No dia 17 de outubro de 2025, o músico Lô Borges foi internado após passar mal em sua casa.
Era simplesmente um gênio. E um dos maiores da sua geração. “Conhecido por ser um dos fundadores do Clube da Esquina ao lado de Milton Nascimento, a carreira do artista é também marcada por composições como Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, O Trem Azul e Paisagem da Janela.”
Uma curiosidade: Lô, um então rapazote de 19 anos, por um triz não participou da gravação do antológico álbum duplo e comemorativo Clube da Esquina nos idos de 1971 — “e que até hoje encabeça listas de melhores discos já lançados no país”. É que os executivos da gravadora EMI achavam que ele, que nunca havia gravado nada, “era jovem demais para se misturar no estúdio a músicos devidamente testados e com uma carreira em andamento, como era o caso de Milton Nascimento, o já famoso autor de Travessia, e dos experientes Wagner Tiso e Toninho Horta”. Mas Milton não se fez de rogado e bateu o pé. Disse que, ou o menino entrava ou todos saíam. E “eles não querendo perder o Milton, me levaram de brinde”, brincou o compositor, em participação no programa Um Café Lá em Casa, do guitarrista Nelson Faria. A sua carreira deslanchou a partir daí.
A internação, que pegou o próprio músico de surpresa, foi causada por intoxicação medicamentosa. Lô Borges, aos 73 anos, cumpria agenda intensa de turnês e gravações, e devia estar exausto fisicamente. Seu irmão declarou ao G1 que “o cantor era ‘alérgico a alguns medicamentos e até alimentos'”. Suspeita-se, portanto, que houve um exagero na ingestão de medicações antialérgicas. Isso, somado à esta fragilidade física, levou-o ao hospital. E de lá não saiu vivo.
Na época em que foi internado, seu estado era grave, mas estável. A piora, a partir daí, foi gradativa. Alguns dias depois (25/10), “chegou a ser submetido a uma traqueostomia para facilitar a respiração com auxílio de ventilação mecânica”. No dia 31 de outubro, “começou a passar por hemodiálise“. E no dia 2 de novembro, não resistiu e faleceu por falência múltipla dos órgãos. Sua morte teve repercussão internacional. O Brasil perdeu um expoente importante da MPB.
Isso levou uma discussão nas redes sociais sobre a questão do uso excessivo de remédios — discussão esta de breve duração (como é de costume neste tipo de mídia). Mas o assunto é relevante e exponencialmente mais comum do que alguma reação adversa a Quiropraxia — que, contrário da intoxicação medicamentosa e automedicação, sempre acaba nos notíciários. Só que, quando o assunto cai no campo da medicaçào, quase ninguém comenta.
Se o organismo é exposto a medicamentos “utilizados em doses além daquelas que possuem efeito terapêutico“, e que venham a provocar “manifestações com sinais sintomas decorrentes das alterações bioquímicas e funcionais no corpo”, fica então caracterizado a intoxicação medicamentosa.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) classifica esta condição como um tipo de “evento ou reação adversa”, definido como um “efeito nocivo não esperado”. E mesmo que se manifeste de forma leve, “a intoxicação por medicamentos representa um sério risco à saúde” (Lô Borges que o diga). A causa principal é o “uso irracional ou inadequado de medicamentos”.
“Pesquisa descritiva e quantitativa, de base populacional, conduzida por farmacêuticos, dá conta de que pelo menos 1.255.435 casos de intoxicação foram registrados no Brasil, entre 2012 e 2021. Destes, 596.086 casos de intoxicações foram provocados por medicamentos (47.5%), com prevalência feminina (72,11%), e o principal motivo relatado foi tentativa de suicídio, presente em 391.635 notificações, o que corresponde a 65,70% dos casos de intoxicações medicamentosas.”
“Concluiu-se que a intoxicação medicamentosa ocorre pela: desinformação, acesso facilitado a medicamentos, automedicação inescrupulosa e autoextermínio, sendo necessárias políticas de prevenção, a fim de evitar o crescimento da automedicação.”
Há fatores adicionais que constantemente contribuem para este quadro:
Este primeiro fator acima, o da automedicação, tem sido um problema constante e cultural no Brasil. Temos um número enorme de farmácias por aqui. “Além disso, o principal motivo associado à problemática da automedicação é a fácil aquisição de medicamentos (…), como afirma o conselheiro federal de Farmácia pelo Piauí, Ítalo Rodrigues, que também participou da pesquisa. “O Brasil está no quinto lugar na lista mundial de consumo de medicamentos e em primeiro lugar na América Latina”. E ressalte-se que “cerca de 20 mil pessoas morrem anualmente no país como consequência da automedicação“, de acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas (Abifarma)”.
Não é à toa que volta e meia este tópico vem à tona neste blog (vide artigos 63, 103, 161, 211, 249, 256, 260 e 267).
Mas já que este artigo em particular discorre sobre intoxicação medicamentosa, discorramos, pois, numa tangente, sobre o que pode acontecer com superdosagens de dois analgésicos e anti-inflamatórios tidos como inofensivos pela população em geral: paracetamol e aspirina.
Analgésico vendido sem prescrição médica e geralmente muito seguro (mas não inofensivo), o paracetamol é um ingrediente comum em mais de 100 produtos — e é aí onde mora o perigo. Se acaso uma pessoa consumir vários medicamentos com prescrição médica de combinação que contenham este ingrediente, intoxicação pode inadvertidamente acontecer. “Muitos preparados destinados à administração infantil estão disponíveis em forma líquida, em comprimidos e em cápsulas; os pais podem administrar vários preparados simultaneamente ou espaçadamente em várias horas para tratar uma febre ou dor, sem perceberem que todos contêm paracetamol” — cuja marca mais famosa é o Tylenol®.
Felizmente não é fácil se intoxicar com paracetamol. Para uma pessoa de 70 kg, por exemplo, recomenda-se a dose “de dois a três comprimidos de 325 mg a cada seis horas”. Toxicidade ocorreria se esta pessoa ingerisse, “pelo menos, 30 comprimidos (…) de uma só vez. A morte é extremamente improvável, exceto se a pessoa tomar mais de quarenta comprimidos de 325 mg. Por essa razão, uma superdosagem de paracetamol que cause uma toxicidade séria geralmente não é acidental”.
Por outro lado, há o efeito conta-gotas. Várias doses pequenas tomadas ao longo do tempo podem causar toxicidade. É cumulativo. “Em doses tóxicas, o paracetamol pode danificar o fígado” e ocorrer insuficiência hepática. De fato, “a sobredosagem acidental com (este) analgésico (…) é a causa mais comum de insuficiência hepática aguda no Reino Unido e nos Estados Unidos. — mais até do que cirrose! Ou seja, as pessoas tomam como se fosse suco e não se dão conta dos efeitos nefastos da medicação.
Vejam, por exemplo, este estudo de 2015 que teve como objetivo “analisar a prevalência do uso de anti-inflamatórios e analgésicos em (758) idosos da Estratégia Saúde da Família de Porto Alegre-RS (…)”. 28,8% recorriam regularmente aos “anti-inflamatórios não esteroidais, glicocorticoides, analgésicos não opioides e opioides de uso oral” — número (por incrível que pareça) considerado moderado pelos pesquisadores. Mas com uma ressalva: “no que diz respeito à autopercepção de saúde, quanto pior a saúde relatada, maior o uso da terapêutica (p<0,001). A doença hepática e artrose/artrite/reumatismo mostraram estar associadas ao uso de anti-inflamatórios e analgésicos (p<0,001). (…) O paracetamol e o ibuprofeno foram os mais utilizados”.
E se as pessoas fazem uso corriqueiro e leviano de tais medicações, toxicidade pode, sim, ocorrer. “A maioria das superdosagens não provoca sintomas imediatos. Se a superdosagem for muito grande, os sintomas se desenvolvem em quatro fases” (observem as similaridades com o caso de Lô Borges):
“A dose baixa de aspirina usada para pessoas com doença cardíaca é muito pequena para causar intoxicação (…), mesmo quando tomada por um longo período”. E talvez até seja mais inofensiva do que o paracetamol, mas também não é suco.
É possível se intoxicar com aspirina “e medicamentos semelhantes (salicilatos)”. Mas teria que ser uma dose extremamente elevada. “Uma pessoa com cerca de 68 kg teria que ingerir mais de 30 comprimidos de 325 mg de aspirina para apresentar uma intoxicação leve. Portanto, raramente uma superdosagem aguda por aspirina é acidental, mas produtos concentrados de salicilato destinados à aplicação na pele, como óleo de wintergreen (metilsalicilato), de fato causam intoxicações acidentais”. Novamente, portanto, é bom estar atento. “Na intoxicação aguda por aspirina, os primeiros sintomas são geralmente: náusea e vômito; respiração rápida ou profunda; zumbido nos ouvidos; sudorese.”
O que ocorre com mais frequência é a intoxicação gradual por aspirina. Isso “pode se desenvolver involuntariamente se as pessoas tomarem doses normais ou ligeiramente mais elevadas do que as doses normais (…) por um longo período — geralmente nos adultos que tomam “várias pequenas doses ao longo do tempo” (ou seja, “aos poucos ao fim de várias semanas de consumo”).
Podem também sofrer de intoxicação “crianças com febre, que tomem uma dose (…) apenas ligeiramente mais elevada que a dose receitada durante vários dias (…)” — “embora raramente se administre às crianças aspirina para tratar uma febre, porque elas podem desenvolver síndrome de Reye. Nenhum dos preparados para crianças vendidos nos Estados Unidos sem prescrição médica para tratar tosse e resfriados contém aspirina; a maioria contém paracetamol ou ibuprofeno” (olha eles aí de novo).
Com intoxicação gradual, “se o envenenamento for grave, a pessoa pode sofrer sensação de desmaio iminente, febre, sonolência, hiperatividade, confusão, convulsões, destruição do tecido muscular (rabdomiólise), insuficiência renal e dificuldade em respirar”. A pessoa intoxicada pode sentir: sonolência; confusão sutil; alucinações. Mas podem também “surgir os seguintes sintomas: sensação de desmaio iminente, respiração rápida, falta de ar, febre, desidratação, pressão arterial baixa, um nível baixo de oxigênio no sangue (hipóxia), acúmulo de ácido lático no sangue (acidose lática), líquido nos pulmões (edema pulmonar), convulsões e inchaço cerebral”. Em outras palavras, aspirina também não é suco.
“A Sociedade Brasileira de Clínica Médica informou que mais de 14 mil pessoas foram internadas por intoxicação medicamentosa no Brasil, em 2022, um aumento de 18% comparado ao ano anterior. (…) A ata da Comissão de Assuntos Sociais do Senado Federal, de 15 de maio de 2024, informa o registro de 20 mil casos de intoxicação medicamentosa no Brasil, com 50 óbitos”.
É bom, portanto, estarmos atentos e observar se este tipo de coisa possa estar ocorrendo com pacientes ou entes queridos. Para que não tenham o mesmo fim de Lô Borges (ou de Michael Jackson (ver Artigo 193), Prince, Whitney Houston, Heath Ledger, Marilyn Monroe (ver Artigo 112) e Judy Garland — que se incluem entre as “220 personalidades americanas, algumas mais outras menos conhecidas, (mortas) por intoxicação medicamentosa” entre 1970 e 2015).
Famosos ou não, deste tipo de estatística não se faz questão de fazer parte.