O termo “liberação miofascial”, se formos considerar ao pé da letra, é tecnicamente uma impossibilidade — apesar da manobra ser comprovadamente eficaz. Mas antes de entrarmos em controvérsias desnecessárias, convém revisar um pouco sobre este “invólucro fino de tecido conjuntivo” que “envolve e mantém no lugar todos os órgãos, vasos sanguíneos, ossos, fibras nervosas e músculos”.

A fáscia, feita principalmente de colágeno, é “uma estrutura semelhante a uma corda que fornece força e proteção a muitas áreas do corpo”. Durante muito tempo foi negligenciada pela medicina tradicional — tanto na saúde quanto na doença. Talvez porque, nas imagens disponíveis d’antanho, visualizá-la era muito difícil. Hoje em dia, no entanto, com ressonâncias magnéticas de alta definição e avanços na ultrassonografia, “os cientistas reconhecem cada vez mais a sua importância na saúde muscular e óssea”.

“É difícil ver a fáscia no corpo, mas você pode ter uma ideia de como ela é olhando para um bife. São as finas listras brancas na superfície ou entre as camadas da carne.”

Ser formos subdividir a fáscia em relação aos órgãos do corpo, a superficial “fica abaixo da pele, entre camadas de gordura”. Já a profunda “cobre os músculos, ossos e vasos sanguíneos”.

“Cada músculo está envolto em fáscia. Essas camadas são importantes porque permitem que os músculos que ficam próximos ou em cima uns dos outros se movam livremente sem afetar as funções uns dos outros”, prevenindo atrito e ajudando a coordenar seus movimentos. E também auxilia na transição e distribuição de força.

Um exemplo deste último é o nosso tornozelo, “onde o tendão de Aquiles transfere força para a fáscia plantar. Isso faz com que as forças se movam verticalmente para baixo através do tendão de Aquiles e depois sejam transferidas horizontalmente para a planta do pé — a fáscia plantar — durante o movimento”. Qualquer alteração nesta distribuição pode causar disfunções como fascite plantar.

Observa-se transições semelhantes na musculatura do tórax com ramificações nos músculos dos membros superiores. Este tipo de conexão está espalhado em outras áreas do corpo. A fáscia não está em todo lugar por acaso.

“A ligação entre a fáscia, a saúde e a função muscular e óssea é reforçada por estudos recentes que mostram o importante papel que a fáscia tem no trabalho dos músculos, auxiliando a contração das células musculares para gerar força e afetando a rigidez muscular”:

  • Não muito tempo atrás, “foi demonstrado que a fáscia, especialmente as camadas próximas à superfície, tem o segundo maior número de nervos depois da pele“. Técnicas de Quiropraxia, como Logan Basic, já anunciavam isto há décadas.

    “Os revestimentos fasciais dos músculos também têm sido associados à dor causada por cirurgias e a lesões musculoesqueléticas causadas por esportes e pelo envelhecimento. Até 30% das pessoas com dor musculoesquelética podem ser casos que envolvem a fáscia ou em que a fáscia pode ser a causa.”

  • Uma manobra de “descolamento” (também chamada de manipulação da fáscia) foi “desenvolvida pelo fisioterapeuta italiano Luigi Stecco na década de 1980 (e) demonstrou melhorar a dor da tendinopatia patelar (dor no tendão abaixo da rótula), tanto a curto como a longo prazo“.

    A manipulação da fáscia também mostrou resultados positivos no tratamento da dor crônica no ombro e também nas cervicalgias mais teimosas e insistentes, em que manipulação vertebral por si só não é suficiente para aliviar os sintomas. Afinal de contas, o pescoço, mais do que o resto da coluna, conta com várias camadas de fáscia. Isto pode ser bastante eficaz em pessoas com fibromialgia, por exemplo (ver Artigo 32).

  • “Uma das tendências crescentes para ajudar nas lesões musculoesqueléticas é a fita Kinesio, muito usada em atletas profissionais.” Empregada por muitos dos nossos Quiropraxistas, “a técnica também está sendo usada para complementar a função da fáscia e para tratar dores lombares crônicas, em que o envolvimento fascial é um fator”.

A fáscia é uma estrutura rígida e com irrigação sanguínea limitada. Isto, e por possuir “células semelhantes aos tendões (fibroblastos)”, qualquer lesão nela leva tempo para ser recuperada. A fáscia, como toda estrutura lesionada, “não funciona adequadamente” e suas “camadas tornam-se menos capazes de facilitar o movimento umas sobre as outras ou ajudar a transferir força”.

Esta rigidez supracitada faz com que seja extremamente difícil simplesmente deformar a fáscia com facilidade. “Na perna, por exemplo, é preciso aplicar uma força equivalente a 900kg para causar uma pequena deformação na membrana.” Então, como dito no começo deste artigo, não dá para ser “liberada” — o que faz o nome “liberação miofascial” ser uma contradição em termos.

Semânticas à parte, o fato é que a manobra é benéfica e pode ser uma importante aliada para:

  • Reduzir a dor muscular;

  • Otimizar a recuperação pós-treino;

  • Aprimorar a mobilidade, a flexibilidade e a força;

  • E, por consequência, ajudar a prevenir lesões.

A liberação miofascial, sendo “uma técnica terapêutica realizada a partir da aplicação de pressão em determinados pontos do corpo (com) manobras lentas e contínuas (…)”, e mesmo que não promova “a liberação da fáscia em si (…), favorece a recuperação funcional dos músculos, o aprimoramento da mobilidade”, a redução momentânea da dor e a consequente sensação de bem-estar. Por ajudar a “ampliar os movimentos das articulações” (e “se feita de forma adequada e com orientação profissional”), pode, portanto, ser uma importante aliada antes ou depois dos ajustamentos de Quiropraxia.

“Ela pode ser realizada com rolos de espuma (foco de uma pesquisa da USP — ver artigo 276) , bastões, bolinhas de tênis e, quando administrada por um profissional capacitado, até com as mãos.”

Por ser muito popular entre os atletas, associa-se esta manobra ao uso da força. Mas força aqui não é a palavra-chave. O excesso de pressão pode ser prejudicial. Como mencionado no curso de Logan Básico do IDQUIRO, o Teorema ou Lei de Starling relata que “a pressão muito leve é eficaz porque um estímulo mínimo obtém a resposta máxima”.

Ressalte-se que liberação miofascial não é para todo mundo. “Gestantes, usuários de medicamentos anticoagulantes e pessoas com problemas circulatórios, hipersensibilidade vascular ou lesões musculares devem consultar um profissional de saúde antes de iniciar” o procedimento.

Com jeitinho, competência, dedicação e carinho, vale a pena fazer.