fraqueza ao erguer ambas as pernas — mas com pouca dor. O Teste de Braggard revelou dor referida na perna direita. Houve também alguma dor associada ao Teste de Estiramento do Nervo Femoral.
MINA — Isso mesmo, doutor. Além disso, o Teste de Goldwaite mostrou dor lombar ao movimentar L3 à direita. Não foram observadas falhas no Teste de Kemp. Apenas dor na região lombar durante circundução. O Teste de Lasègue foi positivo na perna direita a 51°. Lucy não conseguiu abaixar as pernas lentamente o suficiente no Teste de Abaixamento das Pernas (Leg Lowering Test) e sentiu dor na região lombar. Ela queixou-se de dor indeterminada irradiando pela perna direita durante o Teste de Lewin. O Teste de Lewin-Gaeslen mostrou dor no lado direito. Lucy conseguiu sustentar a perna, mas sentiu dor ao Sinal de Minor. Ela também sentiu dor ao girar para o lado direito quando o senhor realizou o Teste de Inclinação de Neri. Os demais testes foram negativos.
VAN HELSING — Bem, ao que me parece, os exames ortopédicos mostraram, de fato, um comprometimento lombar de L3-L4, com alguns indícios de dor dermatogênica. Estes exames indicam algum transtorno interno do disco, que não dá para visualizar na radiografia. O déficit motor implica um estado patológico. Agora, Lucy, eu sei que Drácula é um monstro maligno, maléfico, horrível e ainda por cima feio pra chuchu. Mas ele não poderia ter causado este transtorno discal.
LUCY — Mesmo que melhore quando ponho gelo, a bem dizer da verdade eu sempre tive um certo grau de dor nas costas. Drácula só fez piorar a situação.
VAN HELSING — Aqui, deixe-me mostrar (coloca a imagem contra a luz da vela). Veja, esse tipo de lesão precisa ter mais de uma semana. O que posso fazer é ajustar a vértebra L3. Mas você precisa fazer certos tipos de exercícios. Deve continuar usando gelo por 15-20 minutos com intervalos de 1 hora e repetir o procedimento quantas vezes for necessário. O gelo ajudará a reduzir o inchaço. E eu irei tratá-la inicialmente 3 vezes por semana, reduzindo o número de visitas de acordo com o seu progresso durante os próximos 4 meses.
LUCY — Obrigada, doutor.
VAN HELSING — Mina, vou aplicar uma manobra de contato de mão única (Single Hand Contact — SHC ) no lado direito do processo espinhoso de L3 da Lucy, com ela de bruços. Observe (ele a ajusta). Talvez a inteligência inata dela cuide do resto.
MINA — Mas e o Drácula, doutor?
VAN HELSING — Depois que eu der um jeito nele, o vampiro nunca mais causará uma subluxação!
INT. MESMO QUARTO — NA MESMA NOITE
Cena 3: (Drácula entra nos aposentos furtivamente pela janela. Quando arranca a coberta, descobre não ser Lucy deitada na cama, e sim uns travesseiros. Van Helsing, atrás da cortina, surge repentinamente.)
VAN HELSING — Pare! Não se mexa, Criatura do Cão! Eu vos ordeno!!
DRÁCULA — Ora, ora, ora… Se não é Van Helsing, o Quiroprático. (É tática do tinhoso intimidar o profissional, desmerecendo-o com esta vil terminologia) Eu sou vampiro, vampyr, Nosferatu, o Rei dos Mortos-Vivos. Eu sou Drácula, o invencível! Como planejas tu me destruir? Ajustar-me-ás até a morte, talvez? (ri vilanescamente)
VAN HELSING — Não, demônio! (o uso leviano da mesóclise irritou profundamente o doutor, que decidiu revidar) Destruir-te-ei com isto! (Faz o gesto de SHC e aponta para o vampirão)
DRÁCULA — Arrrrrrggh! Meu ponto fraco, como descobriste? Gonstead não!!! Gonstead nãããããoooo!!! (se esfacela, decompõe e vira pó)
VAN HELSING — Pronto, agora o mundo está livre do Drácula. Mas quando estaremos livre da subluxação?
FIM
Em tempo: Havia algo de metafísico entre Drácula e Van Helsing que extrapolava tempo e espaço:
O Rei dos Vampiros e o Quiropraxista estavam literalmente à frente do seus tempos — pelo menos nesta fanfiction.
Vejam também que na peça eu não menciono como Lucy se sentiu após o ajustamento. Em retrospecto, talvez tenha sido um reflexo das minhas próprias incertezas quanto à eficácia da Quiropraxia. Mais de 3 décadas de clínica depois, minhas dúvidas se dissiparam. Nossa profissão é realmente incomparável.
Só não me lembro que nota nos deram, mas tenho certeza que não foi um “10”. Bem possível de ter sido besteirol demais para o paladar do Dr. Michael Bovee.