NOTA: Este artigo se inspirou no trabalho de Cansanção, et. al.: Considerações anatômicas e clínicas da Síndrome de Eagle: uma revisão da literatura. Brazilian Journal of Health Review, Vol. 7 No. 10 (2024). DOI: https://doi.org/10.34119/bjhrv7n10-013

Apesar de ter aparecido algumas vezes em discussões nos grupos de whatsapp de Quiropraxistas, a Síndrome de Eagle é, por incrível que pareça, uma condição rara. A primeira vez que este que vos escreve ouviu falar de tal afecção foi justamente nestes grupos. Nunca encontrou um caso na sua prática clínica de quase 3 décadas. Mas alguns de seus colegas, sim. E, competentemente, ou identificam-na prontamente ou detectam algo estranho na radiografia e procuram saber — até porque determinados ajustamentos podem ser contraindicados.

Essa síndrome está associada ao “elongamento de uma projeção óssea (mais de 3 cm.) na porção inferior do osso temporal, chamada de processo estilóide” e/ou pela “calcificação unilateral ou bilateral dos ligamentos estilo-hióídeos”.

“O processo estilóide em questão é uma projeção óssea que origina-se da parte petrosa do osso temporal, estendendo-se anteriormente, caudal e ligeiramente medial. Essa estrutura anatômica também é o cerne do aparelho estilóide, formado por três músculos ligados (estilo-glosso, estilofaríngeo e estilo-hióideo) e dois ligamentos (estilo-hióideo e estilomandibular) como uma unidade. O potencial de ossificação do ligamento estilo-hióideo parece ser uma das razões por trás do elongamento do processo anormal, mas o fator de gatilho exato ainda é desconhecido.”

Um parêntese: emprega-se aqui a palavra “elongamento” para descrever “extensão de”. Até porque a palavra “alongamento” é tipicamente usada para descrever aumento da flexibilidade muscular. E como não estamos falando de músculos, a primeira seria mais adequada.

O nome da patologia, apesar de meio que evocar o formato de uma garra de águia, veio do médico otorrinolaringologista Watt Weems Eagle, que a descreveu pela primeira vez oficialmente na metade inicial do século 20 (1937 para ser mais exato). Na época, o Dr. Eagle “se utilizou da publicação e análise de dois casos de irritação faríngea ligados ao processo estilóide”.

Esta condição, além de Síndrome de Eagle (SE), é conhecida por muitos nomes: “síndrome estilo-hióidea, síndrome do processo elongado, síndrome estilóide, síndrome estilóide-estilo-hióidea, estilalgia, disfagia estilóide, estiloidite reumática temporal, síndrome de Garel-Bernfeld ou síndrome estilo-carótida (…)”.

Por si só o elongamento ou a calcificação não é o problema. Tanto é que somente 4% dos acometidos são, de fato, sintomáticos. A questão maior é que ocorre numa área que não tem lá muito espaço para novas estruturas. E então pode comprimir músculos, nervos, vasos sanguíneos, tendões e ligamentos. resultando numa miríade de sintomas:

  • Dor no ouvido (otalgia) que irradia para a maxila, para a hemiface e para a cavidade oral;

  • Dor ou dificuldade para engolir (odinofagia) ou dificuldade de engolir alimentos ou líquido (disfagia);

  • Dor na garganta (faringodinia) ou “sensação de corpo estranho na faringe”;

  • “Sintomas neurológicos (como distúrbios de fala e/ou hemiparesia)”;

  • Zumbidos no ouvido (tinitus);

  • “Dor orofacial refratária”;

  • “Dor ao longo da mandíbula e na região temporal são consequências incomuns, mas possível dessa síndrome”.

    “A dor facial, comum na maior parte dos pacientes, pode estar relacionada também ao deslocamento do disco temporomandibular associado a lesões de cunho esportivo, por exemplo”.

  • Trismo (contratura espasmódica do músculo masseter), resultando numa rigidez ou incapacidade de abrir a boca (isto acaba sendo confundido com alguma distúrbio da articulação temporomandibular (ATM));

  • Cefaleia;

  • Dor aguda no pescoço ou “dor neuropática associada ao movimento de rotação da cabeça”.

    Por isso, pacientes com este tipo de dor podem aparecer num consultório de Quiropraxia (é preciso estarmos atentos, portanto).

Esta atenção se torna ainda mais pertinente pela possibilidade do desvio lateral do processo estilóide impactar “a artéria carótida externa e seus ramos, provocando o desvio posterior que pode impactar os nervos cranianos glossofaríngeo, vago, acessório e hipoglosso. Já o desvio medial ou anterior pode irritar a fossa tonsilar”. Não se sabe exatamente os efeitos que uma manipulação vertebral pode ter nisso tudo, então, pelo sim, pelo não, melhor observar cautela.

Vale a pena ressaltar que nem todo mundo com elongamento do processo estilóide ou calcificação do ligamento estilo-hióideo desenvolve, necessariamente, Síndrome de Eagle. Mas todo mundo que sofre de Síndrome de Eagle apresenta algum tipo de elongamento do processo estilóide ou calcificação do ligamento estilo-hióideo.

Apesar de tudo isso, e de ser predominange em mulheres (na proporção de 3 para 1), esta patologia, como dito antes, é uma ocorrência rara. Curiosamente, mesmo que seja bilateral, os sintomas tendem a ser unilaterais. Não é fácil de diagnosticar.

E ainda por cima, não se sabe direito o que causa esta patologia, seu “mecanismo de origem, o desenvolvimento e a progressão. Há ïnúmeras teorias sobre sua patogênese”:
  • “Um estudo histopatológico propôs que tensões mecânicas que ocorrem na extremidade apical dos processos estilóides, causadas pela tração de repetição das fibras do ligamento estilóide podem causar estimulação das células mesenquimais, induzindo sua metaplasia óssea, o que leva à deposição osteogênica nesses locais e ao espessamento e crescimento apical do processo estilóide. É provável que essas forças de tração sejam geradas pelas contrações musculares e pelas inserções tendíneas dos músculos estilofaríngeo, estiloglosso e estilo-hióideo durante os movimentos da faringe, língua, pescoço e hióide.” Teria essas “tensões mecânicas” algo a ver com algum tipo de subluxação ou distúrbio articular na região?

  • “Também teoriza-se que uma das causas (…) seja a ossificação dos ligamentos devido às mudanças endócrinas após a menopausa nas mulheres, o que explicaria a maior incidência da doença no sexo feminino (…)”.

De longe o melhor exame de imagem para diagnosticar a Síndrome de Eagle é a tomografia computadorizada — especialmente a tridimensional (importantíssima “para determinar a localização, o tamanho, a forma, a angulação e a proximidade com estruturas neurovasculares”).  “No entanto, uma radiografia simples do crânio (visão ou método de Towne) também é útil no reconhecimento”. É possível visualizar a calcificação numa radiografia cervical de perfil, mas fica um pouco mais difícil numa A-P ou “Boca Aberta” (transoral). Já uma radiografia extrabucal panorâmica da arcada dentária parece ser bem eficaz (daí a frequência e relativa facilidade dos dentistas para diagnosticar tal afecção). Exemplos de calcificação do ligamento estilo-hióideo podem ser visualizados nas incidências abaixo:

Além disso, “o diagnóstico pode ser (também) realizado por meio de sintomas clínicos, palpação da fossa tonsilar e redução da dor após inoculação de anestésico local no espaço peritonsilar (…)”.

De fato, “há o teste de infiltração de lidocaína, em que 1 ml de lidocaína a 2% é aplicada na região que circunda o processo estilóide palpável, caso haja alívio dos sintomas de dor pelo anestésico o teste é considerado positivo e há a suspeita para o diagnóstico da síndrome”.

“Os métodos de tratamento incluem abordagens cirúrgicas (estiloidectomia intraoral ou transcervical) e conservadoras (medicamentos para redução de dor), além da fisioterapia também ser recomendada para o relaxamento dos músculos contraídos (…)”.

Importante que um Quiropraxista possa identificar e, quando for o caso, até indicar um paciente que esteja sofrendo desta patologia.  Segurança sempre em primeiro lugar. Afinal de contas, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém (exceto, claro, a galinha).