O livro Guia de Abordagens Corporais, organizado por Ana Rita Ribeiro e Romero Magalhães, foi publicado em 1997 pela Summus Editorial. Está fora de catálogo, mas dá para encontrá-lo em sites de livros usados, como o Estante Virtual — que descreve a obra como “compilação ampla das teorias e técnicas que de alguma maneira envolvam o corpo no processo de aquisição do bem-estar físico e psicológico. São apresentados modelos psicoterápicos, sistemas fisioterapêuticos e toda a gama de técnicas contemporâneas que visam a conscientização corporal bem como a prevenção e cura de problemas físicos e fisiológicos.”
A dra Sira Borges e eu fomos convidados a escrever um capítulo sobre Quiropraxia. Era uma época mais inocente, quando a gente podia dar cursos de trigger points para fisioterapeutas sem temer que nossa profissão pudesse ser fagocitada por eles. Os tempos mudaram desde então. O que era visto com respeito e reverência passou a ser cobiçado levianamente. O tempora o mores! (Ó tempo, ó costumes!— como diziam os romanos…)
De todo modo, segue o texto na íntegra — tal qual foi escrito por um rapazinho de 26 anos que havia acabado se se graduar do Palmer College of Chiropractic e recém-chegado ao Brasil cheio de dúvidas, incertezas e expectativas. Se pararmos pra refletir, não deixa de ser uma singela justiça poética que o 1º artigo que escrito por mim em português sobre o tema virou o de nº 300 do Coluna da Coluna — para fechar este blog com chave de ouro.
A manipulação dos segmentos vertebrais não nasceu com a Quiropraxia. Na verdade, esta prática vem sendo feita há 3 mil anos, pelos chineses, e atravessou os séculos, sendo exercida pelos gregos, romanos, bizantinos, bretões, árabes, espanhóis, turcos, italianos, franceses e alemães. No entanto, a Quiropraxia é o único exemplo em que a manipulação de vértebras é feita de maneira específica e científica, como resultado das pesquisas do dr. David D. Palmer.
Há cem anos, nos Estados Unidos, Davenport era apenas uma cidade típica dos filmes de faroeste e num dos poucos prédios de tijolos localizava-se o consultório do dr. Palmer, um homem de barba espessa e olhar profundo, que não praticava a medicina convencional. Neste cenário, surge o sr. Harvey Lillard, faxineiro do prédio, que perdeu a audição ao pegar um peso e sentiu estalar alguma coisa em suas costas.
SUBLUXAÇÃO: UM FATO APARENTEMENTE SIMPLES
O dr. Palmer ficou intrigado com o fato e raciocinou que devia haver uma ligação entre aquela vértebra fora do lugar e a surdez de Lillard. Examinando e ajustando a vértebra, ele conseguiu colocá-la no lugar e, após algum tempo de tratamento, a surdez de Lillard desapareceu. Assim nasceu a Quiropraxia. Quiro = mão em grego e Praxis = praticar. O dr. Palmer pesquisou, foi experimentando e desenvolvendo técnicas, e seu filho, B.J. Palmer, seguindo seus passos, foi o responsável pelo desenvolvimento da Quiropraxia, inclusive no plano da pesquisa e profissão como ela é hoje. A escola de Quiropraxia foi criada um ano depois, em 1897.
A coluna vertebral protege o nosso sistema nervoso e este é responsável direta ou indiretamente por todos os órgãos e células do nosso corpo. E além de proteger a medula, situa-se na fronteira entre o sistema nervoso central e o sistema nervoso periférico. Assim, qualquer vértebra mal posicionada pinça um nervo periférico que sai pelo foramen intervertebral. Este fato aparentemente simples, chamado de subluxação, provoca reações físico-químicas e metabólicas que alteram os componentes histológicos, fisiológicos e musculares, além de comprometer o sistema neurológico, provocando também interferências na condução nervosa.
A sintomatologia dos pacientes em quiropraxia varia de cefaléias a dores no pescoço e as célebres dores tensionais. Estes pacientes podem apresentar ainda dores nas costas, escoliose, dores lombares e de quadril, hérnia de disco, ciatalgias, problemas nas extremidades, como bursites, cotovelo de tenista, síndrome do túnel carpiano, genu valgum, varu e posturas inadequadas. O tratamento é feito com o ajustamento da articulação mal posicionada, ou seja, localizada a subluxação por meio de extensos exames ortopédicos e neurológicos, o paciente é submetido, se necessário, a exames complementares, como raio X, tomografia computadorizada, ressonância magnética e outros.
Para o atendimento é necessário ter profundo conhecimento técnico de anatomia, fisiologia, histologia, patologia e, o mais importante, de neurologia, num atendimento individual e sem limite de idade. Entretanto, variam as técnicas usadas para a correção da subluxação, pois o que é utilizado num paciente atlético de vinte anos não pode ser aplicado numa senhora de oitenta anos com osteoporose. Com o histórico do paciente, a análise é feita e o tratamento é iniciado, mas o tempo de tratamento varia de acordo com as condições que o próprio paciente apresenta.
Apesar de o objetivo da Quiropraxia ser simples, encontrar a subluxação se torna difícil. Além disso, a subluxação não é só uma vértebra fora do lugar; tem-se de considerar a direção da subluxação, cada uma com vetores e forças diferentes que variam de pessoa para pessoa. O mais importante, além de o Quiropraxista saber onde e como ajustar, é saber quando não ajustar. Este ajustamento pode ser feito com o paciente em decúbito dorsal, ventral ou sentado, podendo usar também terapias complementares: gelo, fisioterapia com exercícios específicos, natação ou apenas a prática de andar.
A Quiropraxia é um curso de nível superior com seis anos de duração e, nos Estados Unidos, é a segunda maior profissão na área de saúde, com mais de 50 mil profissionais em atividade. O curso conta com um preparatório de dois anos no College, uma faculdade transitória, que funciona como um intermediário entre o segundo grau e a universidade, e abrange as seguintes matérias: química orgânica e inorgânica avançadas, física extensiva, uma base sólida de anatomia e fisiologia, entre outras.
Já na universidade, o curso conta com uma duração de quatro anos e, na primeira fase, trabalha com as matérias básicas, como anatomia, neuroanatomia, neurofisiologia, histologia, fisiologia renal, nutrição, patologia, endocrinologia, fisiologia cardiovascular e pulmonar, embriologia, anatomia espinhal etc. Na segunda fase, é a vez das ciências de diagnóstico: radiologia, neurologia, exame físico, interpretação de exames de laboratório, exame geriátrico e infantil, além de classes de técnicas cervicais, torácicas, lombo-pélvicas e de extremidades.
Após as duas primeiras etapas, inicia-se a prática clínica, com aulas de correlação clínica, protocolo, ética e residência na clínica da universidade. O Quiropraxista gradua-se com quatro matérias, mais duas matérias eletivas e os dois anos de pré-quiropraxia, num total de 4.800 horas de curso, obtendo, assim, o título de doutor. Após a conclusão do curso, ainda se submete a quatro testes nacionais para obter licença de trabalho nos Estados Unidos.
Nos EUA, atualmente, funcionam dezessete faculdades e uma universidade de Quiropraxia. Existem, ainda, faculdades reconhecidas e legalizadas no Japão, Austrália, Nova Zelândia, Inglaterra, África do Sul e Canadá. No Brasil, a Associação Brasileira de Quiropraxia congrega oito profissionais graduados no exterior, que atuam em Salvador/BA (01), Ilhéus/BA (02), São Paulo/SP (03), Curitiba/PR (01) e Porto Alegre/RS (01). Neste momento, a ABQ luta para criar um curso no Brasil por intermédio de convênio entre uma universidade americana e uma brasileira.
ALGUNS CONSELHOS ÚTEIS
A Quiropraxia tanto pode auxiliar com um atendimento ao recém-nascido, desde a sala de parto, quanto pode contribuir para um melhor condicionamento dos idosos e dos deficientes físicos.
Os interessados em mais informações sobre o tratamento ou o curso devem entrar em contato com a Associação Brasileira de Quiropraxia.
Os Autores
O Endereço
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE QUIROPRAXIA
Av. ACM, 1510 Malhado — Ilhéus/BA Telefaxes: (073) 231-5928/231-5651
BIBLIOGRAFIA
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