Conheci dona Mauritânia nos idos de 2012. Ela apareceu na clínica aos 47 anos de idade com queixa de dores na região sacroilíaca esquerda irradiando para o MIE. Começou a sentir 10 anos antes enquanto “bandeirava” cacau. A irradiação apareceu 07 anos depois.
Para facilitar o processo de quebra da dura casca do cacau e a posterior fermentação das sementes, é preciso primeiro “bandeirar” os frutos. Isso consiste em recolher o cacau do chão ou tirá-lo das árvores e juntar todos os que estão no mesmo ponto de maturação num só lugar, formando vários montes — que são chamados de “bandeiras” ou “rumas”.
Dona Mauritânia era uma mulher do campo. Humilde, possuía uma rocinha com seu marido onde plantava feijão, mandioca e algum cacau. Criou os filhos assim, com as mãos calejadas e disposição para trabalhar. As dores de coluna estavam atrapalhando, mas a paciente já tinha parado de “bandeirar” cacau meses antes de começar o tratamento: ela e a família haviam sido sumariamente expulsos da sua terrinha.
A demarcação de terras indígenas é um processo complicado no Sul da Bahia. No afã de oferecer algum tipo de restituição aos povos originários, o governo não define a extensão territorial e deixa tramitar na justiça por anos a fio. “Distribuídos entre os municípios de Itabela, Itamaraju, Prado, Porto Seguro, Ilhéus, Buerarema, Una e Belmonte, os três territórios indígenas, juntos, somam mais de 108 mil hectares de terra, ocupados por mais de quatro mil indígenas.”
Infelizmente o particípio “ocupados” e substantivo “indígenas” são palavras interpretativas. Há, sim, indígenas que ocupam este território. Há também gente que se diz indígenas e tiram vantagem da situação para invadir e tocar o terror nestas áreas. Os pequenos e humildes agricultores que vivem e labutam na terra por gerações a fio, como dona Mauritânia e família, são obrigados a sair de casa com a roupa do corpo na calada da noite sob ameaças de morte.
E assim foi feito. Perderam tudo. As duas vaquinhas leiteiras, os porquinhos, as galinhas, a casa e os poucos hectares de terra. Tudo. Foram morar de favor com a filha na cidadezinha mais próxima. Além dos parcos pertences, só a dor de coluna permaneceu com ela.
Dona Mauritânia era baixinha, meio bochechuda, e para mim, tinha uma mistura de negro e, ironicamente, índio. Um doce de pessoa. Adaptamos o custo das sessões a seu orçamento e, durante essas 02 décadas, exceto por 01 ano durante a pandemia, fez o tratamento direitinho e manteve sua manutenção com regularidade britânica. Era a primeira a chegar na clínica. Aproveitava uma carona com o carro da saúde da prefeitura da sua cidade e, muitas vezes, já me esperava na porta.
As dores passaram. Como todo paciente que faz manutenção assídua, quando havia alguma reincidência (sempre depois de alguma estripulia, como carregar peso — ou por alguma fatalidade, como levar um escorregão), recuperava rápido. Durante estes anos, teve alguns embates. O marido faleceu em 2017. Lutou com uma erisipela na perna esquerda por alguns meses. Mas melhorou. Queixava-se por vezes de dores relacionadas a chikungunya. Uma vez apareceu com dores no calcanhar esquerdo e clavícula esquerda em 2019 — e ombro direito em 2023. Passaram rapidamente. Alguns meses antes de morrer, havia sido diagnosticada com insuficiência venosa nas pernas. A médica aconselhou usar uma bengala para caminhar. Ela claramente não precisava. Mas, pela densitometria ter acusado osteopenia, a doutora achou melhor. Por minha vez, achei melhor não contestar.
Na véspera de atendê-la, sempre mandava uma mensagem lembrando. Para o whatsapp da filha (dona Mauritânia nunca se acostumou com tais tecnologias). No começo de outubro, sua menina me respondeu que ela havia falecido. Surpreso e triste, quis saber o que houve. Ela me respondeu num longo áudio.
Como de costume, dona Mauritânia jantou com a filha e foram assistir a novela. De repente, começou a gritar de dor no estômago. Ela, que sempre foi muito resistente a dor. “Nunca vi minha mãe gritar assim”, falou a filha, que, prontamente, chamou o vizinho, colocou-a no carro dele e levou-a a um posto de saúde mais próximo.
O médico estava fora, atendendo uma outra emergência. A enfermeira lhe deu um Buscopan e deixou-a no soro por algum tempo. As dores melhoraram e voltaram para casa. No outro dia, dona Mauritânia parecia muito abatida e letárgica. Se queixava de muitas dores, mas não tinha energia para gritar. A filha notou que seu abdome estava “inchado e roxo”. Disse que levaria a mãe para o posto de saúde (a cidade não tem hospital), mas dona Mauritânia lembrou que não adiantaria muito, pois o médico ainda não havia chegado. Esperaram um pouco.
Àquela altura, ela já estava bem debilitada e com os olhos começando a “ficar vidrados”. A filha chamou um táxi, mas dona Mauritânia já chegou morta no posto de saúde.
Lamentei muito seu falecimento. Vai fazer falta. Era uma daquelas pessoas realmente boas de espírito. Fiquei pensando no que poderia ter causado sua morte.
Úlcera péptica hemorrágica me veio a cabeça, Trata-se “uma úlcera de forma redonda ou oval na qual o revestimento do estômago ou duodeno foi corroído pelo ácido gástrico e sucos digestivos”. Pode haver hemorragia intensa, onde o sangue vai para o estômago ou duodeno. A perda sanguínea pode causar “fraqueza, redução da pressão arterial quando a pessoa levanta, sudorese, sede e desmaios”. A dor é súbita, intensa e persistente, muitas vezes na parte superior do abdome, podendo irradiar para as costas. Porém, em todos esses anos que a tratei, ela nunca se queixou de nada remotamente parecido com dores estomacais.
Pelo relato da filha, me pareceu uma rotura de um aneurisma da aorta abdominal. Esta dilatação ocorre insidiosamente e costuma ser silenciosa, mas quando se rompe, causa hemorragia interna grave com alto risco de morte. Os “primeiros sintomas geralmente são dor extrema no abdômen inferior e nas costas e sensibilidade na região sobre o aneurisma”. Certamente corrobora com o que aconteceu inicialmente. “Se a hemorragia interna resultante for grave, a pessoa pode entrar em choque rapidamente. Um aneurisma da aorta abdominal rompido frequentemente é fatal e, se não for tratado, sempre será fatal.” Por azar, o médico não estava no posto e a enfermeira não identificou os sintomas prontamente. O inchaço do abdome no dia seguinte e a letargia de dona Mauritânia são, na minha opinião, patognomônicos. Ainda mais quando a filha notou o arroxeamento da barriga, indicando sangue.
“A triagem para aneurismas da aorta abdominal por ultrassom, mesmo em pessoas sem sintomas é, às vezes, recomendada para certas pessoas com mais de 65 anos, como homens que fumaram e que têm histórico familiar de aneurisma da aorta abdominal.” Ela nunca fumou. Se havia histórico familiar, não se sabia. Morreu com 61 anos.
Eu sei que toda esta conversa não vai trazer dona Mauritânia de volta. Nem eu ter revirado sua ficha à procura de algum indício.
Não apareceu nas radiografias da época (2007 e 2012), que mostraram apenas alguma hiperlordose, osteófitos e sindesmófitos difusos e talvez uma pequena anterolistese de L5. Nem nas tomografias de 2007, 2012 e 2015. Nelas, só constava abaulamentos de L3/L4 e L5/S1 e uma então importante extrusão foraminal esquerda de L4/L5 com hipertrofia do ligamento amarelo neste segmento.
Se houve de fato um aneurisma da aorta, bem provável dela ter se desenvolvido depois desses exames de imagens. Sem ateromatose (que enfraquece a aorta), a verdade é que fica difícil visualizar nos exames acima. Seria necessário pedir algo mais específico, como uma ultrassonografia abdominal (“que é um exame não invasivo e o mais comum para detectar aneurismas da aorta abdominal”). Angiotomografia computadorizada (TC) e angioressonância magnética (RM) fornecem “imagens detalhadas da aorta e podem ajudar a avaliar o tamanho e a forma do aneurisma”. Mas nunca houve sequer um traço de suspeita. Muitas vezes aneurismas aparecem em exames de rotina.
Se isto for realmente o que aconteceu com dona Mauritânia, seria bem possível que ela não tivesse resistido a severidade da hemorragia nem mesmo na sala de operação. Já vi acontecer. Suponho que até uma peritonite por apendicite supurada pudesse meio que imitar esses sintomas. À esta altura ninguém vai saber ao certo.
A filha me disse que estava desconsolada e se sentindo culpada por não ter levado-a a um hospital de uma cidade próxima. Chorou muito. Nunca lhe disseram de quê dona Mauritânia morreu (no atestado de óbito estava escrito “morte natural”). De minha parte, eu lhe respondi que sua mãe a amava, que ela fez o que pôde, e que, independente do que pudesse ter feito, provavelmente não teria mudado o resultado. O que mais podia dizer?