Não sei se isso se aplica a qualquer consultório de Quiropraxia, mas, pelo menos na minha experiência, apesar de atender gente de todos os tipos, credos, raças e faixa etária, se eu fosse isolar o grupo mais prevalente, seria de mulheres de meia-idade, provavelmente menopáusicas. E, de acordo com este artigo, isso não ocorreria por acaso…

Então, vamos lá. Antes de começarmos a investigar a relação entre menopausa e dores lombares crônicas, convém revisar e esclarecer alguns termos:

  • Que o “climatério é um período de vida da mulher de transição entre a fase reprodutiva e a não reprodutiva que se estende dos 40 aos 65 anos de idade e tem como marco, evento fisiológico (normal) a menopausa”.

  • Que a “menopausa corresponde ao último período menstrual espontâneo, representado para o profissional de saúde, retrospectivamente, após 12 meses consecutivos de ausência de menstruação, em decorrência de insuficiência ovariana fisiológica e permanente (declínio da produção de hormônio estrogênio ovariano)”.

Considerando a variação dos sintomas que mudam dependendo da pessoa, e as interferências sofridas pela “dieta, perfil socioeconômico, aspectos culturais e inclusive climáticos”, o climatério pode ser dividido, “didaticamente, em três períodos, tomando a menopausa como ponto de referência: pré-menopausa, menopausa e pós-menopausa”.

  • A pré-menopausa é uma transição “do período reprodutivo para o não-reprodutivo” e “geralmente se inicia no final da quarta ou ao longo da quinta década de vida das pessoas com útero e ovários, podendo variar individualmente. Nela ocorrem os primeiros sintomas indicativos da aproximação do evento menopáusico, podendo ocorrer entre 3 e 4 anos antes da menopausa propriamente dita, caracterizam-se por alteração do padrão dos ciclos menstruais que é um dos principais indícios desse período, e também sintomas típicos como ondas de calor (fogachos), transtornos de humor e distúrbios do sono”.

    Em alguns casos, “essa condição do organismo feminino costuma durar entre 3 e 7 anos e geralmente se inicia nas mulheres com cerca de 40 anos de idade”.

    “A pré-menopausa ocorre por conta da diminuição gradativa de hormônios sexuais femininos, como o estrogênio, o LH e o FSH, por exemplo, o que resulta em alterações facilmente notáveis tanto na parte física, se expressando na famosa dor nas costas, quanto na parte mental, quando surgem frequentes alterações de humor.”

  • “A pós menopausa é o período que segue após a última menstruação espontânea. Esse período é caracterizado pela intensificação dos sintomas causados pela deficiência de estrogênio. Nos primeiros anos de pós menopausa podem aparecer os sintomas vasomotores, principalmente representados pelos calores e sudoreses de intensidade variada, alterações de sono e humor. Nos anos subsequentes e mais tardios, geralmente acima de 10 anos, podem ser observados sintomas associados aos distúrbios geniturinários (dor ao urinar, secura vaginal e dor vaginal na penetração sexual) , metabólicos e cardiovasculares (predisposição a distúrbios de colesterol, triglicérides, glicemia sérica)  e do sistema ósseo (predisposição a osteoporose e dor em articulações). Nem todas as mulheres apresentarão estes sintomas e predisposições.”

O termo “perimenopausa” é também usado. “Esse período inclui desde o início das alterações menstruais (alterações de período, duração e fluxo menstruais) e/ou sintomas menopausais, incluindo os últimos 12 meses de ausência de menstruação (menopausa).”

Nos dias de hoje com o aumento da expectativa de vida, não é incomum a mulherada passar  “quase um terço de sua vida na menopausa”. Distúrbios musculoesqueléticos e outras comorbidades aparecem com alguma frequência. Um deles é a dor lombar crônica. E, de fato, este trabalho de 2006 que analizou 2218 mulheres menopáusicas, observou que 61% delas “relataram dor na coluna lombar”.

Ocorre que, onde há menopausa, há diminuição de estrogênio — e “estudos que acompanham mulheres durante e após a menopausa encontram ligações entre a redução do estrogênio (o hormônio reprodutivo feminino) e o desgaste dos discos intervertebrais e outras estruturas da coluna.”

“(…) o estrogênio pode afetar a reação de osteoblastos, osteócitos e osteoclastos”. Por “regular o conteúdo e o metabolismo do disco intervertebral, (…) a ausência de estrogênio em mulheres na pós-menopausa” pode ter um correlacionamento com degeneração discal.

Então os baixos níveis deste hormônio aparentemente exercem considerável influência na integridade dos discos intervertebrais, que, por sua vez, pode ser um dos fatores num quadro de dor lombar crônica (que é mais prevalente em mulheres do que em homens, e também aumenta com a idade). Como resultado, “mulheres que passam pela menopausa têm um risco maior de desenvolver dor relacionada a problemas na coluna durante esse período e nos anos seguintes”.

Portanto, além das já óbvias “alterações funcionais e estruturais em diversos órgãos e sistemas do corpo humano, bem como psicológicas e sociais” e da “questão hormonal e metabólica”, a pré-menopausa pode também afetar e tornar mais frágeis “a musculatura, articulações e tecidos ósseos femininos” — e, por consequência, causar mudanças posturais.

A tal “reação de osteoblastos, osteócitos e osteoclastos” provocadas pela diminuição de estrogênio, pode, ao longo dos anos, “ocorrer a redução da massa óssea quando comparado com o homem, o que desencadeia um desequilíbrio na remodelação óssea, tendo por consequência a osteopenia e futuramente a osteoporose (ver Artigo 89).

Parte destas “mudanças posturais” é devido a “um aumento da curvatura da coluna torácica, não somente (…) a uma degeneração das vértebras, mas também à osteoporose já citada e alteração nos discos intervertebrais, gerando desta forma a sobrecarga das estruturas que geram estabilidade para a coluna”.

E, claro, juntando a fome com a vontade de comer, além de tudo isso, “existe também uma redução da capacidade dos ligamentos da coluna vertebral e fraqueza dos músculos extensores do tronco, responsáveis pela manutenção da postura e proteção articular (ver Artigos 258276 e 282). Essa alteração biomecânica da coluna vertebral (movimentação externa e interna), promove uma alteração na distribuição das cargas nos corpos vertebrais, o que acentua o risco de sobrecargas nos discos intervertebrais e alterações das inervações vertebrais”.

O resultado, como não poderia deixar de ser, é dor.

Isto é embasado por pesquisas e não tende a se resolver com medicação, náo.

Por exemplo, neste estudo de três anos, os pesquisadores examinaram “67.963 mulheres pós-menopáusicas com idades entre 50 e 79 anos com dor crônica (dor lombar, dor no pescoço, dor de cabeça, dor nas articulações ou rigidez)”. Observou-se que o aumento do IMC (Índice de Massa Corporal) acima de 30 parece estar “associado ao agravamento da dor”.

Curiosamente, “quando um grupo que usava opioides foi comparado ao grupo que não usava opioides, descobriu-se que o primeiro tendia a ter piores pontuações de dor (média de 41 vs. 72,6), pior funcionamento físico (56,8 vs. 80,6), IMC ligeiramente maior (29,5 vs. 27,3), eram mais propensos a serem incapacitados (13,5% vs. 1,9%) e eram mais propensos a serem diagnosticados com depressão (20,5% vs. 11,1%)”. Ou seja, a emenda (com analgésicos) pode ser pior do que o soneto.

Bem… Pelo menos nisso podemos ajudar. O que não falta são pesquisas constatando a eficácia da Quiropraxia no tratamento de dores lombares. Em 2015, esta revisão de pesquisas publicadas sobre o relacionamento entre a idade perimenopausal e a dor lombar mencionou 3 delas:

  • Nesta, de 1998, comparou-se os efeitos de 3 abordagens diferentes no tratamento / gerenciamento das dores lombares de 321 adultos: fisioterapia (através do Método Mckenzie); Quiropraxia (através de ajustamentos); ou através de simplesmente fornecer um livreto educacional sobre dor lombar.

    Neste estudo, pacientes com ciática foram excluídos. Cada tratamento de fisioterapia ou Quiropraxia teve duração de 30 dias (“o número de consultas foi determinado pelo profissional, mas limitado a um máximo de 9”). Houve acompanhamento de 2 anos pós-tratamento. “O incômodo dos sintomas foi medido em uma escala de 11 pontos, e o nível de disfunção foi medido na Escala de Incapacidade de Roland, de 24 pontos.”

    O estudo concluiu que a os exercícios de Mckenzie (fisioterapia) e ajustamentos (Quiropraxia) “foram igualmente eficazes em termos de sintomas, funcionamento, satisfação com o cuidado, incapacidade, recorrências de dor nas costas e visitas subsequentes para dor nas costas”. Mas também que os resultados do grupo do livreto não ficava muito atrás, não — o que prova que não podemos desconsiderar o tempo como fator de melhora. O que o estudo não menciona é a taxa de reincidências em cada um destes grupos.

  • este, de 1995, comparou tratamento dentro e fora dos hospitais. Escolheram “741 homens e mulheres com idades entre 18 e 64 anos com dor lombar, nos quais a manipulação não foi contraindicada” e que foram tratados por terapeutas dentro dos hospitais e Quiropraxistas (fora dos hospitais). Os resultados foram medidos através da “alteração na pontuação total do questionário Oswestry e na pontuação para dor e satisfação do paciente com o tratamento alocado”.

    Os pacientes tratados por Quiropraxistas tiveram uma pontuação 29% maior no questionário Oswestry — e isso continuou a ser observado num período de 3 anos (os que foram tratados por Quiropraxistas continuaram o tratamento para dor lombar “após a conclusão do tratamento experimental” — o que sustenta o argumento que tempo, paciência e persistência são fatores imprescindíveis de melhora.

    “Tanto entre aqueles inicialmente encaminhados por Quiropraxistas quanto por hospitais, mais pessoas avaliaram a Quiropraxia como útil em três anos do que a gestão hospitalar.” E isso representa um potencial econômico enorme para os planos de saúde.

  • Um relatório de 2010sobre as evidências científicas para o tratamento manual da dor (incluindo dor lombar) na Grã-Bretanha concluiu que a manipulação e mobilização da coluna são eficazes em adultos para dor lombar aguda, subaguda e crônica” (neste mesmo relatório, observou-se também que massoterapia é eficaz “em adultos para dor lombar crônica”).

    Além das lombalgias, manipulação/mobilização da coluna é eficaz em adultos para: dor cervical aguda/subaguda; enxaqueca e cefaleia cervicogênica; tontura cervicogênica; e condições articulares das extremidades (ver Artigo 265). Muitas dessas queixas estão presentes na perimenopausa.

Esta montanha-russa hormonal, com níveis de estrogênio e progesterona subindo e descendo faz com que o corpo da mulher responda “com calores repentinos, insônia e variações de humor”. E mesmo que ela sinta não ser mais a mesma pessoa, é fato que a perimenopausa coincida com mudanças associadas a meia-idade: os filhos crescem e saem do ninho; os pais envelhecem e precisam de cuidados; a carreira passa por redefinições. “É um caldeirão de fatores biológicos, emocionais e sociais que pode redefinir prioridades“.

De acordo com Cristina Formiga, endocrinologista do Hospital Samaritano Higienópolis, sendo o estrogênio o principal protagonista desse período, sua queda pode afetar “inclusive o cérebro. ‘Essas oscilações provocam uma dificuldade de concentração e o brain fog, ou névoa cerebral’, diz a médica. A consequência prática pode ser esquecimentos, irritabilidade e até dificuldade em manter a atenção”.

“As oscilações hormonais podem, por si só, desencadear alguns sintomas depressivos e ansiosos, mas também deixam a mulher mais vulnerável a desenvolver um transtorno depressivo ou ansioso”, explica Alexandre Okanobo, psiquiatra do Einstein Hospital Israelita“.

Pois é: diminuição de estrogênio, dores nas costas, mudanças de humor, ondas de calor, depressão… Falando assim parece que a menopausa é nociva, né? Mas só tem o potencial de ser. Por incrível que pareça, ela cumpre um papel fisiológico. E também muita gente relata melhoras de quadro álgico depois de “menopausar” (inclusive, “menor incidência de dores de cabeça durante a menopausa” entre as mulheres norueguesas desta pesquisa).

Alguns desses sintomas podem até acabar contribuindo fisiologicamente para a preservação do desejo sexual — apesar dos relatos de diminuição da libido (aparentemente 10% a 15% da mulheres perimenopáusicas, de acordo com este estudo). Isso quer dizer “que nove em cada dez mulheres ainda podem sentir o desejo de fazer sexo“. Sim, a menopausa pode significar também uma certa liberdade — já que o medo de engravidar fica fora da equação.

Ainda assim, para aquelas que sentem os fatores adversos discutidos neste artigo, é possível passar sem tudo isso — sobretudo no que concerne a parte das dores de coluna. Apesar de haver necessidade de medicação, “estratégias não farmacológicas são fundamentais. Alimentação saudável, exercícios, suplementação vitamínica quando necessária e psicoterapia estão entre as principais recomendações”. Quiropraxia também.