Durante a minha adolescência, um dos meus escritores favoritos foi o grande Luis Fernando Veríssimo. Filho de Érico Veríssimo um ícone da literatura brasileira (autor de O Tempo e o Vento), LFV se concentrava em escrever crônicas curtas de humor que foram publicados numa série de livros lançados na década de 80 — que, por sua vez, eram compêndios de histórias publicadas anteriormente na revista Domingo, no Jornal do Brasil e no jornal gaúcho Zero Hora. Alguns contos foram relançados em 1994 com o título Comédias da Vida Privada — que foi tema de um seriado de sucesso na Globo entre 1995 e 1997: A Comédia da Vida Privada (ver Artigo 208).
O carro-chefe de suas crônicas era o personagem Analista de Bagé. Foi um sucesso estrondoso entre a classe média nos anos 80. Virou história em quadrinhos e até peça de teatro — “em cartaz por diversas temporadas no eixo Rio-São Paulo”.
Pois bem. O personagem representa o estereótipo da “personalidade tipicamente gaúcha masculina” da cidade mezzo fronteiriça de Bagé-RS. Trata-se de um “psicanalista supostamente freudiano de linha ortodoxa de palavras marcantes e ilustrativo da sabedoria popular do Rio Grande do Sul”.
Segue abaixo na íntegra um dos contos de Luis Fernando Veríssimo onde somos apresentados a uma certa “Técnica do Joelhaço” do “analista (que) se diz ‘mais ortodoxo que pomada Minancora’ ou que as ‘Pastilhas Valda’ (de antemão, peço desculpas pelo uso de certas expressões e termos que definitivamente não têm lugar nos dias de hoje e são terrivelmente ofensivos. Os tempos eram outros e também o contexto que foram usados ajudam a refletir o quão tosco o personagem é)”:
“Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas.
Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem-educada), mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.(…)
Existem muitas histórias sobre o analista de Bagé, mas não sei se todas são verdadeiras. Seus métodos são certamente pouco ortodoxos, embora ele mesmo se descreva como ‘freudiano barbaridade’. E parece que dão certo, pois sua clientela aumenta. Foi ele que desenvolveu a terapia do joelhaço.
Diz que quando recebe um paciente novo no seu consultório a primeira coisa que o analista de Bagé faz é lhe dar um joelhaço. Em paciente homem, claro, pois em mulher, segundo ele, “só se bate pra descarregá energia”. Depois do joelhaço o paciente é levado, dobrado ao meio, para o divã coberto com um pelego.
— Te abanca, índio velho, que tá incluído no preço.
— Ai — diz o paciente.
— Toma um mate?
— Nã-não… — geme o paciente.
— Respira fundo, tchê. Enche o bucho que passa.
O paciente respira fundo. O analista de Bagé pergunta:
— Agora, qual é o causo?
— É depressão, doutor.
O analista de Bagé tira uma palha de trás da orelha e começa a enrolar um cigarro.
— Tô te ouvindo — diz.
— É uma coisa existencial, entende?
— Continua, no más.
— Começo a pensar, assim, na finitude humana em contraste com o infinito cósmico…
— Mas tu é mais complicado que receita de creme Assis Brasil.
— E então tenho consciência do vazio da existência, da desesperança inerente à condição humana. E isso me angustia.
— Pos vamos dar um jeito nisso agorita — diz o analista de Bagé, com uma baforada.
— O senhor vai curar a minha angústia?
— Não, vou mudar o mundo. Cortar o mal pela mandioca.
— Mudar o mundo?
— Dou uns telefonemas aí e mudo a condição humana.
— Mas… Isso é impossível!
— Ainda bem que tu reconhece, animal!
— Entendi. O senhor quer dizer que é bobagem se angustiar com o inevitável.
— Bobagem é espirrá na farofa. Isso é burrice e da gorda.
— Mas acontece que eu me angustio. Me dá um aperto na garganta…
— Escuta aqui, tchê. Tu te alimenta bem?
— Me alimento.
— Tem casa com galpão?
— Bem… Apartamento.
— Não é veado?
— Não.
— Tá com os carnê em dia?
— Estou.
— Então, ó bagual. Te preocupa com a defesa do Guarani e larga o infinito.
— O Freud não me diria isso.
— O que o Freud diria tu não ia entender mesmo. Ou tu sabe alemão?
— Não.
— Então te fecha. E olha os pés no meu pelego.
— Só sei que estou deprimido e isso é terrível. É pior do que tudo.
Aí o analista de Bagé chega a sua cadeira para perto do divã e pergunta :
— É pior que joelhaço?”
Esta tal “Técnica do Joelhaço”, “no entanto, é bastante heterodoxa, a depender do ponto de vista. Ela está baseada no princípio da dor maior, isto é, quando o paciente vem se queixar de suas dores subjetivas, o joelhaço aplicado no local correto oferece ao sujeito a vivência de uma dor tão mais intensa que faz com que se esqueça das dores ‘menores'” — e suas origens o próprio personagem explica nesta entrevista fake (VERÍSSIMO, L. F. 1997, p. 57-8):
“Uma vez, num congresso de psicanalista em Paris — que é uma espécie de Bagé com metrô — me perguntaram de onde tinha saído a idéia do joelhaço e eu contei. Pues, cada vez que alguém lá em casa adoecia, chamavam o tio Lautério (…). Um dia eu, que era tão piá que ainda ficava na ponta dos pés pra mijar em penico, tive uma dor de ouvido. Chamaram o tio Lautério. Ele chegou e me encontrou chorando. A primeira coisa que disse foi pra me consolar:
‘Deixa de ser veado, ó cagão’. Mas tava doendo demais e não parei de chorar. Aí ele começou a me dar beliscão. E perguntava:
‘O que tá pior, o ouvido ou o beliscão?’
E eu berrava: ‘É o ouvido!’
Depois: ‘Tá empatado!’, e depois ‘É o beliscão!’.
Aí ele apertou mais até que eu gritei: ‘Tô com saudade da dor de ouvido!’
Me lembrei do tio Lautério quando decidi instituir o joelhaço.”
E é neste ponto que os diletos leitores devem estar se perguntando: “o que cargas d’água tem isto a ver com Quiropraxia?” Absolutamente nada. Mas deem uma olhadinha na foto abaixo:

Antes da Quiropraxia existir, havia os bonesetters. Eram basicamente leigos que estralavam ossos. Alguns até muito bem. O ofício do “arrumador de ossos” (numa tradução literal) era transmitido de pai para filho sem nenhum treinamento formal. E uma das técnicas era esse “joelhaço” da foto acima.
“Durante o século XVII e XVIII na Inglaterra, a prática da manipulação articular foi abandonada por uma grande parcela dos médicos sendo a sua prática relegada a leigos chamados ‘Bone-setters’ (…). A razão para o abandono da manipulação não está completamente clara, mas pode ter sido devido a ineficácia do uso indiscriminado ou o perigo envolvido no uso da manipulação vertebral em pacientes com o mal de pott, uma doença de proporções epidêmicas em certos locais nesta época” (lembrando que a medicina naquele período muitas vezes se pautava em remédios à base de álcool, cocaína, ópio e sangria com sanguessugas).
“A prática dos Bone-setters influenciou a criação de diversas filosofias de tratamento e profissões que utilizam a terapia manual como parte do seu arsenal terapêutico, como a Osteopatia, a Quiropraxia e a Fisioterapia manipulativa, cada uma destas utilizando conceitos diferenciados.”
Só que, quando D.D. Palmer teve aquela sacada de ajustar Harvey Lillard em 1895, ele havia então supostamente postulado uma potencial reação causa-efeito entre uma articulação específica e a surdez daquele zelador do seu prédio. Esta especificidade diferencia a Quiropraxia de outras técnicas manipulativas. A gente não dá “joelhaços”. A gente ajusta deliberadamente certas articulações a fim de obter um resultado já previsto cientificamente e neurologicamente — com educação superior.
É diferente da prática dos bonesetters — que, infelizmente ainda teimam em existir (basta conferir a quantidade de vídeos salpicados nas redes sociais de gente dando verdadeiras pauladas e marretadas em pacientes). A Técnica do Joelhaço ainda existe, mas agora está em versão nova e repaginada…
Mas é eficaz? Bem, a gente atira no que vê e às vezes acerta no que não vê, não é? Toda manipulação articular promove movimento. E tem lá seus benefícios. O problema é mexer onde não precisa ser mexido — sem falar dos riscos envolvidos através de uma manipulação tosca (ver artigos 152 e 269). Sim, especificidade é tudo.
E por falar em tosco, vamos fazer uma brincadeirinha. Imaginem se trocarmos “Analista de Bagé” por “quiropata” (termo este que, diferentemente de “Quiropraxista” com formação superior na área, é usado no Brasil para descrever a prática da manipulação articular por leigos ou por gente que faz “cursinhos de fim-de-semana”). Troquemos também a palavra “divã” por “maca”; “Freud” por “D.D. Palmer; “angústia existencial” por “queixas” e/ou “dor ciática” — e, com o perdão do inigualável Luis Fernando Veríssimo, vamos ver como o trecho abaixo fica:
“Diz que quando recebe um paciente novo no seu consultório, a primeira coisa que o (‘quiropata’) faz é lhe dar um joelhaço (…). Depois do joelhaço, o paciente é levado, (morrendo de dor), para (a maca), cobert(a) com um pelego. O paciente começa então a desfiar sua ladainha de (queixas):
— Começo a pensar, assim, na finitude humana em contraste com o infinito cósmico (…) e então tenho consciência do vazio da existência, da desesperança inerente à condição humana. E isso me (causa dor no ciático) (…).
— Ó Bagual, te preocupa com a defesa do Guarani e larga o infinito…
— O (D.D. Palmer) não diria isso.
— O que o (D.D.) diria tu não ia entender mesmo, ou tu sabe (ingrês)? (…)
— Só sei que estou (com dor ciática) e isso é terrível. É pior do que tudo.
Aí o (‘quiropata’) chega a sua cadeira para perto (da maca) e pergunta:
— É pior do que joelhaço?” (Veríssimo, L. F. 1997, pp. 8-10.)
Joelhaços à parte, por estes vídeos que circulam na internet, estaria o texto acima assim tão longe da realidade?