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— Artigo 33 —

Artigo 33 – Quiropraxia & Dores de Coluna na Sétima Arte

By |2020-12-29T16:04:20+00:0027/12/2020|Categories: Coluna da Coluna, Filmes, Pop Culture|

Filmes por natureza exageram na percepção da realidade. Como mídia exclusivamente visual e acústica, eles botam pra quebrar nestes dois sentidos especiais.

Por exemplo, na vida real, o zumbido de uma mosca não significa nada para nós, além do inseto nos enchendo o saco. Mas nos filmes, quando o tal zumbido aparece, é certo que a gente vai encontrar alguma coisa morta e decomposta. Tossir faz parte de nossa rotina no dia-a-dia. Mas Deus nos livre se alguém começar a tossir nos filmes. É sinal de morte certa. Agora, a cena que irrita profundamente qualquer Quiropraxista é quando o personagem, ao preparar-se para algum tipo de embate, gira e estala seu pescoço de um lado para outro. Esta cena até já virou clichê, infelizmente.

Quer queira, quer não, existe uma doutrinação por parte dos filmes. Como a glamorização dos cigarros nos filmes noir das décadas de 30, 40 e 50, este negócio de estalar o próprio pescoço acaba fazendo escola. As pessoas imitam. É terrível, porque auto-manipulação vertebral já não é uma coisa saudável. Pior ainda é tentar fazer isto antes de uma batalha. O que não daríamos para ver o sujeito travando o pescoço depois de uma manobra dessas e a luta acabar antes de começar… Aí, sim, seria subverter o clichê! Enfim…

Vale mais a pena exagerar na percepção da realidade do que fazer pesquisa. E isto não é exceção nem com a nossa dileta profissão. Sim, com algumas notáveis exceções, Quiropraxistas não são muito bem retratados em Hollywood. O que dublou as cenas do então recém-falecido Bela Lugosi no ótimo Ed Wood (1994) fez, numa lanchonete, uma manobra tão tosca no pescoço da mulher do pior diretor do mundo que envergonharia o mais picareta dos práticos (ou talvez não…). O amigo do protagonista de Quem Vai Ficar Com Mary? (1998) dizia para a assistente que encontrou “encurtamento muscular” na sétima vértebra lombar (só existem cinco). A rápida participação do namorado Quiropraxista da protagonista em Novidades no Amor (2009) resumiu-se em um festival de flatulência num banheiro químico. O inepto irmão de Charlie Sheen do seriado Dois Homens e Meio (2003-2015) machucou um sujeito ao fazer um ajustamento cervical, e teve que procurar a ajuda de um ortopedista. Melhor sorte teve o tio do personagem principal que resolveu ajustar toda a família de Todo Mundo Odeia o Chris (2005-2009) em pleno feriado de Ação de Graças — mas de uma maneira totalmente atabalhoada.

Mas nem tudo está perdido. A Quiropraxista do  The Answer Man (2009), pelo menos, conseguiu aliviar o protagonista de suas dores de coluna. Nota-se que o próprio Jon Cryer de Dois Homens e Meio se deu ao trabalho de pesquisar e imitar direitinho manobras reais de Quiropraxia — apesar dos pesares. Já a produção de Alucinações do Passado (1990) fez uma belíssima pesquisa sobre as técnicas da nossa querida profissão. As manobras efetuadas por Louie, o personagem Quiropraxista interpretado pelo saudoso Danny Aiello, são, de fato, muito verossímeis. Uma honrada exceção.

Dores lombares, então, definitivamente não são também tão bem retratadas na Sétima Arte. Os atores limitam-se a dobrar o corpo e colocar a mão nas costas, como a personagem de Lília Cabral em Divã (2009) ou como o personagem de Paul Rudd no sofrível Um Jantar para Idiotas (2010). Ou chegar ao cúmulo de andar a cidade toda de quatro como o principal personagem de The Answer Man (2009). Foi também desta maneira que Renato Aragão interpretou dores ciáticas n’A Turna do DiDi (1998-2010) alguns anos atrás. E sofria uma dita “manipulação vertebral” de um enorme massagista afro-brasileiro. Volta e meia alguns personagens d’A Grande Família (2001-2014) se enrolam com dores de coluna (novamente dobrando o corpo e colocando as mãos nas costas) — e ainda se recuperam com uma rapidez miraculosa. Nicholas Cage nem se deu ao trabalho de reproduzir os maneirismos do seu personagem com dores de coluna e viciado em analgésicos (e outras drogas mais) em Vício Frenético (2009). Andava como se dor nenhuma o afetasse.

Caminho oposto fez Keanu Reeves no filme The Matrix (1999), que teve que fingir NÃO sentir as violentas dores cervicais com cervicobraquialgia que o acometiam na época, e assim ajudar a fazer um dos melhores filmes de ação de todos os tempos.

Por outro lado, a atuação magnífica de Greg Kinnear no aclamado seriado The Kennedys (2011) retrata a linguagem corporal do presidente John Fitzgerald Kennedy, refém de terríveis lombalgias. Quando este sentava ou levantava de uma cadeira, doía só de olhar.

Mas Soul Kitchen (2009), na opinião deste humilde cinéfilo, foi o filme que reproduziu mais cuidadosamente os percalços de alguém com dores lombares. Seu diretor, Fatih Akin, é sofredor crônico de lombalgia e treinou Adam Bousdoukos, o ator principal. Zinos, o dono do restaurante do título, tem um troço na coluna ao tentar levantar um frigobar. E passa o filme inteiro sofrendo e tentando resolver outros problemas bem mais urgentes. A maneira à la “tartaruga de barriga pra cima” de se levantar da cama; o andar incerto e mancando; a postura antálgica (torto para um lado); e as reincidências ao longo do filme – todos compõem um retrato fiel do quadro clínico evolutivo de um “lombalgista”, com direito a uma violenta dor ciática no final.

Em tempo: o protagonista só melhorou após ser “manipulado” com tração por um turco “fisioprata” (seja lá o que isto for). Pode uma coisa dessa?

About the Author:

Iury Borges Rocha formou-se Quiropraxista em 1996 pelo Palmer College of Chiropractic, em Davenport, Iowa - EUA. É também bacharel em Ciências pelo Palmer e tem Licenciatura em Comunicações pelo Scott Community College, em Bettendorf, Iowa, EUA. Atende em Ilhéus-BA e região. Atual Diretor Acadêmico e palestrante internacional da FLAQ e do IDQUIRO, já exerceu o cargo de Tesoureiro da ABQ e foi o primeiro Coordenador do programa de Quiropraxia da Feevale. Escreveu cerca de 300 artigos num período de cinco anos sobre diversos assuntos para o hoje extinto jornal Diário de Ilhéus — sempre tendo a coluna vertebral como pano de fundo.

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