Subúrbia “significa a região que fica em torno de uma cidade ou de outra povoação, ou seja, é o arrabalde ou arredor”. O subúrbio “é uma área residencial que se encontra dentro de uma área metropolitana, separada da cidade principal por uma certa distância. (…) Também é conhecido como cidade suburbana ou cidade dormitório.”
Em algumas cidades no Brasil, a palavra subúrbio adquiriu um conotação diferente — às vezes até meio pejorativa. Por aqui, subúrbio virou periferia.
O impacto do seriado dos anos 70 foi tão grande que permaneceu décadas no imaginário popular — graças, em parte, à divertida, deliciosa, genial e grudenta música de abertura: ♪ “Esta família é muito unida / E também muito ouriçada / Brigam por qualquer razão / Mas acabam pedindo perdão…”♫
A Grande Família conta com um grande número de “agregados”. Os principais são:
N’A Grande Família, volta e meia alguém tem dores de coluna. Lineu quando cai num buraco deixado no quintal em alguma reforma mal-feita. Agostinho quando finge que a coluna está “estourada” para tentar lucrar com algum acidente (tendo Beiçola como advogado, naturalmente). Nenê dá um jeito na coluna e finge ainda estar com dor por dias para a família ajudá-la nos afazeres domésticos. Aliás, a matriarca gosta de tomar “uns remedinhos” sem receita. No episódio 33 da 11ª temporada (“Vide Bula”), com a ajuda de um permissível farmacêutico, ela começa a exagerar na automedicação (ver artigos 63, 103, 161, 211, 249, 256, 260 e 267) e fica a cargo de Lineu por um ponto final da situação.
Não obstante, as dores de coluna do seriado sempre são retratadas de maneira exagerada e irrealista. E parecem ser também autolimitantes: nas cenas seguintes, os personagens se recuperam completamente. Quisera a vida real fosse assim…
Quatro anos antes da estreia d’A Grande Família, em janeiro de 1997, o mundo conheceu O Rei do Pedaço (King of the Hill). O protagonista é Hank Hill (voz de Mike Judge), um americano da gema, que tem orgulho de ser texano e tudo o que isto representa. Hank é um sujeito simples. Gosta de torta de maçã, churrasco, acampar, e tomar cerveja no quintal com os amigos. Trabalha com afinco como subgerente de uma loja que vende gás propano (metano e butano são “gases bastardos”, diz ele). É completamente obcecado com seu gramado — a ponto de achar que cortar grama é lazer e divertimento. E consertar carros também.
Engraçado como quê, Mike Judge fez fama e fortuna no começo da década de 90 com o escatológico e politicamente incorreto desenho Beavis & Butthead, sobre o dia-a-dia de dois preadolescentes não muito inteligentes viciados em clipes de rock que só pensam em comida mexicana e “se dar bem com as minas”. O programa de televisão, transmitido pela MTV, era, na verdade, uma crítica feroz à juventude alienada dos Estados Unidos (durante os oito anos que passou naquele país, este que vos escreve realmente conheceu gente assim). O seriado foi cancelado em novembro de 1997. Mas Mike Judge já estava preparando O Rei do Pedaço, outro desenho satírico que tem o mérito de ser totalmente diferente do seriado anterior (exceto pela voz do protagonista — igualzinha ao do vizinho sofredor Tom Anderson, vítima recorrente das idiotices de Beavis e Butthead). Este então novo seriado é baseado na vidinha pacata dos moradores de um subúrbio de uma fictícia cidade no Texas. Durou 13 temporadas e saiu do ar em 2010.
Pois é. Hank é um mar de ingenuidade, mas menos do que estão em sua volta (em terra de cego quem tem olho é rei). Pelo menos é justo e honesto até a medula. Sua esposa, Peggy, é uma professora substituta de espanhol que não entende bulhufas da língua, mas se acha fluente. Seu único filho, Bobby, é um gordinho tirado a comediante sem o mínimo talento para esportes ou mecânica de automóveis — para o profundo desgosto do pai.
Hank é uma espécie de macho alfa e sobressai-se quando está com seus amigos: Bill é um barbeiro do exército acima do peso, massacrado pela vida e não muito limpo; Dale é um exterminador de insetos de plantão e paranóico por teorias conspiratórias (só não suspeita da esposa, que teve um longo caso com um nativo americano e um filho que é a cara do pai — o amante); Boomhauer é um solteirão todo bronzeado que fala incompreensivelmente — só entendido pelos amigos.
Este último, com a voz também de Mike Judge, foi inspirado num recado de um fã deixado na sua secretária eletrônica.
Hank é explorado pelo seu patrão, mas nem se dá conta disso. Ou não liga. Gosta realmente do que faz (seu sonho de infância era ser “vendedor de propano e acessórios”). Nunca faltou um dia de trabalho. Até o 20º episódio da 8ª temporada.
Dores na coluna sempre foram um estorvo para Hank Hill. Num dos episódios das primeiras temporadas, ele sofreu uma lombalgia violenta e foi diagnosticado na época com enfraquecimento severo da musculatura glútea (“Senhor Hill, você não tem bunda!”, lhe disse o médico). Pois é. Neste episódio, depois de um dia particularmente estressante no trabalho, Hank deu AQUELE jeito na coluna. A ponto de não conseguir se aprumar.
Seu médico o diagnostica tendo um “problema muscular” e sugere ioga. Agora, caros leitores, estamos falando de Hank Hill — um caipira texano típico, republicano, religioso, sexualmente reprimido, e conservador a ponto de se considerar cabeludo se passar duas semanas sem cortar o cabelo. Ioga, Deus o livre e guarde! É New Age demais para ele. Mas a dor fala mais alto, Hank engole o orgulho, as crenças e o preconceito e começa as sessões. E mesmo não suportando o professor, acaba melhorando após a terceira aula.
Os percalços e tribulações do protagonista com suas dores lombares são retratadas com bem mais detalhes e sensibilidade do que nos diferentes episõdios d’A Grande Família.
O Rei do Pedaço é uma sátira, mas dá voz a um segmento da população dos Estados Unidos que ainda é politicamente correto tirar sarro: típicos norte-americanos caipiras tementes a Deus, brancos e protestantes. Não necessariamente nesta ordem.
Hank é um sujeito conservador. Mas consegue rever seus erros e passar por cima dos seus preconceitos. Tem aprendido a apreciar as habilidades e sensibilidades de seu filho, tolera até certo ponto a sensualidade ingênua (e meio burra) de sua sobrinha, Luanne, e até decidiu não votar em George W. Bush após cumprimentá-lo e descobrir que seu aperto de mão é “molenga”. É um autêntico homem do seu tempo. E na era de Trump nem seria considerado assim tão à direita — nem mesmo seu amigo Dale. Sinal dos tempos. Um zeitgeist ao avesso.
Ele, aos trancos e barrancos, tal qual Lineu Silva, virou uma espécie de porta-voz da razão e do bom senso. Nestes tempos de mudanças ultrarrápidas e crescente intolerância, é bom saber quando mudar posições e paradigmas de vez em quando. Só assim podemos evoluir.
Em tempo: Beavis & Butthead foi revivido para uma nova temporada em 2011. “Em 2022 foram encomendadas mais duas temporadas, que estrearam no mesmo ano na Paramount+.” E em 2025, novos episódios foram ao ar no Comedy Central — inclusive com os personagens adultos.
Uma nova temporada d’O Rei do Pedaço voltou a ser exibido pelo streaming Hulu em 2025. Curiosamente, os personagens envelheceram cronologicamene, o que tornou o seriado mais interessante. Agora Hank Hill, depois de alguns anos mexendo com propano na Arábia Saudita, de volta ao Texas, tem que se reacostumar com as mudanças, linguagem e novas normas de etiqueta desta nova geração.
Já A Grande Família, não há planos de trazê-la de volta — pelo menos num futuro próximo.