Dona Juscelina (nome fictício) é uma daquelas pacientes de longa data, mas que só aparece quando sente alguma coisa. Sessenta e tantos anos, fumante inveterada, dona de uma bela hipolordose com relativa atrofia da musculatura paravertebral, discopatia degenerativa difusa com múltiplos abaulamentos discais, chega a ser até surpreendente ela aparecer de vez em quando — geralmente a cada 3-5 anos. Apesar dos percalços da coluna, reage extremamente bem à Quiropraxia. 2-3 sessões costumam ser suficientes para a crise subsidir. Mesmo que ela se comprometa a continuar o tratamento depois de ouvir pela enésima vez a importância da manutenção, sem a dor para motivá-la mais cedo ou mais tarde some — para depois reaparecer alguns anos mais tarde. E por aí vai.

Pois bem: neste verão, dona Juscelina, como de outras feitas, mandou mensagens via whatsapp para marcar horário. Estava novamente em crise — só que desta vez menos de 8 meses da última. Achei os diálogos interessantes e resolvi transcrevê-los aqui neste artigo. O contato inicial foi feito com a minha então secretária. Mais tarde, eu mesmo respondi. Notem que nomes e cidades foram mudados e algumas palavras foram suprimidas para preservar a privacidade:

DONA JUSCELINA — Boa tarde. Tá tudo bem com vc?

DONA JUSCELINA — Me diz uma coisa: por acaso vc faz atendimento em Ubaitaba?

SECRETÁRIA — Boa tarde. Não. Dr. Iury não atende em Ubaitaba. Só em Ilhéus, Jequié e Itabuna.

DONA JUSCELINA — É uma pena. Por favor, pergunte a ele se tem alguém q ele conheça em Ubaitaba pra indicar pra mim.

SECRETÁRIA — Quiropraxista (formado) não existe nenhum.

DONA JUSCELINA — (áudio) Então. Meu nome é Juscelina Epaminondas. Já sou paciente do Iury já há alguns anos, né? Claro que não com tanta frequência, mas sempre que possível sim. Eu tava morando em (Uruçuca) e agora tô passando um tempo em (Ubaitaba) — e infelizmente sofri um acidente daqueles acidentes domésticos bestas, né? E caí com muita força e tô realmente com muita dor na parte posterior da coluna (…) na  altura da lombar. Fiz raio-x, não teve fratura nenhuma, mas com certeza foi alguma lesão muscular, né? Então gostaria de saber se ele tem alguém aqui em (Ubaitaba) para recomendar. Porque do jeito que estou, não tô conseguindo dirigir nem vou conseguir chegar em Ilhéus — por isso que perguntei, entendeu?

SECRETÁRIA — Imagino que haja fisioterapeuta. Não é a mesma coisa, mas deve ajudar.

DONA JUSCELINA — Ok. Grata.

DONA JUSCELINA — (áudio) Mas mesmo assim, por favor, se você puder passar esta informação pra ele, né, que ele me conhece pra… se ele puder falar comigo alguma coisa eu vou agradecer muito, tá? Por favor, se puder passar, quando ele puder me passar uma mensagem eu vou gostar muito de falar com ele sobre isso.

No dia seguinte, entro então em contato com dona Juscelina:

QUIROPRAXISTA — Bom dia, Juscelina. Soube que você está travada. Como posso ajudar?

DONA JUSCELINA — Iury, bom dia! Quero te explicar o q aconteceu pra saber se pode me ajudar…

DONA JUSCELINA — Fui fechar uma porta emperrada e a maçaneta saiu na minha mão… “Voei” pra trás e bati o lado direito com muita força no chão — altura do quadril…

DONA JUSCELINA — Me levaram pra uma clínica aqui em (Ubaitaba) e, felizmente, não houve fratura e nem fissura — somente lesões nas partes moles q, por conta disso, tô sentindo muitas dores na virilha (lado direito) e nas costas (sacro/cóccix)… Já fiz 4 sessões de fisioterapia, mas resolveu muito pouco…

DONA JUSCELINA — Se puder me ajudar e me atender hoje, vou conseguir alguém por aqui pra me levar, pq só tô conseguindo andar da cama pro banheiro inclinada pra frente — 🤷🏻‍♀🙆🏻‍♀️😔

QUIROPRAXISTA — Posso atender hoje, sim. Mas estarei atendendo até às 11:30. Se a senhora vier, traga as radiografias.

DONA JUSCELINA — Vou tentar conseguir alguém pra me levar e te confirmo. Grata pelo retorno.

1 hora depois…

DONA JUSCELINA — (áudio) Eu consegui uma pessoa para me levar. E… vou tentar chegar aí antes das 10:00. Tá bom? Obrigada.

(LIGAÇÃO DE VOZ PERDIDA)

DONA JUSCELINA — (áudio) Por favor, me confirme se está realmente tudo certo pra que eu possa confirmar esta viagem (Ubaitaba fica uns 80 km de Ilhéus). Por favor.

DONA JUSCELINA — Por favor, me confirme se posso ir.

DONA JUSCELINA — Só posso viajar qdo me confirmar. Um taxista irá me levar.

SECRETÁRIA — Bom dia, dona Juscelina. Dr. Iury havia falado que atende até às 11:30. Se a senhora chegar até então, ele atende, sim.

DONA JUSCELINA — Chegarei sim, se Deus quiser 🙌

SECRETÁRIA — Por favor, não esqueça de trazer os exames. Como houve trauma, Dr. Iury só atenderá se tiver os exames. Até porque algo pode ter passado despercebido no laudo…

Por volta das 10:00, chegou dona Juscelina. Saiu do táxi com dificuldade, amparada pelo motorista. Caminhava com muita dor. Pediu para usar o banheiro. Aproveitei para dar uma olhadinha na única incidência radiográfica (AP da pelve). Meus olhos foram escaneando a imagem. Estava procurando inicialmente por alguma fratura compressiva em T11, T12 ou possivelmente L1. Mas a imagem cortava em em L4. Havia uma área de esclerose e importantes sindesmófitos laterais à direita de L4/L5. Mas isto já tinha visto antes nas outras radiografias antigas da paciente. As articulações coxo-femorais exibiam alguma osteoartrose. Havia também muito gás e material fecal. E outras coisinhas mais. Foi então que eu notei o ramo superior do púbis. Custei a acreditar no que via, considerando que o exame de imagem tinha sido laudado pelo radiologista e visto por um ortopedista e por uma fisioterapeuta.

Havia ali uma patente e óbvia fratura.

Expliquei os achados e recomendei a dona Juscelina que ela procurasse outro ortopedista para uma segunda opinião. Indiquei alguns nomes de confiança.

“Mas, Iury, tem certeza que é uma fratura? Três profissionais viram esta radiografia e ninguém disse nada…”

“Sim, Juscelina. Definitivamente tá fraturado.”, respondi.

“Não dá para você dar uma ajustadinha?”, insistiu.

“Não, caríssima. Além de não te trazer nenhum alívio, pode agravar ainda mais esta fratura. Sem falar que você vai ter que ficar de molho por um tempo.”

Meio desapontada, nossa heroína entrou de volta no táxi e seguiu para o centro da cidade. Lhe mandei por whatsapp uma foto da radiografia com a área da fratura assinalada seguida pelas seguintes mensagens:

QUIROPRAXISTA — Juscelina, olhando essas imagens um pouco melhor, é bom procurar (o) ortopedista ainda hoje. Ele deve pedir uma tomografia para avaliar a extensão da fratura.

QUIROPRAXISTA — O ramo superior do púbis definitivamente está fraturado. Talvez haja uma fissura no ramo inferior do púbis também. Daí a importância da TC.

Algumas horas depois, me mandou a seguinte mensagem:

DONA JUSCELINA — (áudio) Oi, Iury. Então. O médico ortopedista aqui do hospital confirmou realmente, claro, seu diagnóstico fantástico como sempre. Gratidão, meu amigo. Gratidão. (…) Obrigada. E aí me deu esta receita toda aí (que te mandei) e estou aqui agora aguardando. Eu vou para Itabuna. Não volto para (Ubaitaba). Ele falou eu tenho que ficar no mínimo 45 dias sem colocar o pé direito no chão. Então, não tenho como ficar em (Ubaitaba) porque lá estou sozinha. Estou indo para a casa de uma tia que tenho em Itabuna e vou ficar lá este tempo. Viu? Aí qualquer coisa a gente vai se falando. Obrigada mais uma vez, Iury. Gratidão.

QUIROPRAXISTA — Boa recuperação, Juscelina.

Abaixo segue a radiografia para apreciação dos colegas:

Apesar de ensinar imagenologia clínica, eu raramente peço exames de imagens. Geralmente os pacientes já trazem para mim — como ocorreu neste caso. Mas quando uma mulher de quase setenta anos relata uma queda e não consegue caminhar direito de tanta dor, é sempre prudente pedir uma radiografia. E jamais confiar somente no laudo.

Afinal de contas, tal qual São Tomé (que precisava ver para crer), qualquer clínico, depois de uma detalhada anamnese e exame físico, pode necessitar ver um exame de imagens para constatar e confirmar sua suspeita diagnóstica.