É como juntar a fome com a vontade de comer. Se a gente vai gradativamente perdendo massa muscular a partir dos 30-40 anos podendo chegar a um terço com a idade avançada, e se esta perda muscular se passar também na musculatura eretora da coluna lombar, então temos nas nossas mãos um problema (ver Artigo 258). Porque, como todo Quiropraxista está careca de saber, 80% da população sofre ou sofreu de dores na coluna. E dor lombar crônica então, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), afeta 619 milhões de pessoas mundialmente — número este que pode aumentar para 843 milhòes em 2050. É a principal causa de incapacidade em todo o mundo. Sim, ter dor crônica e perda muscular é como juntar a fome com a vontade de comer.

Dor lombar crônica “é uma condição musculoesquelética que dificulta a movimentação e afeta seriamente a qualidade de vida, podendo atingir qualquer pessoa. Causada principalmente por má postura durante atividades cotidianas, (…) a doença pode causar profundas alterações biomecânicas, musculares e posturais”, prejudicando “severamente a capacidade funcional, levando à atrofia muscular, limitação do movimento, inflamações, fadiga precoce, perda da estabilidade e outros problemas”. A dor limita movimento. E isto causa ainda mais perda muscular.

O que todo Quiropraxista já sabia foi provado em mais um estudo publicado em julho de 2025 na revista científica The Lancet Regional Health – Europe. Na busca para “identificar possíveis fatores de risco modificáveis para o problema” da lombalgia crônica, pesquisadores da Alemanha investigaram a ligação “entre a composição muscular corporal e esse tipo de dor”:

  • Analisaram dados de 27.518 participantes entre 19 e 74 anos;

  • Utilizaram “ressonância magnética de corpo inteiro com apoio de inteligência artificial para mapear a composição muscular”;

    Neste âmbito, “levaram em conta também fatores que influenciam na composição corporal, como idade, sexo, prática de atividade física e a presença de comorbidades, osteoporose e colesterol alto”.

  • Concluíram “que maiores níveis de gordura entre os músculos da região torácica e da lombar estão associados a uma maior probabilidade de dor lombar crônica. Por outro lado, quem conta com mais massa muscular nessa parte do corpo tem menor tendência a sofrer com o quadro”.

Pois é. O que todo Quiropraxista já sabia. Mas é sempre bom ter isso comprovado num estudo — especialmente envolvendo esta quantidade de participantes.

Seria interessante considerar também outros fatores — não só os psicológicos e sociais, mas também os nutricionais e ocupacionais, que “precisariam ser incluídos nas próximas investigações”, de acordo com o ortopedista Luciano Miller, do Einstein Hospital Israelita. “Mas, ainda assim, trata-se de um estudo de suma importância no entendimento de fatores relacionados a uma doença tão prevalente”, ressalta. “Segundo Miller, que também é professor livre docente da Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo, a proporção de tecido adiposo nos músculos da região dorso-lombar é influenciada por fatores como sedentarismo, envelhecimento, dieta, obesidade, resistência insulínica, questões hormonais, inflamatórias, além da própria genética do indivíduo.” Teria sido também interessante haver um estudo sobre “o efeito da perda de peso na proporção de gordura intermuscular” — especialmente nas cirurgias bariátricas.

A questão psicológica e social pode causar diversos outros problemas relacionados, como “ansiedade, estresse, depressão, isolamento, incapacidade laboral e outras sérias consequências na qualidade de vida”.

Ainda assim, “para o ortopedista Fernando Jorge, membro da Sociedade Americana de Medicina Regenerativa (ASRM) e do Conselho Americano de Medicina Regenerativa, o trabalho traz uma boa perspectiva para o cuidado dessa dor incapacitante. Ele sugere fortemente que fatores de risco modificáveis, como a composição muscular, podem ser alvos para prevenção e tratamento”.

E, não esqueçamos, há o fator medo. Crises de lombalgia muitas vezes geram uma espécie de “Síndrome do Gato Escaldado”. Esta expressão, tirada do ditado “gato escaldado tem medo de água fria”, ilustra as autolimitações que a pessoa se impõe por receio de ter uma crise novamente. Alguns movimentos serão evitados por puro medo de sentir dor. Não deixa de ser uma forma de autoproteção, mas também é um fator psicológico que deixa o sujeito sem fazer atividades físicas ou até cotidianas. E isto “traz uma série de consequências graves” que acabam intensificando mais ainda a dor. A condição já afeta seriamente a musculatura da região lombar, mas a (“Síndrome do Gato Escaldado”) “piora a ativação dos músculos principais na estabilização da coluna lombar e no controle postural. Quando os músculos estabilizadores se tornam ineficientes, outros tecidos e estruturas — que não têm essa função — são sobrecarregados na tentativa de compensar a falta de suporte.” Medo, a longo prazo, pode até ser pior do que as crises.

A solução é mobilizar, mobilizar e mobilizar. Nisso a Quiropraxia é mestra. Por ajustar segmentos específicos da coluna que estão fixados ou com hipomobilidade, o tratamento promove movimento e maior ativação muscular — sobretudo nos eretores da coluna (iliocostal, longuíssimo e multífidos) e na musculatura mais intrínseca (interespinhoso e intertransverso). Mas isso é só o início. É necessário reabilitar. Exercícios pontuais que ativem esta musculatura são de extrema importância.

Por incrível que pareça, as soluções podem vir até de simples objetos, como, por exemplo, um rolo de massagem — cujos efeitos do uso como opção para tratar a dor lombar crônica foram investigados por Pesquisadores da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP. A pesquisa foi desenvolvida por Dárcio Esteves Ruiz Filho e orientada pelo professor Júlio Cerca Serrão e teve como objetivo “verificar se, após a utilização de um rolo de massagem, o comportamento muscular seria alterado em movimentos que simulam atividades da vida diária”:

  • “20 voluntários com dor lombar crônica realizaram testes no Laboratório de Biomecânica da EEFE. (…) No primeiro dia, os participantes realizaram a caracterização de seus parâmetros biomecânicos, ou seja, uma coleta de dados da ativação natural dos músculos e outras estruturas. Depois passaram por dois protocolos em dias distintos: um placebo e outro experimental”;

  • “Na sessão experimental, os participantes deitaram sobre o rolo e realizaram sozinhos movimentos de ‘vai e vem’ por dois minutos, massageando a coluna lombar e torácica;

  • Já na sessão placebo, os participantes deitaram de barriga para baixo e o avaliador aplicou o rolo, mas sem exercer nenhuma força de compressão nas costas da pessoa;

  • Em seguida, os voluntários executaram tarefas que avaliaram a ativação dos músculos abdominais e lombares e a percepção da dor, verificando a eficiência da aplicação do método.

    As atividades realizadas foram o teste de resistência muscular; exercício stiff; pegar algo do chão (com e sem flexão de joelhos); flexão e relaxamento do tronco; sentar e levantar; e rotação de tronco sentado.

  • Após os testes, uma nova coleta de dados foi realizada.

    Os voluntários também responderam a um questionário nos dois dias, antes e depois da aplicação do rolo ou do placebo. O objetivo era registrar o nível de dor (em uma escala de 0 a 10) e verificar a influência da técnica nesse sentido.”

“(…) o estudo verificou a redução de ativação de um músculo estabilizador da coluna quando o corpo senta e levanta, diminuindo o esforço de todo o sistema muscular. Simultaneamente, houve ganhos na mobilidade e na velocidade de rotação do tronco, podendo contornar a fadiga precoce”. Mas por si só, “uma única aplicação da liberação miofascial não diminuiu, de forma aguda, a percepção de dor dos participantes. (…) O pesquisador ressalta que ‘a dor é muito subjetiva e torna difícil a comparação direta’, sugerindo que níveis elevados de medo e evitação da dor (olha eles de novo!) podem ter influenciado os resultados do estudo (…) e que a sensação de alívio proporcionada pela técnica, individual e psicológica, e que seu uso ainda precisa de mais investigação como tratamento”.

“Outro benefício encontrado foi uma melhora significativa na velocidade do movimento do tronco. Esse é um ponto positivo, já que pessoas com dor lombar crônica tendem a entrar em fadiga mais rápido, ter movimentos reduzidos e menor velocidade angular.”

“A conclusão sobre os achados é que a técnica pode reduzir a ativação excessiva dos estabilizadores da coluna, potencialmente contribuindo para uma movimentação mais eficiente e menos custosa para os indivíduos com dor lombar crônica. Trata-se de um recurso que pode auxiliar no tratamento da condição e que deve ser mais investigado em pesquisas futuras.”

Ajuda, portanto, ter a opção de usar o rolo de massagem como uma alternativa não farmacológica e bem pouco invasiva “para aliviar tensões e dores musculares. A técnica consiste em uma espécie de massagem lenta e contínua, feita com rolos de espuma, bastões, bolinhas de tênis e até com as mãos. Se for executada corretamente e sob orientação profissional, pode favorecer a recuperação funcional dos músculos, a mobilidade e o bem-estar”.

Exercícios pontuais também são vistos como boa opção para tentar ativar a musculatura eretora da coluna. André Evaristo Marcondes, ortopedista especializado em coluna do Núcleo de Medicina Avançada do Hospital Sírio-Libanês, explica que sua prática regular “é um dos pilares para a prevenção de dores e lesões na coluna. ‘A musculatura do tronco funciona como um sistema de proteção. Quando ela está fortalecida e alongada, a coluna é menos sobrecarregada nas tarefas do dia a dia, o que reduz consideravelmente o risco de desgastes e lesões'”. relata.

“Segundo o especialista, manter a coluna em movimento com atividades adequadas melhora a postura, a mobilidade articular e a estabilidade da região lombar. Além disso, reduz os efeitos nocivos do sedentarismo, como o enrijecimento muscular e a má distribuição das cargas corporais. ‘Muitas pessoas só procuram ajuda quando a dor já se tornou incapacitante. Mas o ideal é atuar de forma preventiva. Com um bom acompanhamento profissional, é possível adotar rotinas de treino que respeitem os limites do corpo e fortaleçam os grupos musculares mais importantes para a coluna’, reforça.”

Elevação Pélvica é comumente referida no Pilates como Ponte com Báscula Pélvica (que é o movimento da crista ilíaca “para dentro” e do púbis “para o teto” durante a tal elevação). Essa daí pode ajudar bastante no fortalecimento dos glúteos e deveria ser parte integral da rotina de treinos — sem falar nas vantagens tangíveis:

  • Alívio da Dor

    “Trabalha os músculos extensores do quadril para quem tem dores nos membros inferiores.”

  • Mobilidade

    “Ativa o glúteo máximo, essencial para tarefas corriqueiras, como levantar, subir escadas e correr.”

  • Robustez

    “Fortalece o assoalho pélvico, que envolve bexiga, intestino, útero, ovários e próstata.”

Em relação a equipamentos, “a Elevação Pélvica pode ser feita de forma livre, na máquina e com ou sem barra”.  Fazê-la é simples, mas talvez seja melhor a orientação de um profissional — pelo menos no princípio. Até porque, se a posição estiver inadequada ou se colocar muita carga na coluna, pode muito bem causar algum tipo de desconforto na região lombar.

  • “Para executar corretamente, fique com as costas apoiadas, alinhando a coluna e o quadril.”

  • Caso este exercício seja feito no chão, “os pés podem ficar mais próximos ao quadril, flexionando mais os joelhos e forçando o quadríceps”.

  • “Em seguida, eleve a pelve de forma que os joelhos sigam o alinhamento do corpo.”

Sim, dá para gerenciar melhor as dores lombares crônicas — às vezes através simplesmente adotar hábitos mais saudáveis. Determinadas atividades físicas são uma das estratégias mais eficazes nesse processo. “Há evidência de que programas de reabilitação com treino de força, controle nutricional e emagrecimento podem ajudar a reduzir a gordura intermuscular”.

“No entanto, os efeitos são modestos e lentos, e dependem da intensidade, regularidade e individualização dos treinos”, alerta o doutor Luciano Miller. É um trabalho de formiguinha. mas vale a pena.

Devidamente ajustada e com Quiropraxia, hoje em dia há uma infinidade de opções de reabilitação da musculatura lombar. “Modalidades como Pilates (ver Artigos 90 e 189), yoga (ver Artigo 156), musculação supervisionada, caminhadas e hidroginástica estão entre as mais recomendadas para quem busca preservar a saúde da coluna. Em casos de histórico de dores crônicas ou cirurgias na região, a avaliação com um ortopedista ou fisioterapeuta é indispensável antes do início de qualquer prática”. Exercícios através do Método Mackenzie podem ajudar bastante também.

“Não existe receita única. O melhor exercício é aquele que se encaixa na realidade do paciente, que ele consegue manter com regularidade e que, claro, contribui para o fortalecimento muscular equilibrado”, orienta Dr. André. O especialista também alerta para a importância de alongamentos e pausas durante o dia, especialmente para quem trabalha muitas horas sentado ou em pé. Com o avanço da medicina, hoje se sabe que a maioria dos casos de dor na coluna pode ser tratada com medidas conservadoras sem necessidade de cirurgia.

E o movimento é, sem dúvida, uma das chaves para evitar que a dor limite a vida.”