A World Federation of Chiropractic (WFC), instituição fundada em 1988, representa a nossa profissão internacionalmente. Conta com 99 países – membros e mantém relações oficiais com a Organização Mundial de Saúde.

Esta organização, desde 1991, realiza um congresso a cada dois anos, onde as mais recentes pesquisas e variados workshops são apresentados. Cada congresso é uma oportunidade de conhecer técnicas inovadoras, novidades do nosso campo, e até de realizar alguns negócios. Naturalmente, são comuns os stands de venda de materiais.

Cidades como Londres, Washington, Tóquio, Auckland (Austrália), Paris, Orlando, Vilamoura (Portugal) e Montreal já sediaram congressos passados. Em 2011, o Brasil foi o país escolhido. E desde então, ocorreram congressos em Durban, África do Sul (2013), Atenas, Grécia (2015), Washington, DC (2017), Berlin, Alemanha (2019), virtual em 2021, Gold Coast, Austrália (2023) e Copenhagen, Dinamarca (2025). O próximo será em Vancouver, Canadá em 2027.

Até o 11º Congresso Bienal da WFC, eu então nunca havia participado de qualquer tipo de evento deste porte — pelo menos não como Quiropraxista formado. Naquela época, minha vida se resumia em atender em algumas clínicas e criar (eu e minha esposa) os 3 filhos. Nunca priorizei os congressos, mas este do Rio, teria sido demais simplesmente não ir. Era uma oportunidade imperdível. Então, resgatei as passagens de avião por milhas, fiz as malas, peguei a família e me mandei para a Cidade Maravilhosa a fim de imergir-me neste caldo de conhecimento.

Ficamos hospedados no próprio hotel do congresso, o InterContinental, lá no São Conrado. Este adquiriu fama duvidosa no dia 21 de agosto de 2010, ao ser invadido por traficantes em fuga, que fizeram 35 reféns. Não obstante, tudo estava muito calmo por lá. O hotel foi uma maravilha e com uma linda vista para a Pedra da Gávea.

Depois de 46 anos de atividade, o InterContinental acabou encerrando suas atividades em 2018. “A Brazilian Hospitality Group (BHG) e a Sig Engenharia deram entrada na prefeitura com um pedido de retrofit do complexo, que fechou inicialmente para obras em 2018 (ainda antes da pandemia do Covid-19) e jamais reabriu as portas.” O objetivo seria transformar “mais um tradicional empreendimento hoteleiro da cidade (…) em condomínio residencial” — acontecimento este que estava ainda sendo anunciado em 2024.

Em 2011, o Rio vivia o auge de uma relativa paz durante o período em que as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) funcionavam maravilhosamente. Podia-se andar do InterContinental até a entrada da favela da Rocinha e comer uma pizza (pagando antecipado, claro). Chegamos até a beber água de coco numa praia em frente ao hotel às 22:00 enquanto jovens locais jogavam vôlei na areia. O então Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Benincá Beltrame, surfava na proverbial crista da onda — apesar de uma teimosa dor lombar (ver Artigo 155).

Naquela época, eu escrevia uma coluna semanal para o jornal Diário de Ilhéus. Logo depois de ter regressado do evento, foi publicado a resenha abaixo:

“O 11º Congresso Bienal da WFC (ou FMQ em bom português), realizado entre os dias 6 e 9 de abril, foi um incontestável sucesso. Teve cerca de 850 inscrições. Somente Quiropraxistas foram permitidos — muito além dos pouco mais de 400 profissionais reconhecidos que trabalham atualmente no Brasil. Tinha gente de todo o globo: Japão, Canadá, Estados Unidos, Holanda, Bélgica, Chipre, Argentina, Chile, Peru, Austrália e Nova Zelândia, só para citar alguns. Ainda assim, era para ter tido muito mais inscritos. A dificuldade e a lentidão para obter vistos foram empecilhos. Houve até um pequeno “incidente diplomático”, em que o presidente da Associação Turca de Quiropraxia, por algum motivo, teve sua entrada para o Brasil negada.

No primeiro dia, falou-se sobre medicina esportiva e o processo de seleção de Quiropraxistas para integrar o comitê olímpico de diferentes países. Naquela manhã, fomos agraciados com a presença de Bernard, ex-jogador de vôlei, medalha de prata na Olimpíada de Los Angeles (1984) e membro do Comitê Olímpico Brasileiro. Lembram-se daquele saque terrível dele, o Jornada nas Estrelas? Pois é. Apareceu também Carlos Alberto Torres, o eterno Capitão da Seleção Brasileira tricampeã da Copa do mundo de 1970. Ambos tiveram boas experiências como pacientes de Quiropraxia e foram lá apoiar a profissão. Popó estava certo para ir, mas na última hora não deu.

À tarde, este que vos escreve participou de um seminário sobre um tratamento inovador para a Síndrome do Ombro Congelado (Capsulite Adesiva) e outro sobre radiologia de problemas nos membros inferiores. Este último foi ministrado por Lindsay Rowe, um médico radiologista e também Quiropraxista, co-autor de uma das mais completas obras sobre radiologia já escrita. Este livro tem sido uma referência na vida profissional deste humilde escriba, que não teve constrangimento nenhum em fazer uma tietagem explícita e apertar a mão daquele homem extraordinário.

No segundo dia, discutiram-se quais os melhores exercícios para lidar com dores crônicas, bem como um resumo da história da manipulação da coluna vertebral — tópico amplamente discutido em artigos anteriores. Glenda Wiese, autora de um importante livro sobre História da Quiropraxia, ministrou este último. À tarde, uma aula muito interessante sobre ajustamento da coluna lombar em decúbito lateral.

No último dia, uma surpresa: Marcelo Botelho, Quiropraxista que trabalha conosco na nossa clínica em Salvador, ganhou um prêmio por sua pesquisa sobre os efeitos de manipulação cervical nas performances dos judocas. Tivemos aulas ministradas por ortopedistas sobre procedimentos cirúrgicos para hérnias de disco cervicais. E um simpósio muito esclarecedor sobre pediatria.

Ainda deu tempo de dar um pulinho no Pão de Açúcar, no Corcovado e no Museu de História Natural da Quinta da Boa Vista. Mas, tudo que é bom acaba. Em 2013 será o próximo congresso em Durban, África do Sul. Estaremos lá, se Deus quiser.”

Idealizar, organizar e realizar um congresso não é tarefa fácil. Tudo tem que ser meticulosamente planejado — 1% inspiração e 99% perspiração, como dizia o inventor da lâmpada Thomas Edison. Mas, às vezes, ocorre que os 1% se sobressaem aos 99%. Acontecimentos de última hora podem acontecer e o sucesso passa a depender da arte do improviso — e com o 11º Congresso Bienal da WFC definitivamente não foi exceção.

Eventos como estes são planejados com, pelo menos, 2 anos de antecedência. Envolvem viagens, negociações com hotéis, contatos, organização de cronograma e conteúdo, planejamento orçamentário, uma infinidade de coisas. No entanto, faltava neste congresso uma figura pública que falasse em prol da Quiropraxia. E horas antes de começar, ainda não tinham encontrado a pessoa certa. Os organizadores estavam resignados.

Foi aí que, durante uma conversa informal com uma Quiropraxista que atuava no Rio de Janeiro, descobriram que ela tratava da coluna de ninguém menos que Carlos Alberto Torres. Alguém deu a ideia de entrar em contato com o ex-capitão tricampeão da Copa de 1970. Já tinham um “não”. O que custava perguntar? Para surpresa geral, Carlos Alberto se mostrou bastante receptivo e concordou aparecer. Ele, que ganhava a vida dando palestras, iria falar sem cobrar um centavo — tudo pelo amor e gratidão à que a Quiropraxia fez por ele.

Foi um corre-corre desenfreado. Tinham que fazer mudanças de última hora no programa. E desenvolver um vídeo de apresentação do ilustre palestrante. A dra. Sira Borges foi designada a pegar um táxi até o centro e procurar (naquela época internet não era de tão fácil acesso) uma loja que fizesse algum tipo de troféu — muito para o horror dos Quiropraxistas locais que morriam de medo de andar naquela área mais antiga e relativamente degradada da Cidade Maravilhosa. Pois a 1ª presidente da ABQ não sabia que era impossível, foi lá e fez. Procurou, procurou, bateu perna, pediu informações a um e a outro e acabou finalmente encontrando a tal loja — que fez uma adequada lembrancinha personalizada para o nosso Carlos Alberto Torres. O discurso dele foi belíssimo e extremamente inspirador.

Este 1% de inspiração (mas também com muita adrenalina e perspiração) foi a cereja do bolo que faltava para coroar um perfeito Congresso.

Em tempo:

  • Carlos Alberto Torres e Lindsay Rowe deixaram este plano espiritual em 2016 (o primeiro em outubro e o segundo em janeiro). Vão fazer falta.

  • Não sei se houve uma história semelhante com Bernard, que também falou muito bem na abertura do Congresso. A dra. Sira aproveitou e fez também um trofeuzinho legal personalizado para ele.

  • Contrário do que escrevi em 2011, não cheguei a ir ao congresso da África do Sul. Mas fui no de Atenas em 2015 com toda minha família. Foi uma viagem inesquecível.

  • Depois de 2011, o Brasil passou a ser figura tarimbada nos Congressos da WFC, ganhando prêmios por pesquisas em quase todos (senão todos) os congressos desde então.

  • No Congresso da ABQ de 2017 em Florianópolis, um palestrante cancelou de última hora, abrindo uma lacuna tanto no pré-congresso, quanto na programação do evento. Eu nunca havia participado de um congresso da ABQ antes e fui convidado pela Federação Latinoamericana de Quiropraxia (FLAQ) para fazer uma apresentação de imagenologia clínica. Obsessivo-compulsivo como sou, preparei 3 ou 4 apresentações diferentes — o que serviu como uma luva para os organizadores do evento preencherem os espaços vazios deixados pelo tal palestrante.

    Inadvertidamente acabei eu mesmo virando palestrante do VI Congresso Brasileiro de Quiropraxia — uma absoluta honra para mim e que representou o começo da minha jornada de participações em eventos como este no Brasil, México, Peru e Chile. Tudo isso graças à prevalência dos 1% de inspiração dos organizadores.