De fibromialgia e lúpus todo Quiropraxista sabe, estudou ou já tratou algum paciente com estas afecções. Stefani Joanne Angelina Germanotta foi “agraciada” com ambas.
Mas, afinal de contas, quem é esta Stefani Joanne Angelina Germanotta? Ela é, nada mais, nada menos, que “uma das maiores artistas musicais de âmbito global da atualidade”; ganhadora de prêmios Grammy, Globos de Ouro e até um Oscar™; famosa por sua “versatilidade em gêneros musicais, perfomances chamativas, moda e estética extravagante”; filantropa e “forte defensora dos direitos LGBTQ+, saúde mental e outras causas sociais”; e “a 5ª maior estrela da música pop do século XXI” (revista Billboard 2024).” Sim, a tal Stefani Joanne Angelina Germanottae é mais conhecida como Lady Gaga.
O nome artístico veio da famosa música oitocentista da banda de rock Queen, Radio Ga Ga. Reza a lenda que, um certo dia ao passar um texto para seu produtor, o autocorretor entendeu o título do canção como “Lady Gaga”. Ela gostou tanto que resolveu adotar o nome. O resto é história.
A cantora esteve no Brasil em duas ocasiões. Na primeira, em 2012, ela fez 3 apresentações como parte da “turnê Born This Way Ball, baseada no álbum que se tornou o hino de uma geração inteira. A etapa carioca aconteceu no Parque dos Atletas e não faltaram lágrimas. Emocionada, a cantora chorou ao cantar Hair, ao lado de três fãs escolhidos dentre os 40 mil presentes na plateia”. E mais recentemente, no dia 03 de maio de 2025, a cantora “trouxe a sua turnê Mayhem Ball para a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro”. De acordo com a prefeitura do Rio, a Polícia Militar e a produção do evento, o “show gratuito (…) reuniu 2,1 milhões de pessoas, superando todas as expectativas, se consolidando como um dos maiores eventos já realizados na orla carioca e o maior na carreira da cantora norte-americana” (superou com folga o show da cantora Madonna 1 ano antes na mesma praia, com 1,6 milhão de pessoas).
“Com um alto impacto visual, o show fez a multidão vibrar com os grandes sucessos da cantora. Em um primeiro momento, com a bandeira do Brasil, Lady Gaga parou o espetáculo e leu uma carta, se emocionou e agradeceu aos brasileiros por esperarem mais de 10 anos o seu show.”
Um parêntese: alguns especialistas contestam este número. “É humanamente impossível”, segundo Mariana Aldrigui, professora e pesquisadora de turismo da USP. “(…) mesmo considerando os obstáculos como a estrutura de palco, a densidade de pessoas e as barreiras físicas pré-estabelecidas para os shows, seriam 6 pessoas por metro quadrado, o que daria 1 milhão no máximo. Os números divulgados dão conta de 18 pessoas por metro quadrado, ou seja, (…) se fosse esse montante, não conseguiriam nem se mexer. (…) simplesmente porque não cabe. Não importa a conta que o Eduardo Paes faça”, reitera. Enfim…
Seja lá como for, este show de 2025 teria sido a 3ª incursão de Lady Gaga no Brasil, caso sua apresentação no Rock in Rio de 2017 não tivesse sido cancelada por uma crise violenta de fibromialgia. “’Fui levada ao hospital, não é simplesmente dor no quadril ou desgaste da estrada, estou com dor severa. Mas estou em boas mãos com os melhores médicos. Por favor, não esqueçam do meu amor por vocês. Lembrem-se de anos atrás, quando tatuei ‘Rio’ no meu pescoço, um desenho escrito por crianças nas favelas. Vocês ocupam um lugar especial no meu coração, eu amo vocês’”, escreveu Gaga em seu Instagram, logo após o cancelamento.”
Fibromialgia é uma condição elusiva e traiçoeira. “(…) causa dor musculoesquelética contínua e generalizada e outros sintomas que podem incluir fadiga intensa, problemas de sono, problemas de memória, distúrbios digestivos e da bexiga e depressão. O consenso entre os especialistas é que os sintomas se devem a um sistema nervoso central que ‘aumenta o volume’ da dor e pode até mesmo simplesmente criá-la.” De acordo com o Dr. Daniel Clauw, professor de anestesiologia na Universidade de Michigan e diretor do Centro de Pesquisa em Dor Crônica e Fadiga, inclusive “há evidências contundentes de que este é principalmente um problema entre o cérebro e o sistema nervoso central”. Veja mais sobre fibromialgia no Artigo 32.
Mas até aquele momento a cantora nunca havia vindo a público dizer que efetivamente sofria disso. E logo depois de também cancelar a mesma turnê na Europa, “ela revelou que a dor testemunhada pelos espectadores do novo documentário da Netflix, Gaga: Five Foot Two” era mesmo causada pela de fibromialgia. “Com (isso), Gaga e sua celebridade de alta potência lançaram talvez a luz mais brilhante até agora sobre uma condição amplamente incompreendida, que até mesmo alguns médicos ainda descartam. Ao tornar pública sua fibromialgia, ela espera ‘conscientizar e conectar pessoas que a têm’, ela tuitou. Nas redes sociais, enquanto muitos fãs expressaram seu incentivo, algumas pessoas acusaram Gaga de inventar ou exagerar sua dor. Mas os pacientes com fibromialgia — e os especialistas — sabem que a dor crônica e a incapacidade que as pessoas com fibromialgia vivenciam são bastante reais. Nossa compreensão da condição ‘continua a aumentar drasticamente'”, afirma o Dr. Clauw.
Mas, por mais dores que a pessoa tenha, fibromialgia nem de longe se compara com lúpus. E, apesar de nunca ter apresentado sintomas, Lady Gaga testou positivo para a doença, como revelou ao saudoso jornalista Larry King. “Lúpus é genético na minha família. Eu fui diagnosticada como tendo a doença, mas eu não tenho nenhum sinal, nem sintoma. De qualquer forma, eu tenho que cuidar muito bem de mim mesma”, confessou. Chegou a ter uma tia que morreu de complicações causadas pela afecção.
Por si só, o Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) — ou apenas lúpus — já é um problema e tanto. Trata-se de “uma doença inflamatória crônica de origem autoimune, cujos sintomas podem surgir em diversos órgãos de forma lenta e progressiva (em meses) ou mais rapidamente (em semanas) e variam com fases de atividade e de remissão”.
Na verdade, a questão autoimune tem sido debatida, visto que a causa da doença é geralmente desconhecida. Até o presente momento, “acredita-se que (lúpus) seja uma doença autoimune“. E como em qualquer doença desta natureza, “os anticorpos ou células produzidas pelo corpo atacam os próprios tecidos do corpo”.
E “por ser uma doença (supostamente) do sistema imunológico, que é responsável pela produção de anticorpos e organização dos mecanismos de inflamação em todos os órgãos, quando a pessoa tem LES ela pode ter diferentes tipos sintomas e vários locais do corpo (…) que pode envolver as articulações, rins, pele, membranas mucosas e paredes dos vasos sanguíneos. (…) Alguns sintomas são gerais como a febre, emagrecimento, perda de apetite, fraqueza e desânimo. Outros, específicos de cada órgão como dor nas juntas, manchas na pele, inflamação da pleura, hipertensão e/ou problemas nos rins”.
“São reconhecidos dois tipos principais de lúpus:
Além disso tudo, o sangue também pode ser afetado. As células sanguíneas são afetadas pela ação dos anticorpos. “Assim, se (…) forem contra os glóbulos vermelhos (hemácias) vai causar anemia, contra os glóbulos brancos vai causar diminuição de células brancas (leucopenia ou linfopenia) e se forem contra as plaquetas causará diminuição de plaquetas (plaquetopenia). Os sintomas causados pelas alterações nas células do sangue são muito variáveis. A anemia pode causar palidez da pele e mucosas e cansaço e a plaquetopenia poderá causar aumento do sangramento menstrual, hematomas e sangramento gengival. Geralmente a diminuição dos glóbulos brancos é assintomática”.
Apesar de poder acometer “pessoas de qualquer idade, raça e sexo“, é bem mais prevalente nas mulheres em idade fértil. “Ocorre principalmente entre 20 e 45 anos, sendo um pouco mais freqüente em pessoas mestiças e nos afro-descendentes. No Brasil, não dispomos de números exatos, mas as estimativas indicam que existam cerca de 65.000 pessoas com lúpus, sendo a maioria mulheres. Acredita-se assim que uma a cada 1.700 mulheres no Brasil tenha a doença. Desta forma, em uma cidade como o Rio de Janeiro teríamos cerca de 4.000 pessoas com lúpus e em São Paulo aproximadamente 6.000. Por essa razão, para os reumatologistas, o lúpus é uma doença razoavelmente comum no seu dia-a-dia”.
O Quiropraxista precisa estar atento aos sintomas e sinal do lúpus. Indicação seria o procedimento mais adequado. Mas pedir desde já exames laboratoriais pode praticamente definir a diagnose. “Exames comuns de sangue e urina são úteis não só para o diagnóstico da doença, mas também são muito importantes para definir se há atividade do LES. Embora não exista um exame que seja exclusivo do LES (100% específico), a presença do exame chamado FAN (fator ou anticorpo antinuclear), principalmente com títulos elevados, em uma pessoa com sinais e sintomas característicos de LES, permite o diagnóstico com muita certeza. Outros testes laboratoriais como os anticorpos anti-Sm e anti-DNA são muito específicos, mas ocorrem em apenas 40% a 50% das pessoas com LES.” Confira este curso online do IDQUIRO sobre o tema.
O tratamento costuma ser medicamentoso. “Todas as pessoas com lúpus precisam receber hidroxicloroquina e pessoas com lúpus que continua a causar danos (lúpus ativo) também precisam de corticosteroides e outros medicamentos que suprimem o sistema imunológico.”
Aliás, esta questão com hidroxicloroquina deu um bafafá danado na época da pandemia. Se a informação que a substância ajudava na recuperação do COVID-19 era procedente ou não, o que ocorreu de fato foi que a medicação se esgotou nas farmácias — o que prejudicou muito na época os que sofriam de lúpus.
Mesmo que Lady Gaga não tenha efetivamente desenvolvido a doença, ela precisa sempre ficar atenta e se cuidar. Porque alguns fatores servem como gatilho, tais como:
“Portanto, pessoas que nascem com susceptibilidade genética para desenvolver a doença, em algum momento, após uma interação com fatores ambientais (irradiação solar, infecções virais ou por outros micro-organismos), passam a apresentar alterações imunológicas.”
Apesar do lúpus não ter cura, também não é necessariamente uma sentença. Dr. Henrique Henrique Carrascossi, médico nefrologista e coordenador assistencialista da enfermaria de clínica médica do Hospital de Ensino da Santa Casa de Araraquara, “afirma que os pacientes, que convivem com esta condição, apresentam uma ótima qualidade de vida, pois os medicamentos conseguem controlar estes anticorpos. (…) ‘Se você tratar certinho, fizer tratamento correto, no tempo certo, os resultados são bons. Nós conseguimos fazer um bom controle, a pessoa tem uma sobrevida boa e normal com o tratamento correto'”, analisa ao falar da doença da cantora Lady Gaga“.
Lembrando que, mesmo tendo testado positivo para lúpus e com crises ocasionais de dores pela fibromialgia, nossa heroína não parou de trabalhar, produzir e criar. Naquele 2018 foi lançado mais uma versão do filme A Star Is Born, estrelada por ela e por Bradley Cooper — que também dirigiu. “Por seu trabalho neste filme, para o qual contribuiu também com a trilha sonora, Gaga foi aclamada pelos críticos, (indicada) ao Oscar™ de melhor atriz e vencedora da categoria de melhor canção original, à qual levou a estatueta pela música Shallow. Com este feito, se tornou a primeira artista musical a vencer cinco premiações na mesma temporada: Oscar, Grammy, Globo de Ouro, Bafta e Critics’ Choice.” Matou a pau.
Se observarem bem a cronologia de quando o filme foi realizado e a canção foi composta, ocorreram ambos bem no período das suas crises de dores. Sim, nem a fibromialgia nem o lúpus impediram esta sensacional artista de brilhar.