A Coluna da Coluna

— Artigo 71 —

Artigo 71 – Só Dói Quando Eu Rio!

Quem já não ouviu, ao servirem a sobremesa num almoço ou jantar com a família, algum engraçadinho soltar essa pérola: “é pavê ou pra comer?” Pois é. Nas décadas que passei vivenciando, tocando, tratando e praticamente respirando coluna vertebral, ouvi e aprendi um sem-número de anedotas, “causos” e chavões. Mas o favorito disparado é quando o paciente fala:

— Eu sinto dor, doutor. Dor de junta. Junta tudo e joga fora. (Acompanha risos)

Claro, é uma maneira humorística de lidar com uma situação que não é lá muito engraçada. Mas, por outro lado, é melhor do que levar muito à sério este tipo de coisa. Afinal de contas, diminuir o estresse também faz parte do tratamento de um problema de coluna.

Como aquela piada infame que o clínico pede para o paciente colocar o dedo onde está a dor. E todo lugar que ele põe o dedo, dói. Até o clínico constatar que o paciente tem um espinho encravado na ponta do tal dedo.

Houve, também nessas décadas, algumas situações e momentos relatados pelos pacientes que, depois do ocorrido (e de aliviadas as dores), pudemos, pelo menos, nos dar ao luxo de rirmos juntos das experiências esdrúxulas e peculiares que viveram.

Como, por exemplo, esta paciente, na época com uns 40 anos, sobrepeso e dores lombares recorrentes. Uma bela noite ela acordou (como sempre fazia) e foi ao banheiro urinar. Bêbada de sono, não percebeu que errou o alvo: ao invés de sentar-se no vaso sanitário, sentou sua derrière avantajada no vaso de lixo ao lado — que, de tão pequeno, não aguentou seu peso e arriou. Como era de se esperar, a coluna travou mais uma vez. Ela agora, já bem desperta, acordou todo mundo na casa gritando por socorro. O marido e a filha tiveram um trabalhão para tirá-la do lixo pra latrina. Apareceu na clínica no dia seguinte toda dolorida e me disse: “você não vai acreditar no que aconteceu”. E passou a me relatar a estranha cadeia de eventos.

Que me desculpem a falta de decoro, mas não consegui resistir e perguntei ao marido bem sério:

— E aí, tirou pelo menos uma foto?

Dei sorte. Marido, mulher e filha irromperam na risada. Ela respondeu que, se ele tivesse tirado a tal foto, ela teria esganado ele — assim que pudesse correr atrás do infeliz. E ainda rindo, deitou-se na maca e demos início ao tratamento. Recuperou-se pouco tempo depois. Mas hoje em dia pensa duas vezes onde vai sentar ao acordar de madrugada para ir ao banheiro.

Em outra ocasião, esta médica na casa dos 50 anos, voltava de um plantão em outra cidade depois das 22:00. No meio da estrada, o carro furou o pneu. Paciente daquelas que só aparece quando não se aguenta mais de dor, sua coluna era muito instável — e ela sabia disso. E ficou diante de uma sinuca de bico: se fosse trocar o pneu, arriscava a travar a coluna e ficar a mercê de qualquer mal-intencionado que parasse naquela noite escura. Mas pensou, pensou, pensou, o tempo foi passando, e decidiu arriscar. Começou a trocar o pneu com todo cuidado do mundo, e, como esperado, a lombar não resistiu e travou. Ficou lá, em pé, naquela madrugada, paralisada de dor sem saber o que fazer.

Foi quando parou um carro e desceram quatro marmanjos. Ela, magrinha e miúda, pensou: “pronto. Vão me assaltar, me estuprar e me matar. E nem ao menos posso correr pro mato!”

Mas os caras foram super gentis. Fizeram a força do pneu, um deles dirigiu o carro dela para casa, onde chegou sã e salva (com exceção da coluna). No outro dia relatou o ocorrido, rindo aliviada. Também se recuperou rápido (pelo menos até a próxima crise).

E falando em pneu furado, outro médico (por coincidência) furou o pneu na estrada já no final da tarde. Este aí, mais prevenido, carregava no carro um reparador instantâneo de pneu.

Trata-se uma bisnaga “encontrada em postos, casas de peças e concessionárias. É utilizada na eventualidade de um pneu se esvaziar por ter furado. O reparador de pneu funciona como um spray. Basta encaixar a mangueirinha que sai do seu bico na válvula do pneu que ele o infla em algumas libras, o suficiente para o carro rodar alguns quilômetros até o posto (ou borracheiro) mais próximo”.

Mas na época do ocorrido, decerto ainda estavam aperfeiçoando o produto. Para poder enxergar melhor, nosso herói acendeu um isqueiro para colocar a tal mangueirinha no bico da válvula do pneu. A bisnaga explodiu e ele foi arremessado para trás. Machucou a lombar e sofreu queimaduras de primeiro grau no rosto. Apareceu na clínica meio antálgico e com o rosto meio esbranquiçado (resultado da cicatrização da queimadura). A dor lombar ele recuperou rápido. O que demorou foi dissipar os rumores na cidade que ele, um sujeito bem moreno, estava passando por um tratamento de branqueamento da pele à la Michael Jackson.

A imagem que vinha na minha mente, quando ele me contou o caso, foi daqueles desenhos de Pernalonga em que Patolino acendia um fósforo numa salinha escura e cheia de dinamite. Mas este pensamento, desta vez, soube manter para mim.

E aí um dia me aparece este surfista, na época com uns 24 anos, com fortes dores lombares. Ele relatou que conheceu na noite anterior uma mulher que era um verdadeiro estouro: inteligente, bonita e muito bem-feitinha de corpo que estava de férias e em sua última noite na cidade. Botava Gisele Bündchen no chinelo, dizia. Naquela noite, deu tudo certo. O jogo de sedução foi muito eficaz e resolveram finalmente chegar aos finalmentes. Mas na terceira estocada a coluna travou. A dor deixou as costas enrijecidas e (infelizmente) o resto nem tanto. Não havia mais clima para amore. A menina, desapontada, foi embora no dia seguinte. Ele nunca mais ouviu falar dela. As dores lombares eu tirei. Mas o orgulho ferido de ter deixado um peixão daqueles escapar, isso ele deve levar para o resto da vida. Talvez contar um dia para os netos o que poderia ter sido, quem sabe?

Com todos esses “causos”, quando finalmente aparecem (ou reaparecem) as dores, a razão inicial já existia há anos ou até décadas. Tem muito a ver com vícios posturais, que causam fixações, geram instabilidade, enfraquecimento e espasticidade muscular. Às vezes o corpo corrige por si só. Muitas vezes, não. O problema, ao tornar-se crônico, começa a fazer parte do dia-a-dia da coluna. E a gente, de uma certa forma, se condiciona a ele. Mas perde o jogo de cintura (olha aí um chavão). A nossa fisiologia compensa daqui, encurta um músculo dali na tentativa de resolver um problema à curto prazo — mas esta falta de adaptabilidade cria outro que vai cobrar a fatura ao longo de alguns anos. E, ás vezes, nas situações mais inusitadas, inconvenientes e até embaraçosas como vistas acima.

Problemas de coluna são totalmente gerenciáveis. Não é preciso conviver com dor. É possível viver bem com a coluna que tem (outro chavão). Basta tratá-la adequadamente, traçar um plano de reabilitação, e encarar isso, não como uma solução temporária enquanto houver dor, mas como um projeto de vida.

Isto inclui exercícios como Pilates, hidroginástica e natação uma ou duas vezes por semana por tempo indeterminado. E, claro, depois de concluído o tratamento de Quiropraxia, ajustar a coluna preventivamente duas ou três vezes por ano por vida. Afinal, não é preciso esperar ter cáries para ir ao dentista. Se higiene dental é imperativa, “higiene” vertebral também é legal. Afinal de contas, eterna vigilância faz parte  d’os ossos do ofício da Quiropraxia (ai!).

Bem, pelo menos, é bem mais proativo do que “juntar tudo e jogar fora”.

About the Author:

Iury Borges Rocha formou-se Quiropraxista em 1996 pelo Palmer College of Chiropractic, em Davenport, Iowa - EUA. É também bacharel em Ciências pelo Palmer e tem Licenciatura em Comunicações pelo Scott Community College, em Bettendorf, Iowa, EUA. Atende em Ilhéus-BA e região. Atual Diretor Acadêmico e palestrante internacional da FLAQ e do IDQUIRO, já exerceu o cargo de Tesoureiro da ABQ e foi o primeiro Coordenador do programa de Quiropraxia da Feevale. Escreveu cerca de 300 artigos num período de cinco anos sobre diversos assuntos para o hoje extinto jornal Diário de Ilhéus — sempre tendo a coluna vertebral como pano de fundo.

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