Até que ponto o reflexo da saúde de um país se reflete na quantidade de médicos atuando nele? Porque jamais o Brasil contou com tantos como atualmente.
De acordo com o estudo A Demografia Médica CFM – 2024, divulgada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), existem cerca de 576 mil médicos trabalhando atualmente no Brasil – um país de mais de 212 milhões de pessoas. Isto faz com que a média nacional seja de 2,8 médicos para cada mil habitantes — taxa semelhante à registrada no Canadá e supera países como os Estados Unidos, a China, o Japão, a Coreia do Sul e o México. A CFM “vê com preocupação esse crescimento acelerado pelas suas implicações na formação dos profissionais e até da assistência oferecida à população”.
“O número de médicos (…) aumentou oito vezes mais do que o da população em geral. Entre 1990 e 2023, a população médica registrou crescimento médio de 5% ao ano, contra aumento médio de 1% ao ano identificado na população em geral. A maior progressão no volume de médicos ocorreu de 2022 a 2023, quando o contingente saltou de 538.095 para 572.960 – um aumento de 6,5%.” (Fonte: Agência Brasil)
A grande maioria dos médicos, como é de esperar, permanece concentrada “nas regiões Sul e Sudeste, nas capitais e nos grandes municípios. Nas 49 cidades com mais de 500 mil habitantes, que juntas concentram 32% da população brasileira, estão 62% dos médicos do País.”
“Já nos 4.890 municípios com até 50 mil habitantes, onde moram 65,8 milhões de pessoas, estão pouco mais de 8% dos profissionais da área, ou seja, em torno de 42 mil médicos.”
“Apesar de juntas responderem por 24% da população do país, as 27 capitais brasileiras reúnem 54% dos médicos. Por outro lado, moram no interior 76% da população e 46% dos médicos. O trabalho mostra ainda que as capitais têm a média de 6,21 médicos por mil habitantes. Já no interior esse índice é de 1,72.”
As diferenças também ocorrem entre as regiões brasileiras:
No Distrito Federal há 6,3 médicos por mil habitantes — seguido pelo Rio de Janeiro (4,3), São Paulo (3,7), Espírito Santo (3,6), Minas Gerais (3,5) e Rio Grande do Sul (3,4). Do outro lado do espectro, “estados como Amazonas (1,6), Amapá (1,5), Pará (1,4) e Maranhão (1,3) apresentam as menores razões (…)“. Na Bahia, a proporção é de 2,09 médicos a cada mil baianos — inferior, portanto, à média nacional.
Por conta do crescimento exponencial de formados, o Governo Federal definiu a quantidade de vagas de medicina que podem ser abertas em todo o país. “Em 2018, a abertura de novas faculdades de medicina foi congelada por cinco anos no Brasil.”
Mas existe um número de médicos considerado ideal? Não. A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que “a definição de índices de médicos por habitantes depende de fatores regionais, sócio-econômicos, culturais, entre outros, que diferem de região para região, o que torna impossível e pouco válido o estabelecimento de uma ‘cifra ideal’”.
Venhamos e convenhamos: chama um pouco nossa atenção o fato do DF ter uma média maior do que a Alemanha (4,53) enquanto a Bahia está abaixo da maioria do países desenvolvidos. E usando a Bahia como microcosmo, são mais de 29 mil médicos em atividade no nosso estado. Destes, 16.309 trabalham em Salvador e região metropolitana. Então, 55% dos médicos baianos atuam numa área onde vivem um quarto da população total do estado.
Isto significa uma média de 6,73 médicos para cada mil habitantes na terra do Senhor do Bonfim. E, no resto da Bahia, uma média de 1,13 por mil habitantes! É chocante, não? Enquanto a média da Grande Salvador é superior a de 195 países, incluindo os desenvolvidos (curiosamente, só perde para Cuba e Mônaco), o resto do estado se contenta com uma média pior do que o Amapá, que, diga-se de passagem, é o último colocado do ranking nacional. Isto quando temos sorte de haver médicos em certas cidades baianas.
“Há mais de 100 municípios onde não reside nenhum médico. Isso acontece porque (…) são muito pequenos e sem estrutura mínima para fixar este profissional”, declarou o Conselheiro Federal de Medicina Jecé Brandão (Revista do Cremeb, ano 1 – nº 2). Não há, aparentemente, “um plano de carreira (…) que seja capaz de oferecer segurança, provento digno, promoções e vantagens ao profissional”, alega o médico Antônio Carlos Vieira Lopes, presidente da Associação Baiana de Medicina (ABM).
O segundo maior município em números de médicos no interior da Bahia é, naturalmente, Feira de Santana. Com 1.733 médicos para uma população de 616 mil habitantes (dados do IBGE 2022), a Princesa do Sertão está dentro da média de 2,81 médicos para mil pessoas. Vitória da Conquista conta com 1.672 médicos para servir 318.901 habitantes (4,51 médicos para mil pessoas). Itabuna, 625 para 186.708 (3,34); Teixeira de Freitas (3,01); Guanambi (4,41); Ilhéus (2,83); Santo Antonio de Jesus (3,94); Eunápolis (2,19); Jequié 339 (2,13); Irecê (3,97); e Porto Seguro (1,3).
Analisando proporcionalmente, observem que cidades como Vitória da Conquista, Guanambi e Santo Antônio de Jesus possuem índices europeus. Já Porto Seguro, um point turístico, tem um índice baixíssimo.
Considerando que a Bahia tem mais de 400 municípios restantes, não há como não ter um déficit de médicos com estas estatísticas. Isto gera filas e esperas de proporções gigantescas no atendimento público e resulta em consultórios inchados por planos de saúde. Como consequência, os médicos passam cada vez menos tempo no atendimento individual. E acabam dependendo demais de exames para fechar o diagnóstico — o que onera ainda mais o SUS e os planos (ver Artigo 141).
E, claro, com tudo isso, é até constrangedor comparar tais estatísticas com o número de quiropraxistas formados e reconhecidos que clinicam na Bahia: 6 em Salvador, 1 em Feira de Santana, 1 em Seabra, 2 em Guanambi, 1 em Vitória da Conquista, 1 em Eunápolis, 1 em Xique-Xique, 1 em Irecê e 1 em Ilhéus (este que vos escreve). A média por habitantes é simplesmente escandalosa. Nem vale a pena mencionar. Mas, enfim…