Coqueluche nos Estados Unidos no começo da década de 90 e nunca exibida por aqui, o seriado Northern Exposure foi a queridinha dos universitários. Os meus colegas da Palmer a adoravam. Trata-se de “uma dramédia que conta a história de Joel Fleischman, um nova-iorquino recém formado em medicina que se vê preso a um contrato que o obriga a trabalhar no Alaska por alguns anos. Mas não em qualquer cidade do Alaska. Ele foi parar em Cicely, cidadezinha minúscula com menos de 500 habitantes, completamente isolada de qualquer rastro de civilização”. Para chegar lá, só de avião. Do tipo teco-teco.
Northern Exposure (chamada em Portugal de No Fim do Mundo) durou 6 temporadas e 110 episódios, “abocanhou mais de 30 indicações ao Emmy e cerca de 10 indicações ao Globo de Ouro. Levou o prêmio nas categorias de melhor roteiro, melhor direção de arte, melhor atriz coadjuvante (Valerie Mahaffey, que não fazia parte do elenco fixo), melhor edição, melhor fotografia, e por TRÊS vezes foi considerada o melhor drama da TV americana. Duas vezes no Emmy e uma no Globo de Ouro”.
O Doutor Joel Fleischman é um cara arrogante que acha que sabe tudo. Para ele, nascido e criado em Nova Iorque (e urbano que só), passar anos da sua vida trabalhando naquele fim-de-mundo seria o fim da picada. Então, pelo menos no começo, a premissa da série é sobre este choque cultural. “Mas ao contrário do que possa parecer, a estrela de Northern Exposure não é Joel. A estrela da série é Cicely, seus habitantes, sua cultura, o sentimento de comunidade que cada um dos personagens trasmite. No papel, Cicely é o lugar mais entediante do mundo. Na prática, Cicely se torna incrivelmente divertida por ser uma cidade que foge completamente de qualquer padrão que a gente tá acostumado na televisão — a começar pelos seus excêntricos habitantes.
Tem de tudo por lá: um astronauta aposentado empreendedor; uma intrépida piloto de avião; um jovem nativo americano aficcionado por cinema que escreve roteiros e “mantém contato com Martin Scorcese e Steven Spielberg através de cartas”; um milionário alérgico a poluição; uma secretária que pouco fala e tudo diz; um locutor de rádio que relata “notícias, conta histórias, lê livros (…), solta milhares de referências a cada episódio”, filosofa e divaga sobre filmes, literatura, música, Nietzsche, Einstein, Walt Whitman e Pé-Grande com a maior naturalidade…
Um rápido parêntese: falando em Pé-Grande, no 22º episódio da temporada 3, Adam, um espécie de ermitão conspiracionista (outrora confundido pelos habitantes com a legendária criatura), decide se casar com sua hipocondríaca companheira Eve. Mas os dois brigam incessantemente. Depois de muitos desencontros, atribulações, dramas e confusões, o enlace é concluído (ninguém se anima a pegar o buquê). Mas não antes de Adam ajustar o pescoço de Holling, dono do bar local, que passou o capítulo todo com dor cervical. “Já ouviu falar de Quiropraxia? Não ouça o lixo a AMA (American Medical Association) prega. É realmente muito eficaz para este tipo de coisa”. Este episódio foi exibido na minha aula de filosofia na Palmer. A plateia veio abaixo nesta hora. Foi a minha primeira experiência com Northern Exposure. E assistir o lunático excêntrico da vila fazendo manipulação cervical, confesso não ter sido muito edificante para mim como estudante. Enfim…
Mas não é sobre isto o assunto deste artigo. Há no seriado um núcleo indígena, que volta e meia surpreende o Dr. Fleischman — incluindo um pajé que insistia em se posicionar como colega dele. Interpretado pelo recém-falecido ator nativo-americano Graham Greene (1952-2025), então recém-indicado ao Oscar™ de Ator Coadjuvante por Dança Com Lobos (1990), o xamã Leonard Quinhagak oferecia um contraponto aos métodos alopáticos do bom doutor. “O médico muitas vezes não conseguia compreender a medicina tradicional e ficava constantemente surpreso com a maior eficácia de Leonard. (…) Suas práticas (…) muitas vezes entravam em conflito com a medicina moderna”, mas “sempre fundamentava seus métodos tradicionais de cura com teorias científicas”. Ele discutia casos de igual para igual com Joel, que, por incrível que pareça, prudentemente não retrucava nem contestava as afirmações do curandeiro. Deixava a costumeira arrogância de lado e até aprendia com o sábio xamã de vez em quando.
Um episódio do seriado em particular que me marcou na época em que fazia estágio foi quando Joel não conseguia encontrar o que havia de errado com um determinado paciente. Leonard, em uma de suas visitas ao “colega”, menciona: “É comum na minha prática clínica eu passar alguns dias na casa de quem estou tratando, só observando”. Muitas vezes a resposta poderia estar em alguma coisa que está fazendo ou alguma situação que está vivendo. Fiquei com isso na cabeça. E toda vez que me deparava com algum caso mais difícil e que não estivesse melhorando como deveria, relembrava esta cena do seriado (que assisti aos 24-25 anos — 30 anos atrás).
Como seria se efetivamente tivéssemos o tempo de observar o que o paciente faz fora da clínica para descobrir a etiologia por trás daquela dor que não responde ao tratamento?
Em quase 3 décadas de clínica, tive minha quota de pacientes que não melhoraram ou que, para meus parâmetros, melhoraram pouco. Nestes casos, me faz falta uma maior observação — tal qual o fictício Leonard do seriado. Mas destaco aqui 3 casos interessantes em que as atividades do dia-a-dia, fora do âmbito da clínica, foram cruciais para entender o porquê da insistência sintomatológica (os nomes foram trocados por questões de privacidade):
Presente em quase todo filme de mistério e suspense, e popularizado pelo diretor Alfred Hitchcock, o termo “macguffin” pode ser definido como um objeto, elemento, dispositivo, ideia ou evento que serve para avançar o enredo, motivar o personagem e impulsionar a história — mas sem aparente propósito relevante na narrativa. O MacGuffin pode ser a maleta de Tempos de Violência (Pulp Fiction, 1994); um mapa nos Goonies (1984); a Arca da Aliança em Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981); um maço de dinheiro enrolado num jornal em Psicose (1961); uma pedra filosofal, um cálice de fogo ou as relíquias da morte nos filmes de Harry Potter.
Fazendo uma transição para a vida real nestes casos acima, que, afinal de contas, tem um quê de misterioso (e, às vezes, o essencial é invisível aos olhos), o “MacGuffin” de Irineu parece ser a moto; o de Iracy, o trabalho de babá; e o da Patroa, definitivamente foi o carro. Diferentemente dos filmes, estes detalhes podem ajudar a elucidar a causa das dores destes e de todos aqueles pacientes que, por quaisquer motivos, não conseguimos tratar — já que não podemos nos dar ao luxo de simplesmente observá-los no dia-a-dia, como o sábio xamã de Northern Exposure.