Roberto Campos (1917–2001), político, economista, diplomata e ex-ministro do Planejamento do governo Castello Branco, era um ícone da direita. Sua luta para liberar a entrada de capital estrangeiro no Brasil rendeu-lhe a pejorativa alcunha de “Bobby Fields”. Era brilhante ensaísta e, certa vez, saiu-se com esta frase:

A burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promissor”.

Parece um tanto quanto drástico, não? Mas, analisando mais detalhadamente, talvez Roberto Campos soubesse do que estava falando. Afinal, nossa solução para resolver problemas no trânsito é construir um número absurdo de quebra-molas (ver Artigo 163). Algum “gênio” da administração implanta no nosso principal banco um sistema beócio de senhas, e agora, temos que enfrentar filas ANTES DE ENTRAR no banco. Mesmo com o fórum totalmente informatizado, temos que acordar de madrugada para enfrentar fila para pegar senha, e assim, enfrentar a fila de verdade (coisa que antes não acontecia, ressalte-se). Documentos antes oferecidos na hora hoje levam dias para serem emitidos. O governo partidariza e aparelha as autarquias, e consegue derrubar a confiança dos brasileiros até numa instituição outrora confiável como os Correios. Precisamos de mais exemplos?

Mesmo depois de quase 50 anos, o FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País), sátira coluna do eterno Stanislaw Ponte Preta, continua bem atual — e olha que o escritor que cunhou o termo morreu em 1968!

Não só gostamos de dar murro em ponta de faca, como procuramos o jeito mais fácil de fazê-lo —  se a burocracia permitir e a fila não tiver muito grande.

Sim, buscamos atalho para tudo. Estudar Quiropraxia corretamente, por exemplo, requer quase (ou até mais de) 4.000 horas/aula e cinco anos de duração em atualmente 06 universidades no Brasil. Mas, mesmo com reconhecimento tramitando (e claudicando) no Congresso Nacional, nossa profissão virou vítima de oportunistas. Cursinhos rápidos de final de semana pipocam feito vírus na internet. Só variam de duração: podem ser de sete dias, passando por quarenta horas, chegando até 300 horas de curso — quando somente a parte de radiologia de uma formação de verdade dura mais do que isso! Resultado: pseudoprofissionais formados sem ter idéia do que fazem e sem ter noção do aumento exponencial dos riscos. Estes cursos fajutos, naturalmente, são caros. O profissional não adquire competência para realizar seu trabalho. Quem perde é o paciente, submetido a um tratamento desnecessariamente arriscado. No final das contas, só ganha mesmo é quem ministra o curso. FEBEAPÁ.

Além de não ser lá muito consolo de não ser só com a gente, o pior é que estes cambalachos ocorrem também na medicina. A reportagem de capa da revista VEJA (04/08/2010) relata os riscos da lipoaspiração no Brasil. “Quando ela (a cirurgia estética) é realizada dentro dos parâmetros de segurança, a média de mortes é de 0,002% – o equivalente a um óbito em cada 50.000 intervenções. No mundo ideal, o Brasil deveria registrar, no máximo, quatro mortes por ano. Mas, como o uso irresponsável da técnica é amplamente disseminado, esse número é bem maior.” Parece que andar na berlinda virou mania. No Rio de Janeiro, “para cada clínica legalizada, há, pelo menos, três clandestinas”. Estima-se que “o número de clínicas irregulares supere o dos estabelecimentos com o alvará de funcionamento em dia” onde “médicos e clínicas sem escrúpulos oferecem metamorfoses milagrosas, parceladas em até 36 vezes”.

Não é fácil tornar-se um cirurgião plástico. Para obter o título, “o médico tem de cumprir dois anos de residência em cirurgia geral e mais três em cirurgia plástica. E o atestado, emitido pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, exige provas escrita, oral e prática. Muitos médicos driblam a falta do título de especialista com diplomas de cursinho de fim de semana, pelos quais pagam, em média, 2.000 reais”. A VEJA relata aulas de anatomia que duram vinte minutos e de anestesia que duram uma hora —  “praticamente o mesmo tempo que dura um episódio da série médica House”. E o pior, caros leitores, é que, de acordo com a reportagem, a lei não proíbe os médicos não especialistas de operar. Quem perde? O paciente, naturalmente. FEBEAPÁ.

Bem provável que muitos se lembrem do caso do “Dr. Bumbum“, um médico sem especialização em cirurgia plástica nem CRM para atuar no Rio de Janeiro, que, não obstantemente, atendia, era fera nas redes sociais (650 mil seguidores) e fazia procedimentos num apartamento na Zona Sul. Pois bem. Uma bancária de 46 anos teve uma reação e acabou morrendo em 2018. O sujeito foi preso após passar 4 dias foragido, mas solto em 2019. Só no final de 2021 que o Conselho Regional de Medicina finalmente cassou o registro do tal médico.

É por essas e por outras que não nos devemos deixar seduzir pelo canto do Instagram, o silvo do Twitter ou o pelos encantos do Tik Tok. Melhor e mais sensato seria buscar informações sobre o profissional em questão — seja ele ou ela quem for. Informar-se onde se formou e quais são suas formações e especializações. Não ter medo de questionar.

Afinal de contas, já passou do tempo de desacreditarmos a frase de Bobby Fields e de terminarmos de vez com o FEBEAPÁ!