A anemia falciforme “é uma anomalia genética hereditária da hemoglobina (a proteína transportadora de oxigênio encontrada em glóbulos vermelhos) caracterizada” pela alteração morfológica dos glóbulos vermelhos do sangue — que ficam parecido com um formato de meia-lua ou foice (daí o nome).

As células falciformes têm sua membrana alterada — o que afeta a hemoglobina (essencial para transportar O2). São frágeis, têm sobrevida curta — e muitas vezes simplesmente eliminadas da circulação. Então há uma “destruição excessiva dos glóbulos vermelhos anômalos”. Isto, mais o formato que atrapalha a hemoglobina, é o que causa a anemia crônica.

Mesmo sendo considerada uma doença devastadora e incapacitante, a anemia falciforme se manifesta de diferente maneiras. Dependendo de alguns “fatores, como a presença de um ou dois genes mutantes para a doença“, ela pode “variar desde pessoas sem nenhum sintoma clínico (traço falciforme) até quadros graves, com comprometimento de múltiplos órgãos.”

“Uma vez que as células em forma de foice são rígidas e ficam agrupadas, elas têm dificuldade em fluir através dos vasos sanguíneos menores (capilares). Isso bloqueia o fluxo sanguíneo e reduz o fornecimento de oxigênio para tecidos nas áreas nas quais os capilares estão bloqueados. O bloqueio do fluxo sanguíneo pode causar dor e, com o tempo, lesões no baço, rins, cérebro, ossos e outros órgãos. Pode ocorrer insuficiência renal e insuficiência cardíaca. Podem ocorrer episódios de dor nas articulações e a articulação do quadril pode ficar tão danificada que precisa ser substituída”  — e como isso se relaciona à Quiropraxia, veremos mais tarde.

Essa condição é mais comum em indivíduos da raça negra. No Brasil, representam cerca de 8% dos negros, mas devido à intensa miscigenação historicamente ocorrida no país, pode ser observada também em pessoas de raça branca ou parda. 

A questão da raça é porque a doença é endêmica há milhares de anos em alguns pontos do planeta, particularmente no continente africano.

Hoje em dia há um certo consenso de que a anemia falciforme teria efetivamente se desenvolvido, por incrível que pareça, como uma linha de defesa contra a malária. No livro A Sobrevivência dos Mais Doentes, de Sharon Moalen, há uma frase que resume bem este processo: “Porque você tomaria uma droga que certamente o mataria daqui a quarenta anos? Por ser a única coisa que lhe impediria de morrer amanhã” (veja Artigo 82).

A malária, de acordo com a OMS, “é a doença tropical e parasitária que mais causa problemas sociais e econômicos no mundo, sendo somente suplantada pela” AIDS. “Também conhecida como paludismo, (…) é considerada problema de saúde pública em mais de 90 países, nos quais cerca de 2,4 bilhões de pessoas (40% da população mundial) convivem com os riscos de contágio. Anualmente, sobretudo no Continente Africano, cerca de 500 mil a 300 milhões da população são infectados e, destes, cerca de um milhão morre em consequência da doença.”

Pois bem. Desde a década de 1940, os cientistas sabem que a anemia falciforme protege seus portadores contra a malária.

Funciona assim: “o protozoário Plasmodium usa uma proteína chamada adesina para chegar à parte externa dos glóbulos vermelhos, de onde chegam às paredes dos vasos sanguíneos. A partir daí, provocam os problemas neurológicos e circulatórios ligados à malária. Nas pessoas que têm anemia falciforme, esse mecanismo é bloqueado. O Plasmodium não acessa a parte externa dos glóbulos vermelhos e, por isso, não há infecção. ‘Todo o sistema de transporte do parasita da malária fica degenerado nessas células’, resume Marek Cyrklaff, pesquisador do Departamento de Doenças Infecciosas da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, um dos autores” de um artigo de 2011, que desvendou esses mecanismos fisiológicos.

Linha de defesa ou não, a anemia falciforme é uma doença avalassadora e que impõe um sem-número de limitações a quem sofre dela.  

Mas o que pode levar uma pessoa com esta afecção a um consultório de Quiropraxia? Na experiência deste que vos escreve, o culpado tende a ser o quadril.

Isto por causa da osteonecrose. Apesar da fisiopatologia não ser ainda muito bem esclarecida, uma das consequências do formato das hemácias é que elas tendem a se agrupar. Consequentemente as falciformes terão dificuldade (como dito acima) em fluir através dos vasos sanguíneos menores (capilares). Esta oclusão microvascular (com consequente isquemia) ocorre ocorre mais comumente em tecidos com baixo fluxo sanguíneo, como o ósseo. E pode causar, portanto, osteonecrose — sobretudo da cabeça do fêmur.

Justamente a definição de osteonecrose é “a morte de um segmento de osso causada pela perda de suprimento de sangue”. A parte afetada sofre remodelação e se desgasta mais rápido do que o resto do corpo.

Clinicamente falando, pode haver “quadros assindefitomáticos até o desenvolvimento de deformidades articulares e osteoartrite de quadril — quando há colapso da cabeça femoral. O que leva o paciente com anemia falciforme ao Quiropraxista é a gradativa “perda (…) de movimento, discrepância no comprimento do membro e alterações de marcha” — e a esperança de que isto possa ser resolvido ou aliviado mecanicamente.

“A dor intensa, acompanhada de edema e eritema na área infartada, é um sintoma bastante incomodativo. A par disso, a osteonecrose secundária é uma doença incapacitante, relacionada à disfunção de quadril com implicação severa na qualidade de vida dos pacientes — ressaltada por uma maior frequência de hospitalização e crises falcêmicas.”

Novamente, na experiência deste clínico, o paciente com anemia falciforme já apareceria na clínica a par deste diagnóstico. Justamente por isso, deve-se, mais do que nunca, fazer “uma avaliação funcional cuidadosa em identificar sintomas dolorosos e perda da amplitude de movimentos (…), atentando para aspectos como história prévia de trauma. Essa constitui o meio mais seguro de evitar progressão desfavorável e intervenções terapêuticas invasivas, como a artroplastia total de quadril. Assim, é possível reduzir a necessidade de transfusão pré-operatória, risco de sangramento intraoperatório e de infecções associadas ao manejo cirúrgico. A decisão terapêutica é, portanto, delicada e complexa”.

Depois de detectar o problema através de “avaliação clínica e radiológica, o tratamento conservador (nos estágios iniciais) é voltado para o alívio da dor e redução da sobrecarga articular” — e neste ponto, Quiropraxia e reabilitação podem ajudar (até um certo ponto, ressalte-se).

Já nos estágios avançados é necessário aventar a possibilidade cirúrgica. O problema é a pouca eficácia. As “limitações funcionais podem persistir após  o procedimento. Portanto, cada intervenção deve ser considerada no contexto individual do paciente com distúrbio hematológico”. Neste estágio, o tratamento conservador também tende a ser pouco eficaz.

A chave é identificar cedo o problema do quadril. Todo paciente com anemia falciforme que este clínico atendeu já veio com um diagnóstico fechado. Quando a osteonecrose do quadril é diagnosticada logo de cara, há mais chances que tratamento conservador, mesmo com limitações, ajude a tentar recuperar um pouco a função articular e prevenir “desfechos graves e debilitantes”.