Subúrbia “significa a região que fica em torno de uma cidade ou de outra povoação, ou seja, é o arrabalde ou arredor”. O subúrbio “é uma área residencial que se encontra dentro de uma área metropolitana, separada da cidade principal por uma certa distância. (…) Também é conhecido como cidade suburbana ou cidade dormitório.” 

Em algumas cidades no Brasil, a palavra subúrbio adquiriu um conotação diferente — às vezes até meio pejorativa. Por aqui, subúrbio virou periferia.
Séries e sitcoms passados em subúrbios norte-americanos viraram lugares-comuns — e não é de hoje. Não dá nem para enumerar por aqui. Já em terras tupiniquins, especialmente nos últimos 20-30 anos, apareceram alguns seriados sobre famílias suburbanas. Vamos falar sobre duas neste artigo, não tanto pelas similaridades entre elas, mas pelo fato de que dores de coluna fazerem parte de determinados episódios…
Difícil alguém no Brasil não ter conhecimento do seriado A Grande Família (2001-2014). Retumbante sucesso da Rede Globo, foi uma reinterpretação contemporânea do seriado original (também um grande sucesso) que durou somente 3 anos (1972-1975).
O impacto do seriado dos anos 70 foi tão grande que permaneceu décadas no imaginário popular — graças, em parte, à divertida, deliciosa, genial e grudenta música de abertura: ♪ “Esta família é muito unida / E também muito ouriçada / Brigam por qualquer razão / Mas acabam pedindo perdão…”♫
A Grande Família acompanha as peripécias, tribulações, aventuras e desventuras dos Silva (pensando bem, não poderiam mesmo ter tido nenhum outro sobrenome), uma típica “família de classe-média (baixa) brasileira, moradora de um subúrbio na Zona Norte do Rio de Janeiro” (provavelmente a Penha) tentando pagar as contas e seguir adiante com o pouco que tem. Os decanos da família são:
  • Lineu Silva (Marco Nanini) — o patriarca. Veterinário de formação, trabalha numa repartição pública como fiscal sanitário. Lineu é um daqueles caras carne-de-pescoço no campo profissional: certinho, metódico e incorruptível (me lembra um pouco meu avô paterno, que era um fiscal altamente rigoroso do SeFaz). O dito “chefe da casa” é respeitador das leis e das normas. Mas não é necessariamente um conservador. Na constante tempestade que é a vida da família Silva, Lineu é o farol — mas a última palavra não é dele. Mesmo “disposto a julgar as atitudes dos outros integrantes da família”, volta e meia ele sucumbe. No 5º episódio da 1ª temporada, suas alterações de humor afloram, “como demonstrado no momento em que descobre que o ar condicionado teria que ficar mais quinze dias na oficina de conserto”. Apesar dos ocasionais deslizes, Lineu representa o bom-senso da família — mesmo que raramente alguém peça suas opiniões. Resta-o assistir perplexo às confusões que os demais membros se metem.
  • Dona Nenê (Marieta Severo) — a exemplar dona de casa. Como toda mãezona brasileira, ela se preocupa demais com a prole (especialmente o superprotegido caçula). Nenê cozinha, limpa, arruma, trabalha, dá um duro danado. Mas a comida está sempre na mesa. E é na mesa que o seriado sempre termina, naquela confusão caótica do almoço, com todo mundo falando ao mesmo tempo e pratos sendo passados para lá e para cá. Se Lineu é o farol, Nenê é a cola que une a família. Só que, volta e meia, se mete em alguma confusão e possui uma desconfiança crônica do marido — este, mesmo certinho, não parece nunca merecer a total confiança da esposa. Supõe-se que isso seria o estopim de muitas situações comédicas, mas ainda assim… Por exemplo, no 1º episódio da série, “Meu Marido me Trata como uma Geladeira”, ela se veste provocantemente e até tenta provocar ciúmes no esposo com o pobre do vizinho — que fica gamado por ela durante toda a série.
    Na 1ª temporada, o cabelo de Nenê era encaracolado e sua pele discretamente mais morena. À medida que o seriado avança, o cabelo começa a ficar mais liso e a pele, esbranquiçada. Claro, isso pode ter se passado porque o cabelo e a pele de Marieta Severo são normalmente assim e a produção se cansou de continuar caracterizando-a de outro modo. Coincidência ou não, a relação de Lineu com a patroa “torna-se não mais de subordinação e cobranças sobre a parte feminina, mas igualitária, visto que a personagem aceita as decisões tomadas pela matriarca da família, mesmo que contrárias às dele”. O caso merece uma reflexão…
  • Seu Flor (Rogério Cardoso) — o pai de Nenê. O sogro de Lineu é “um aposentado que dormia no sofá da sala (por não ter mais cômodos na casa). Seu Flor representava a experiência e, ao mesmo tempo, a jovialidade de quem queria ainda aproveitar a vida. Uma das características marcantes de Seu Flor era sua ironia e implicância com” o marido de Bebel. Torcedor do fluminense, além de implicar com os parentes e agregados, adora “jogar cartas e seu passatempo preferido é bisbilhotar a vida dos vizinhos. Ele namora com Juva (Suely Franco), uma senhora da vizinhança” que adora fazer croquetes.
    Rogério Cardoso morreu de um fulminante ataque cardíaco em 2003. Nem chegou a completar o episódio 19 da 3ª temporada. Tentaram suprir a ausência do personagem com um tal de “Tio Mala” (Francisco Milani), que se mudou para a casa da família, mas não colou muito. Milani morreu não muito tempo depois, em 2005.
O casal tem dois filhos (no seriado original eram três — “o remake do seriado não reproduziu a personagem do filho Junior”):
  • Bebel (Guta Stresser), “representando a juventude do subúrbio brasileiro, veste-se sempre com blusas curtas e calças apertadas” e fã de funk. Apesar de consumista e meio fútil, Maria Isabel vai a luta e trabalha. “(…) sua relação com (o esposo) não se baseia mais na subordinação, mesmo com as características machistas de seu marido, a personagem (…) sempre dá a palavra final, como acontece no momento em que Bebel se nega a transar (…) e só resta a ele aceitar o fato”. Aliás, Bebel leva o marido na palma da mão. É manipuladora e usa seu sexo como uma arma potente para mexer com as inseguranças do consorte e enchê-lo de ciúmes.
  • Tuco (Lúcio Mauro Filho) foi uma das grandes modificações do seriado original. De um jovem hippie, contestador e rebelde, virou o reflexo de sua época: “um típico garotão que não pensa duas vezes antes de trocar estudo ou trabalho por diversão. Demonstra o jovem que era considerado um marginal pela posição que ocupava na sociedade, não trabalhava; não estudava, e passava os dias em festas, dormindo”. Protegido pela mãe e às turras com o pai.

A Grande Família conta com um grande número de “agregados”. Os principais são:

  • Beiçola (Marcos Oliveira) é o dono da pastelaria do bairro e recorrente advogado para os muitos imbróglios da família (inclusive os internos). Tem uma paixonite aguda pela dona Nenê (parte por culpa dela, por incitá-lo no 1º episódio). Tem “uns pequenos probleminhas” (como diz a própria): volta e meia, à la Norman Bates no filme Psicose, “ele se veste e age como a falecida mãe, a portuguesa Dona Etelvina”. O apelido “beiçola” do vizinho Abelardo foi uma das grandes sacadas dos escritores do seriado — bem como o ator que o interpreta.

  • Paulão da Regulagem (Evandro Mesquita) é o sócio mulherengo e mecânico do marido de Bebel. Paulão tem uma capacidade extraordinária de errar quase toda palavra que sai da boca dele — especialmente os nomes dos outros.

  • Marilda (Andréa Beltrão) é a melhor amiga de Nenê. Dona de um salão de beleza onde Bebel trabalha, e de uma voz uns oitavos a mais, ela se lamenta de ter “o dedo podre” (não dar sorte com homens e sempre se envolver com os casados).

  • Mendonça (Tonico Ferreira) é o chefe de Lineu na repartição. Mulherengo, cafajeste e farrista, “costuma estar presente na vida da família e aprontando muitas confusões” para o patriarca consertar depois. Juntamente com Paulão da Regulagem, faz um inusitado triângulo amoroso com Marilda — palco de algumas das melhores cenas de comédia da série. Aliás, antes do tal triângulo, teve um affair ainda casado com Marilda, e, mesmo ficando viúvo, não a informou do fato.

  • O impagável Agostinho Carrara, mesmo casado com Bebel e genro de Lineu, se dependesse dele, estaria no time dos agregados mesmo. Interpretado magistralmente por Pedro Cardoso (que foi inclusive indicado ao International Emmy Awards de Melhor Ator em 2008 pela sua atuação), Agostinho é o quintessencial malandro carioca — ou pelo menos, ele gostaria de ser. O personagem rouba todas as cenas que aparece. “Herói sem nenhum caráter, legítimo representante da linhagem de Macunaíma, Agostinho Carrara é malandro nato, do tipo que cresceu sozinho e, desde cedo, aprendeu a tomar conta de si mesmo, simpático, falastrão e mentiroso contumaz, ele não hesita em passar a perna no próximo para conseguir o que deseja”.

    O “malandro é um ser deslocado das regras formais da estrutura social, fatalmente excluído do mercado de trabalho, aliás, definido por nós como totalmente avesso ao trabalho e altamente individualizado, seja pelo modo de andar, falar ou vestir-se” (MATTA, 1981, p. 204). As camisas do personagem que o digam…

    Agostinho “faz de tudo para se dar bem, inclusive decidir o local do ar condicionado com um baralho marcado e enganar a personagem Beiçola durante um jogo de Poker para conseguir pagar a conta de luz da família”. Descarado, sem-vergonha, irresponsável, ultraconservador, metido a político, desesperadamente apaixonado por Bebel, ele começou o seriado desempregado. Depois, gerente de motel. Daí, motorista de taxi e eventual dono de uma pequena frota com seu perpétuo e perplexo sócio, Paulão da Regulagem. Sem Agostinho Carrara talvez o seriado não tivesse durando tantas temporadas.

N’A Grande Família, volta e meia alguém tem dores de coluna. Lineu quando cai num buraco deixado no quintal em alguma reforma mal-feita. Agostinho quando finge que a coluna está “estourada” para tentar lucrar com algum acidente (tendo Beiçola como advogado, naturalmente). Nenê dá um jeito na coluna e finge ainda estar com dor por dias para a família ajudá-la nos afazeres domésticos. Aliás, a matriarca gosta de tomar “uns remedinhos” sem receita. No episódio 33 da 11ª temporada (“Vide Bula”), com a ajuda de um permissível farmacêutico, ela começa a exagerar na automedicação (ver artigos  63103161211, 249, 256, 260 e 267) e fica a cargo de Lineu por um ponto final da situação.

Não obstante, as dores de coluna do seriado sempre são retratadas de maneira exagerada e irrealista. E parecem ser também autolimitantes: nas cenas seguintes, os personagens se recuperam completamente. Quisera a vida real fosse assim…

Da mesma forma que Lineu é uma linha reta em meio de tantas linhas tortas, seu contraparte americano também é.

Quatro anos antes da estreia d’A Grande Família, em janeiro de 1997, o mundo conheceu O Rei do Pedaço (King of the Hill). O protagonista é Hank Hill (voz de Mike Judge), um americano da gema, que tem orgulho de ser texano e tudo o que isto representa. Hank é um sujeito simples. Gosta de torta de maçã, churrasco, acampar, e tomar cerveja no quintal com os amigos. Trabalha com afinco como subgerente de uma loja que vende gás propano (metano e butano são “gases bastardos”, diz ele). É completamente obcecado com seu gramado — a ponto de achar que cortar grama é lazer e divertimento. E consertar carros também.

Engraçado como quê, Mike Judge fez fama e fortuna no começo da década de 90 com o escatológico e politicamente incorreto desenho Beavis & Butthead, sobre o dia-a-dia de dois preadolescentes não muito inteligentes viciados em clipes de rock que só pensam em comida mexicana e “se dar bem com as minas”. O programa de televisão, transmitido pela MTV, era, na verdade, uma crítica feroz à juventude alienada dos Estados Unidos (durante os oito anos que passou naquele país, este que vos escreve realmente conheceu gente assim). O seriado foi cancelado em novembro de 1997. Mas Mike Judge já estava preparando O Rei do Pedaço, outro desenho satírico que tem o mérito de ser totalmente diferente do seriado anterior (exceto pela voz do protagonista — igualzinha ao do vizinho sofredor Tom Anderson, vítima recorrente das idiotices de Beavis e Butthead). Este então novo seriado é baseado na vidinha pacata dos moradores de um subúrbio de uma fictícia cidade no Texas. Durou 13 temporadas e saiu do ar em 2010.

Pois é. Hank é um mar de ingenuidade, mas menos do que estão em sua volta (em terra de cego quem tem olho é rei). Pelo menos é justo e honesto até a medula. Sua esposa, Peggy, é uma professora substituta de espanhol que não entende bulhufas da língua, mas se acha fluente. Seu único filho, Bobby, é um gordinho tirado a comediante sem o mínimo talento para esportes ou mecânica de automóveis — para o profundo desgosto do pai.

Hank é uma espécie de macho alfa e sobressai-se quando está com seus amigos: Bill é um barbeiro do exército acima do peso, massacrado pela vida e não muito limpo; Dale é um exterminador de insetos de plantão e paranóico por teorias conspiratórias (só não suspeita da esposa, que teve um longo caso com um nativo americano e um filho que é a cara do pai — o amante); Boomhauer é um solteirão todo bronzeado que fala incompreensivelmente — só entendido pelos amigos.

Este último, com a voz também de Mike Judge, foi inspirado num recado de um fã deixado na sua secretária eletrônica.

Hank é explorado pelo seu patrão, mas nem se dá conta disso. Ou não liga. Gosta realmente do que faz (seu sonho de infância era ser “vendedor de propano e acessórios”). Nunca faltou um dia de trabalho. Até o 20º episódio da 8ª temporada.

Dores na coluna sempre foram um estorvo para Hank Hill. Num dos episódios das primeiras temporadas, ele sofreu uma lombalgia violenta e foi diagnosticado na época com enfraquecimento severo da musculatura glútea (“Senhor Hill, você não tem bunda!”, lhe disse o médico). Pois é. Neste episódio, depois de um dia particularmente estressante no trabalho, Hank deu AQUELE jeito na coluna. A ponto de não conseguir se aprumar.

Seu médico o diagnostica tendo um “problema muscular” e sugere ioga. Agora, caros leitores, estamos falando de Hank Hill — um caipira texano típico, republicano, religioso, sexualmente reprimido, e conservador a ponto de se considerar cabeludo se passar duas semanas sem cortar o cabelo. Ioga, Deus o livre e guarde! É New Age demais para ele. Mas a dor fala mais alto, Hank engole o orgulho, as crenças e o preconceito e começa as sessões. E mesmo não suportando o professor, acaba melhorando após a terceira aula.

Os percalços e tribulações do protagonista com suas dores lombares são retratadas com bem mais detalhes e sensibilidade do que nos diferentes episõdios d’A Grande Família.

O Rei do Pedaço é uma sátira, mas dá voz a um segmento da população dos Estados Unidos que ainda é politicamente correto tirar sarro: típicos norte-americanos caipiras tementes a Deus, brancos e protestantes. Não necessariamente nesta ordem.

Hank é um sujeito conservador. Mas consegue rever seus erros e passar por cima dos seus preconceitos. Tem aprendido a apreciar as habilidades e sensibilidades de seu filho, tolera até certo ponto a sensualidade ingênua (e meio burra) de sua sobrinha, Luanne, e até decidiu não votar em George W. Bush após cumprimentá-lo e descobrir que seu aperto de mão é “molenga”. É um autêntico homem do seu tempo. E na era de Trump nem seria considerado assim tão à direita — nem mesmo seu amigo Dale. Sinal dos tempos. Um zeitgeist ao avesso.

Ele, aos trancos e barrancos, tal qual Lineu Silva, virou uma espécie de porta-voz da razão e do bom senso. Nestes tempos de mudanças ultrarrápidas e crescente intolerância, é bom saber quando mudar posições e paradigmas de vez em quando. Só assim podemos evoluir.

Em tempo: Beavis & Butthead foi revivido para uma nova temporada em 2011. “Em 2022 foram encomendadas mais duas temporadas, que estrearam no mesmo ano na Paramount+.” E em 2025, novos episódios foram ao ar no Comedy Central — inclusive com os personagens adultos.

Uma nova temporada d’O Rei do Pedaço voltou a ser exibido pelo streaming Hulu em 2025. Curiosamente, os personagens envelheceram cronologicamene, o que tornou o seriado mais interessante. Agora Hank Hill, depois de alguns anos mexendo com propano na Arábia Saudita, de volta ao Texas, tem que se reacostumar com as mudanças, linguagem e novas normas de etiqueta desta nova geração.

A Grande Família, não há planos de trazê-la de volta — pelo menos num futuro próximo.