Thoughts, Trauma and Toxins: 3 palavras simples, fáceis de memorizar. Esta aliteração, aparentemente criada por D.D. Palmer, aponta as 3 causas da subluxação vertebral: pensamentos, traumas e toxinas.

Algumas fontes sugerem que foi na verdade B.J. Palmer quem cunhou esta famosa frase. Afinal de contas, D.D. só escreveu 2 livros — um deles, The Chiropractic Adjuster, uma compilação de seus escritos e de B.J., foi publicado após sua morte.

  • Pensamentos referem-se ao estresse nosso de cada dia; nossas ansiedades e depressões que podem causar mudanças fisiológicas e musculares — afetando assim a função articular.

  • Traumas são as quedas, as porradas, os vícios posturais que tomamos e adquirimos ao longo da vida — questões de natureza mecânica que afetam o funcionamento normal das articulacões.

  • Toxinas estão em todo lugar: no meio ambiente; nos produtos de limpeza e beleza; nas bebidas alcóolicas, sucos artificiais, refrescos e refrigerantes; na alimentação (agrotóxicos, produtos industrializados, etc.); e nas medicações.

Sobre este último, além do Complexo de Subluxação Vertebral, há também algo a ser dito sobre alopatia. Por ter como objetivo primordial o bem-estar do paciente, a medicina tradicional acaba por reprimir e suprimir sinais importantes para a recuperação do paciente. Febre, por exemplo, é uma resposta do corpo que visa desestabilizar vírus e matar bactérias. É para ser primeiro monitorada e quando extrema, reprimida. Mas a gente suprime logo de cara. Dor é uma indicação de que há algo errado e que esse algo precisa ser identificado e corrigido. Devemos encontrar a causa e tratar, portanto de dentro para fora. Sendo dor uma consequência, reprimí-la de imediato sem um tratamento direto, de fora para dentro, parece um contrassenso. Claro, há exceções, mas, pelo menos no que diz respeito à dores neuromusculoesqueléticas, esta máxima se mantém coerente e constante.

Lembro-me de um professor de geriatria, Quiropraxista da velha guarda — daqueles que não eram muito fãs da classe médica (também pudera: Quiropraxistas americanos foram perseguidos pela Associação Americana de Medicina (AMA) até ganharem um processo que chegou a Suprema Corte no século passado).

Este professor usava com frequência o termo pills, poultices and potions (pílulas, pomadas e poções) para criticar o uso de medicação por parte da comunidade médica. Meu saudoso pai (que era médico) costumava dizer que os grandes avanços da medicina foram somente no campo da cirurgia. Discordo, em parte.

Houve, há, e tem havido constantes avanços na medicina — incluindo a parte medicamentosa. O objetivo deste artigo, porém, é chamar a atenção do que pode ocorrer ao tratarmos a causa e não os sintomas; de que forma o sistema hospitalar pode, às vezes, prejudicar mais do que ajudar; e como o uso de medicação, ainda que prescrito, pode gerar algumas reações, digamos assim, inesperadas — através de algumas desafortunadas experiências:

  • Notei isso pela primeira vez durante o clinic abroad — uma iniciativa (hoje extinta) do Palmer College of Chiropractic que levava estudantes, professores e Quiropraxistas de campo para outros países a fim de atender a população carente. Vi muitos casos inicialmente de fácil resolução que foram se tornando cada vez mais crônicos, complicados, complexos e difíceis à medida que o paciente trilhava e penava pelo sistema do SUS.

  • Um caso trágico envolveu uma paciente antiga de nome “Cybele”. Enfermeira de alto gabarito, sofria dores lombopélvicas ocasionais, sem irradiação. Após uma queda de um balcão, a radiografia acusou uma fratura compressiva de T11. Até aí tudo bem: fraturas compressivas costumam ser estáveis e não representam risco neurológico. Mas, além da amplificação das dores, Cybele desenvolveu também bexiga neurogênica.

    Ao ver a imagem, vi algo estranho no pedículo de L5. Indiquei um ortopedista que, curioso, pediu uma ressonância magnética (eu teria pedido uma tomografia, mas o que se há de fazer…). Confirmada a fratura e a consequente instabilidade da articulação, recomendaram cirurgia. Implantaram 4 parafusos entre L5 e S1. Houve uma certa melhora na incontinência urinária, mas as dores permaneceram. Os parafusos quebraram poucos meses depois e ela sofreu uma nova cirurgia em que, desta vez, foram implantados 6 parafusos — agora entre L4, L5 e S1.

    As doses cavalares de medicação geraram um surto psicótico. O casamento foi para o ralo. As intensas dores neurogênicas (com irradiação para os MMII) causaram uma mudança fisiológica profunda que culminou numa severa depressão (ver Artigo 149). Ainda assim, recuperada do surto, Cybele tentou tocar sua vida de uma maneira positiva. Pintava, viajava, namorava. Mas as crises de depressão acabaram falando mais alto, e num dia particularmente difícil, ela resolveu por um fim a própria vida. Se suicidou por overdose de pílulas.

    Me pego pensando no papel que eu, inadvertidamente, tive em tudo isso. Será que teria sido melhor não ter diagnosticado? Será que uma vida com bexiga neurogênica teria sido mais tolerável do que sofrer com intensas dores neuropáticas? E se não tivesse havido as complicações cirúrgicas, tais dores teriam se desenvolvido a tal ponto?

    Depressões e dores à parte, o sistema hospitalar teve sua quota de responsabilidade na morte de Cybele. Ainda assim, este caso me assombra até hoje…

  • Sina semelhante tem sofrido uma querida contraparente. Senhora americana de 75 anos com uma vida independente e em pleno gozo das faculdades mentais. Sim, havia algumas questões de ansiedade e leve perda de memória relacionadas a idade — mas nada digno de nota.

    Um belo dia depois de visitar o filho, “Sybil” tropeça e cai no gramado da casa. Foi uma queda à toa — mas suficiente para fraturar a asa esquerda do sacro, e mais importante, o ramo superior e inferior do púbis. Estas últimas, apesar de não ter tido movimento ósseo, são fraturas que inspiram certo cuidado. A do ramo inferior, infelizmente, fraturou na vicinidade da tuberosidade isquiádica — justamente o ponto de inserção da musculatura posterior da coxa.

    Por ser fumante inveterada, apresentar atelectasia nas bases pulmonares, ter um aneurisma de 3,1cm na aorta abdominal infra-renal, e estar com osteopenia difusa (ver Artigo 89), consideraram Sybil no grupo de risco de desenvolver uma possível trombose. E por isso, resolveram que ela teria que se movimentar a partir do primeiro dia. O único problema com isso é que, ao tentar andar, acionava os isquiotibiais que colocavam pressão justamente na fratura do ramo inferior do púbis. Sybil sentia dores lancinantes ao caminhar com andador, mas o pessoal da terapia ocupacional não lhe dava muito atenção e insistia. Era murro e mais murro em ponta de faca.

    Pela minha experiência tratando gente que sofreu este tipo de fratura, e conversando com pacientes ortopedistas, estivesse Sybil no Brasil, haveria um período de repouso de pelo menos 2 semanas com leve fisioterapia passiva. Na minha opinião, houve um erro de planejamento do hospital.

    O resultado disso tudo foi um agora leve deslocamento do ramo inferior. E, por estar numa região extremamente enervada, dores e mais dores e mais sofrimento. Sybil não conseguia dormir. Aumentaram as dores de medicações. Sendo uma mulher com histórico de alergias, de estômago delicado e desacostumada a remédios, começou a sentir intensas coceiras na pele e fortes dores abdominais. Aí aumentaram mais ainda as medicações. Até chegar num ponto em que as semanas de déficit de sono e de dores lancinantes finalmente cobraram o preço: Sybil surtou.

    Importante frisar por aqui, que, sendo uma mulher extremamente ansiosa (e também precavida), ela investiu pesadamente em planos de saúde. Tinha pavor que acontecesse com ela o mesmo que aconteceu com seus pais: ao chegar num ponto de não conseguirem mais se cuidar, foram levados a um home care que consumiu uma quantia absurda de dólares mensalmente — até exaurir completamente suas economias, recursos e bens. Só a partir daí o medicaid (uma espécie de SUS  americano para a terceira idade) entraria em vigor. Sim, o sistema americano é bruto.

    Então havia também este fator. Obrigada a encarar tudo aquilo que mais temia na vida, nossa heroína despirocou. Acredito eu que, como Cybele, as altas doses medicamentosas possam ter tido algo a ver com isso — mesmo que em parte. Os ossos fraturados, como haviam de ser, se consolidaram com o decorrer das semanas — graças ao trabalho indômito e constante dos osteoblastos. Mas a mente entrou num espiral de esgotamento nervoso, paranoia e medo de tal forma que acabou esticando sua sofrida e penada estadia no sistema hospitalar americano.

    Depois de algum debate, a família, preocupada, acabou trazendo ela de volta para sua casa. Mas só o tempo vai dizer se Sybil vai realmente recuperar de volta seu bem mais precioso. Porque a pelve está quase completamente recuperada, mas a mente continua fraturada…

E foi por essas e outras que os ditos radicais Quiropraxistas d’antanho costumavam ser extremamente críticos da alopatia (lembrando, claro, que a medicina  tradicional da época era muito mais braba e barbárica) — o que não significa que o raciocínio deles não merecesse alguma reflexão…

Pois é. Thoughts, Trauma and Toxins. Pills, Poultices and Potions. 6 palavras simples, aliteradas — fáceis de memorizar.