A Coluna da Coluna

— Artigo26 —

Artigo 26 – Coluna também é Cultura!

By |2020-11-10T12:48:33+00:0010/11/2020|Categories: Coluna da Coluna, Curiosidades|

Poderiam os diletos leitores imaginar que a coluna vertebral já foi considerada uma espécie de amuleto? Na Europa medieval, acreditava-se que tocar a corcova de um corcunda trazia sorte. O mais interessante é que, em algumas regiões mediterrâneas, este estranho costume ainda persiste. É possível comprar pequenos talismãs de plástico representando um corcunda sorridente.

A coluna vertebral fascinava os antigos. Os macedônios estavam inteiramente convencidos que ela se transformava em serpente depois da decomposição do corpo. Em várias culturas, a medula espinhal era representada como uma estrada, uma escada ou um bastão. Alguns povos chegavam a entender a medula como uma réplica da árvore cósmica que faz ligação com o paraíso (o cérebro). É uma linguagem figurativa que não foge muito da função real desta estrutura.

Voltando à Idade Média, defeitos de nascença na coluna vertebral eram bem vistas pela população. Qualquer pessoa que tivesse uma parte a mais da coluna eram tidas como bem-aventuradas, ou até abençoadas. Neste período, “a ‘essência’ da medula era considerada muito benéfica” (MORRIS).

O único problema era saber exatamente que essência era esta. Afinal, estamos falando de uma época em que tomar banho mais de uma vez por ano era considerado perigoso e queimava-se gente na fogueira por dizer que a terra girava em torno do sol.

Da medula espinhal saem 33 pares de nervos que comandam tudo que há na gente. Este “rabicho” atua como um elo entre o cérebro e o resto do corpo — inteiramente protegido pela coluna vertebral. O conceito da “árvore cósmica”, relatado no segundo parágrafo, portanto, estava bem no alvo. Mas, apesar desta função de guardiã da coluna, o papel simbólico das costas na história da humanidade foi de pouca relevância.

O que existia muito na antiguidade e persiste até os dias de hoje é a linguagem corporal associada com a coluna.

  • Por exemplo, já notaram que, quando um cachorro quer mostrar subserviência ao outro, ele se deita e expõe a barriga? Fazemos a mesma coisa, só que com nossas costas. “Nas culturas antigas, sobretudo nas orientais, era comum expor as costas em sinal de respeito”. Ou seja, o exato oposto dos nossos amigos caninos. De fato, “em tempos remotos, o movimento tinha que ser bastante acentuado para expor inteiramente as costas ao superior” (MORRIS). Claro que as relações humanas são um pouco mais complexas hoje em dia, mas curvar-se, em algumas culturas, ainda é um tremendo sinal de respeito — na China, no Japão, ou em qualquer país muçulmano.
  • Gestos relacionados à coluna carregam grande significado. O famoso e quase universal tapinha nas costas denota cumprimento, conforto e demonstração de amizade. Pressionar a mão nas costas de outra pessoa é um gesto íntimo que insinua um “conte comigo se precisar”.

  • Ficar em posição ereta com as mãos cruzadas atrás das costas induz a idéia de confiança a ponto de não necessitar de nenhuma proteção frontal. Não à toa, esta é uma posição militar que evoca sentido e disciplina. Já o gesto secreto e oculto de cruzar os dedos com as mãos nas costas ao fazer um juramento equivale a dizer uma mentira.

  • Andar curvado dá a impressão de impotência, de fatalismo, de pessimismo e de fracasso. Diminui a altura e denota subordinação. Andar ereto com as costas aprumadas, por outro lado, passa uma mensagem de segurança, otimismo, sucesso, e ainda aumenta a altura do corpo (o que um tratamento de coluna não faz…). Mas esticar demais as costas induz a prepotência e arrogância, e pode ser considerado um gesto ameaçador.

Entrando numa área ainda mais subjetiva, porque, afinal de contas, gosto não se discute, há a questão da beleza. A coluna feminina é naturalmente mais arqueada do que a masculina. Por isso e por muitos considera-se que há uma certa poesia em suas curvas  — talvez por serem deliberadamente acentuadas com a projeção do quadril para trás. E ainda por cima, coroadas com duas pequenas depressões situadas de cada lado da base da coluna bem acima dos glúteos — mais perceptíveis nas mulheres devido à gordura depositada nesta região. Não por acaso as costas nuas femininas estão presentes em tantas pinturas clássicas. Já as estátuas de guerreiros e deuses na Grécia e Roma Antiga, bem como o David de Michelangelo retratam as costas masculinas com uma riqueza de detalhes impressionante — sobretudo no relacionamento entre os músculos trapézio, grande dorsal e serráteis.

Sim, caros leitores, as costas podem servir como sinônimo de beleza e até, para alguns, um potente símbolo sexual.

Nossa coluninha, quem diria… Simbólica, cultural e até objeto de desejo!

Fonte: The Naked Woman: A Study of the Female Body, de Desmond Morris. Editora Vintage, 2005. 288 pgs.

About the Author:

Iury Borges Rocha formou-se Quiropraxista em 1996 pelo Palmer College of Chiropractic, em Davenport, Iowa - EUA. É também bacharel em Ciências pelo Palmer e tem Licenciatura em Comunicações pelo Scott Community College, em Bettendorf, Iowa, EUA. Atende em Ilhéus-BA e região. Atual Diretor Acadêmico e palestrante internacional da FLAQ e do IDQUIRO, já exerceu o cargo de Tesoureiro da ABQ e foi o primeiro Coordenador do programa de Quiropraxia da Feevale. Escreveu cerca de 300 artigos num período de cinco anos sobre diversos assuntos para o hoje extinto jornal Diário de Ilhéus — sempre tendo a coluna vertebral como pano de fundo.

Próximos Cursos

Não há eventos se aproximando neste momento.

Contatos

SGAS 910, Conj. B, Bloco A, Sala 13, Ed. Mix Park Sul, Asa Sul, Brasília, DF, 70390-100

Phone: +55 (73) 3231-5928

Web: www.idquiro.com