Durante a juventude deste que vos escreve, havia um professor de História da Civilização Ocidental que, no começo do curso, tinha como costume desenhar duas linhas: uma reta e outra sinuosa, cheia de curvas, com falhas e imperfeições. Ele apontava para a linha reta e dizia que isto é o que estudamos agora. E aquilo, apontando para a outra linha, é o que realmente se passou. Mantenham isso em mente.

O assunto deste artigo poderia muito bem virar um roteiro de filme.

Imaginem uma simpática senhorinha de seus 75 anos ser de repente alçada a fama como filha do primeiro paciente de D.D. Palmer? E a partir daí viver seus últimos 10 anos de vida dando palestras, recebendo prêmios honorários — efetivamente sendo parte integral da história da Quiropraxia e a voz dos negros estadunidenses e das mulheres da nossa profissão na década de 80? E de tudo isto provavelmente se tratar de um embuste?

Valdeenia “Lillard” Simons nasceu em 1895 — no mesmo ano, portanto, que D.D. Palmer ajustou Harvey Lillard. Mas durante décadas permaneceu no anonimato. “Os detalhes de seu primeiro envolvimento não são claros, e não se sabe exatamente quando ela foi primeiramente anunciada como filha de Lillard. A maioria das informações que documentam o envolvimento de Valdeenia (neste assunto) começa na primavera de 1981, quando ela foi entrevistada por Vern Gielow enquanto ele conduzia pesquisas para seu livro, Old Dad Chiro. Após essa entrevista e sua aparição no livro de Gielow, ela foi entrevistada várias vezes e fez aparições pessoais em convenções e faculdades de quiropraxia.”

Esse período de anonimato ela sempre negou. Durante uma entrevista para o jornal Chiropractic History em 1982, nossa protagonista afirmava que “a família Palmer a convidava com frequência para participar de celebrações no PSC (Palmer School of Chiropractic — o nome antigo do Palmer College)”. Chegou até a relatar que B.J. teria dito a uma plateia durante o Lyceum (antigo Homecoming): “Eu sei que ela se orgulha de saber que seu pai foi responsável por tudo isso.” E. num “artigo de jornal de 1983” ter sido convidada de honra pelo então “presidente do Palmer College, Dr. David Palmer” (neto de D.D.).

Nessas aparições e entrevistas, a simpática velhinha tinha sua própria versão do que teria acontecido durante o dito 1º ajustamento de Quiropraxia. Relembrando os escritos de D.D. Palmer, o ajustamento teria ocorrido da seguinte maneira:

“Harvey Lillard, um zelador do (prédio), onde eu tinha meu consultório, era tão surdo havia 17 anos que não conseguia ouvir o barulho de uma carroça na rua nem o tique-taque de um relógio. Perguntei a causa de sua surdez e fui informado de que, ao se esforçar em uma posição curvada e apertada, sentiu algo ceder em suas costas e imediatamente ficou surdo. Um exame mostrou uma vértebra deslocada de sua posição normal. Concluí que, se essa vértebra fosse recolocada, a audição do homem seria restaurada. Com esse objetivo em mente, uma conversa de meia hora convenceu o Sr. Lillard a me permitir recolocá-la. Coloquei-a no lugar usando o processo espinhoso como alavanca e logo o homem pôde ouvir como antes.”

Já a narrativa da dona Valdeenia (como consta em Old Dad Chiro) era um pouquinho diferente:

Harvey Lillard “e um amigo estavam contando (piadas) do lado de fora da porta aberta que levava ao consultório de D.D. Palmer (que) estava lendo um livro em sua cadeira favorita. Ouvindo a conversa em voz alta (…), Palmer decidiu se juntar aos dois homens e caminhou até o corredor onde eles estavam. Obviamente apreciando o clímax (da piada), D.D., rindo muito, bateu nas costas de Harvey com o livro que ele carregava consigo. Vários dias depois, Lillard comentou com Palmer que achava que conseguia ouvir um pouco melhor após (…) o tapinha (do livro). D.D. comentou: ‘Vamos tentar fazer algo a respeito.’ Logo, ele começou a trabalhar com Lillard para restaurar sua audição. A explicação de Valdeenia sobre o contexto das circunstâncias torna-se mais favorável ao comentário de Palmer de que o primeiro ajuste foi ‘realizado com um objetivo em vista'”.

Prestem bem atenção que estas duas narrativas (sobre “um caso raro e excepcional de perda auditiva induzida por subluxação vertebral”, ressalte-se) têm uma diferença essencial: na primeira, D.D. raciocina que a surdez de Lillard teve a ver algo com sua coluna; na segunda, que esta ideia só passou pela cabeça dele depois do comentário do zelador.

Pois bem. Em todas suas apresentações e discursos, dona Valdeenia defendia com unhas e dentes o legado do pai. “A Quiropraxia surgiu por causa (dele)”, costumava dizer. Ela argumentava que Harvey Lillard, um negro estadunidense na virada do século, teve um papel bem mais ativo nos primórdios da profissão. Que havia sido sacaneado pelos Palmers e que “nunca recebeu o que merecia”. E não poucas vezes, iconoclasticamente, relatou versões diferentes (e, às vezes, contraditórias) do que se passou naquele famoso primeiro ajustamento:

  • Durante uma visita à Cleveland University em 1984, dona “Valdeenia falou sobre uma promessa que D.D. Palmer (havia feito) a seu pai”: que, estabelecida uma escola, ela, quando tivesse idade para tanto, poderia frequentar a instituição e se formar Quiropraxista. “Essa promessa de D.D. Palmer a Lillard foi fortemente enfatizada por Valdeenia, e ela expressou grande decepção pelo fato de, devido à cor de sua pele, a promessa não ter sido cumprida. Este é um tema frequentemente repetido” e nossa protagonista “se arrepende de não ter seguido esse caminho” e não ter podido estudar, pois, à epoca, o “PSC restringia a matrícula apenas a brancos (…) e, “de fato, restringiu pessoas de cor de frequentar a escola até a década de 1950. Os primeiros folhetos da Palmer afirmavam: ‘Negros não são aceitos'”.

    Fonte: Adams, P. (1983, December 14). Looking back to dad’s brush with history. [Peoria, IL] Joumal Star.

  • No ano anterior, durante a III conferência da Associação para a História da Quiropraxia (AHC) em 1983, “Valdeenia disse à plateia que seu pai permaneceu surdo até o dia de sua morte”¹. Isso provocou risos nervosos e algumas pessoas até comentaram “entre si sobre a importância do tratamento regular de Quiropraxia”. Os autores da pesquisa em que este artigo se baseou aventaram a possibilidade de que a verdadeira intenção do comentário era enfraquecer a narrativa de D.D. “e talvez do próprio ‘milagre de Lillard'”².

    ¹David Chapman-Smith, comunicação pessoal, 11 de junho de 2015; A. Callender, comunicação pessoal, 1º de março de 2017.

    ²Third conference on chiropractic history held. (1983). Journal of Chiropractic, 20 (10), 15.

  • Finalmente, em algumas entrevistas³ ⁴ ⁵, afirmou que D.D. Palmer e Harvey Lillard estavam em conluio e que “fizeram um pacto para compartilhar as (eventuais) recompensas da Quiropraxia. Eis o que teria se passado: se D.D. de fato descobrisse “os detalhes do motivo pelo qual a audição de Lillard (havia melhorado) e, se ele transformasse isso em algo bem-sucedido, tanto Palmer quanto Lillard compartilhariam (os lucros). “‘Mas isso não aconteceu’, insinuando claramente que Palmer não cumpriu seu acordo com Lillard. (…) Novamente, ela retratou Lillard como mais do que apenas um paciente, ele estava envolvido na formação da quiropraxia. De acordo com Valdeenia, esta foi a segunda promessa que D.D. Palmer não cumpriu.”

    ³Westbrooks, B. (1983, March-April). The missing element — black society and chiropractic. Today’s Chiropractic, 57.

    Westbrooks, B. (1982). The troubled legacy of Harvey Lillard: The black experience in chiropractic. Chiropractic History, 2(1), 47-53.

    Keating, J. (1997). B.J. of Davenport: the Early Years of Chiropractic. Davenport,IA: Association for the History of Chiropractic.

Valdeenia “Lillard” Simons morreu em 1990. Em 2017 foi publicado no jornal Chiropractic History uma pesquisa bombástica revelando que a simpática velhinha talvez não fosse quem ela professasse ser. Ao tentarem fazer uma árvore genealógica, se depararam com várias contradições:

  • “Valdeenia declarou que sua mãe era Amanda Christine Bradshaw, esposa de Harvey Lillard. Em “entrevistas (…), ela indica que sua mãe e Harvey Lillard se divorciaram e ele se mudou para Seattle.”

    De acordo com os arquivos da época, o zelador havia se casado 2 vezes. O primeiro enlace se deu em 1882 com Martha (Mattie) Ashby. De acordo com o censo do período, o casal não teve filhos. Se separaram em 1894. A fila andou e logo depois Lillard contraiu matrimônio com Phoebe Doles ainda em outubro de 1894. Tiveram uma filha, Eulália, nascida em 1898. Se mudaram para Seattle em 1908. A menina morreu em 1923 e Harvey Lillard 2 anos depois, em 1925 — ainda casado com Phoebe.

    Já a pequena Valdeenia nasceu da união de Amanda Christine Bradshaw e John Hubbard. Foi a 2ª de uma prole de 3. Os pais se casaram em 1895, quando o filho mais velho estava com 3 anos. O relacionamento do casal era instável, com crises de ciúmes e arroubos de violência. John não era boa bisca. Ficou preso 5 anos por atirar num homem por “dar atenção” à esposa (1899-1904). O casamento acabou logo depois, mas o marido não se conformava e tentou matar a esposa a tiros em 1905. Preso novamente, foi solto por conta de uma tuberculose e morreu em 1909. Amanda já havia falecido em 1907. “Valdeenia tinha dez anos quando seu pai atirou em sua mãe e foi enviado para a prisão. Quando ela tinha quatorze anos, seus pais já estavam mortos.” Foi viver com parentes.

  • Então a paternidade pode ter se dado por uma puladinha de cerca? “Não há registro histórico que sustente a conclusão de que Harvey Lillard e (…) Amanda Bradshaw Hubbard, tenham tido uma filha juntos”. Nem sequer viviam na mesma comunidade. “Na época da concepção de Valdeenia, eles viviam a 240 quilômetros de distância e mantinham outros relacionamentos.” De qualquer maneira, 100% de certeza só com teste de DNA. O resto é meramente especulativo.

  • Dona Valdeenia alegou também ter mantido um constante fluxo de correspondência com Harvey Lillard até 2 semanas antes dele morrer. Ocorre que, durante o censo de 1880, foi indicado que Lillard não podia nem ler nem escrever. O recenseador da época “teve que marcar as caixas separadas, indicando que ele” era analfabeto. Claro, as cartas poderiam ter sido escritas através de outra pessoa. Mas aí já fica difícil provar a autoria. Além disso, o famoso zelador pode muito bem ter aprendido a ler e a escrever posteriormente a 1880. No entanto, não há um registro sequer que prove este feito. E as cartas, até onde vai o conhecimento deste que vos escreve, nunca vieram à tona.

Além de tudo isso, há a suspeita por parte dos autores da pesquisa que dona Valdeenia possa ter convenientemente assumido “sua identidade como filha de Harvey Lillard algum tempo após o falecimento do Dr. David Palmer em 1978. Ele foi uma das últimas pessoas que restaram dos primeiros dias no PSC e, portanto, uma das únicas pessoas com a capacidade de refutar a história sobre a (sua) ascendência (…)” e se ela de fato chegou a falar no PSC.

Mas se esta história toda é fake, o que levou esta senhorinha a inventar tamanho embuste? “Motivos para esse tipo de fraude geralmente incluem dinheiro, poder/fama, promover uma agenda/expor um problema. Como palestrante, Valdeenia certamente teve algumas despesas de viagem pagas, mas não parece haver outra maneira de ela ter lucrado financeiramente por ser filha de Harvey Lillard. Ser famosa foi uma recompensa suficiente para Valdeenia participar dessa empreitada?”

Que a simpática velhinha gostava de ser uma celebridade no metiê da Quiropraxia, disso não há dúvida. Afinal de contas, “ela foi entrevistada para um livro e vários outros artigos. No National College, em 1983, ela sentou-se à mesa principal e discursou num pódio para uma sala lotada de profissionais, em sua maioria brancos. (…) ocupou uma posição de honra no evento, com pessoas fazendo fila só para apertar sua mão”.

Sim, “ser famoso pode ser lisonjeiro e inspirador. Ela claramente gostava de ser conhecida como filha de Harvey Lillard e compartilhava essa informação livremente e com frequência; era o papel perfeito para ela”. Nos seus últimos 10 anos, viajou, brindou, comeu e bebeu de graça. Hospedou-se nos melhores hoteis. Foi reverenciada e paparicada como nunca na sua sofrida vida.

Porque infância difícil ela teve. E dona Valdeenia era obviamente uma mulher extremamente inteligente que cresceu numa sociedade patriarcal e racista que não a deixou aflorar seu potencial. Casou-se 3 vezes. Tocou um comércio de sucesso na sua juventude. Militante e conscientizada, “foi eleita presidente dos Comitês de Legislação e Reparação Legal da Seção Tri-City da NAACP. Naquele mesmo ano, ela trabalhava no Arsenal de Rock Island e concorreu pela chapa democrata para Vereadora do Terceiro Distrito de Rock Island”. (…) “Ela provavelmente viu muitas injustiças em sua longa vida.” Portanto, “promover uma agenda/expor um problema não pode ser descartado como motivo.”

O autor deste artigo regozija que talvez a ideia tenha aflorado durante uma consulta de Quiropraxia — em que o profissional que a tratava quiçá tenha observado nossa protagonista ter nascido no mesmo ano em que Harvey Lillard foi ajustado. Ideia esta que foi amadurecida e aperfeiçoada ao longo dos anos para enfim ser colocada meticulosamente em prática no final dos anos 70. Os sobrenomes “Hubbard” (que herdou dos seus pais) e “Lillard” são “muito parecidos. Escritos à mão, especialmente em letra cursiva (minúsculo), um nome poderia ser facilmente confundido com o outro”.

Claro, esta hipótese deste que vos escreve, tal qual as histórias da dona Valdeenia, carecem de validação.

Mas o ponto de partida do suposto embuste parece mesmo ter sido a entrevista conduzida por Vern Gielow. Ele ficou extremamente impressionado com o carisma da simpática senhorinha e com a riqueza de detalhes da sua narrativa:

“A Sra. Valdeenia Simons é uma personalidade extraordinária, com um ótimo domínio das lembranças de seu pai. Seu conhecimento da primeira “experiência” de Quiropraxia foi transmitido diretamente por seu pai. A vida posterior de Lillard não era conhecida em detalhes (…).”

E que bela oportunidade para uma militante veterana negra transmitir uma mensagem de injustiça social para um público primariamente branco que ansiava por cada palavra dela, ouví-la e venerá-la! Daí a reinvenção de Harvey Lillard: nascido de uma negra escravizada e filho “ilegítimo” de um branco escravizador, ela dizia que seu bisavô era de linhagem nobre britânica. Mais do que um simples “zelador do Edifício Ryan, onde D.D. Palmer morava e” trabalhava, dona Valdeenia também dizia que seu pai “possuía e operava uma empresa de zeladoria” — transformando-o “em um empresário e empreendedor (…)”. Para um homem negro, “isso seria um feito impressionante numa Iowa de 1895.” E que, ainda por cima, teve uma parte ativa no “descobrimento” da Quiropraxia.

Por ser “da realeza inglesa, um improvável empreendedor minoritário na década de 1890, e o descobridor não anunciado da quiropraxia”, ela reconstrói a persona de Harvey Lillard e, à sua maneira, possivelmente reescreve a história — já que nada disso jamais foi comprovado.

Se realmente toda esta narrativa foi falsa, imaginem a satisfação daquela senhorinha negra em ser bajulada por toda uma comunidade branca? Dar em quem deu nela sua vida toda? Uma pequena vingança depois de tanta opressão…

Seja lá como for, “para a grande maioria da profissão, e para todos os outros no mundo, quaisquer invenções de Valdeenia são inofensivas. É duvidoso que suas histórias tenham tido algo além de repercussões positivas na comunidade quiroprática afro-americana. Não parece haver vítimas de suas histórias; seus comentários têm impacto apenas sobre aqueles profundamente envolvidos na história da quiropraxia.”

Mas também não é bem assim. “Essas histórias (…) não são apenas enfeites. Seu conteúdo, quando considerado como um todo, pode ser usado para minar os fundamentos da história da Quiropraxia” e que, “embora não sejam maliciosas ou intencionais, mudam os detalhes da (nossa) história (…)” — que, mais do que uma linha reta, é sinuosa, cheia de curvas, com falhas e imperfeições…

Em tempo: nossos agradecimentos a David Chapman-Smith por apontar a direção correta; a professora Josane Souza, PhD por sugerir terminologias mais aceitáveis; e a Brent McNabb, DC por mexer os pauzinhos e encontrar uma pesquisa não disponível facilmente na internet — e que na qual este artigo foi baseado:

Foley J, Mirasol J. Valdeenia “Lillard” Simons: revealing the ruse and evaluating her impact on the persona of Harvey Lillard. Chiropractic History 2017;27(2):54-70.