A Coluna da Coluna

— Artigo 59 —

Artigo 59 – Dormindo Bem Com A Coluna Que Tem

By |2021-06-30T12:42:32+00:0029/06/2021|Categories: Coluna no dia-a-dia, Dor, Postura|

NOTA: Este artigo foi escrito baseado nas observações e experiências clínicas de que o escreveu, e por isso, reflete as opiniões do autor — que podem divergir das dos seus colegas.

Virou praxe em qualquer consultório de Quiropraxia o paciente perguntar sobre qual seria a melhor posição para dormir e qual seria o tipo ideal de travesseiro e colchão para usar. A resposta do profissional, seja ele ou ela quem for, tende a obedecer quase sempre o mesmo padrão — com algumas sutis diferenças, claro. Mas é uma equação bem mais complicada do que parece.

Ocorre que no dia-a-dia do paciente é meio frustrante encontrar travesseiro e colchão que se adequem ao seu corpo. Ou achar um posição ao dormir que seja confortável e correta ao mesmo tempo. Porque o que é bom pra Pedro pode não ser bom pra Paulo. Porque somos seres únicos, com fisiologias individualizadas. Porque simplesmente depende de cada um. “Existe a posição que é mais confortável para você. O importante é seguir as recomendações (…) para evitar sobrecargas na coluna e no pescoço”, de acordo com o médico otorrinolaringologista Danilo Sguillar, diretor da ABMS (Associação Brasileira de Medicina do Sono).

Não obstante, precisamos obviamente de um sono de qualidade. Não só por causa da coluna, mas por causa da nossa saúde em geral. Ficar sem dormir direito pode até ser um precursor para doenças cardiovasculares, de acordo com um estudo de 2011.  É durante o sono que nosso cérebro “recarrega a bateria”; que otimizamos regeneração muscular; que nossos discos intervertebrais se expandem, facilitando a entrada de nutrientes. A falta ou deficiência daquele sono reparador, ou até determinadas posições ao dormir podem causar “dores no corpo, irritabilidade ou até tristeza”, atesta o médico reumatologista Leandro Parmigiani, do Hospital Edmundo Vasconcelos em São Paulo. Como bem sabe o mais leigo dos leigos.

Para dormir, a posição biomecanicamente correta e clássica seria de lado, com a cabeça apoiada num bom travesseiro. Este não deve ser nem muito alto e nem muito baixo. O ângulo entre o pescoço e o ombro deve ser reto (ou seja, de 90°). Assim, impede que a cabeça fique nem muito para baixo e nem muito para cima. Para aliviar a pressão na bacia e nos quadris, recomendamos dobrar levemente as pernas e usar outro travesseiro entre os joelhos.

Dormir de lado pode até ser terapêutico. Um estudo de 2006 mostra que esta posição diminui apneia. Outro de 2015 sugere que esta posição favorece o sistema glinfático. Outro do mesmo ano concluiu que refluxo gastroesofágico pode ser diminuído.

Uma alternativa, digamos assim, mais radical, seria dormir em posição fetal — um dormir de lado mais turbinado. Esta posição é bastante eficaz para amenizar as dores. Entretanto, “Parmigiani alerta que ela também pode ser prejudicial se feita por longos períodos, tanto para a coluna, porque acaba sendo um pouco forçada, quanto para a respiração, porque obstrui as vias.” (Patrícia Beloni, VivaBem UOL)

Em todo caso, havendo esta preferência de dormir de lado, o travesseiro não necessariamente precisa ser ortopédico. Basta ter a altura e a firmeza necessária para sustentar devidamente a cabeça e manter o pescoço numa posição neutra.

Resumindo: um travesseiro comum pode ser tão eficaz quanto um travesseiro cervical — depende da posição ao dormir.

Caso a pessoa não consiga dormir de lado, de barriga para cima pode ser uma boa alternativa. Mas aí o travesseiro precisaria ser mais especializado. O ideal seria uma estrutura curva, com uma depressão no meio. A nuca se alojaria ali, e a lordose cervical ficaria preservada. Há vários modelos à venda no mercado brasileiro, mas, infelizmente, raros os com qualidade suficiente para durarem mais do que seis meses. É também interessante posicionar outro travesseiro debaixo dos joelhos para aliviar a pressão intradiscal na coluna lombar — que acaba ficando meio sem apoio nesta posição.

Dormir de bruços é o que não é aconselhado. Nesta posição, o pescoço permanece numa rotação de praticamente 90° por um tempo bem mais do que deveria ficar. Isso pode dar vazão a vícios posturais e até um sem-número de problemas cervicais. A região lombar, sendo-lhe imposta extensão por longos períodos, acaba forçando as articulações zigapofiseais. Posicionar um travesseiro embaixo do quadril e da barriga pode amenizar os efeitos nefastos desta posição — até um certo ponto. Melhor mesmo seria evitar e encontrar outra posição.

Claro que dormir numa posição só pode cansar alguns. “Dificilmente você desperta para mudar de lado. Quem tem artrose, problema de coluna ou hérnia de disco, às vezes fica em uma posição em que o corpo se cansa mais rápido, então sente uma dor ou incômodo e se mexe para ficar mais confortável”, explica o médico ortopedista Juliano Fratezi, do Hospital Sírio Libanês e membro da SBC (Sociedade Brasileira da Coluna). Isso também depende do colchão.

O conceito do colchão ideal é ainda mais complexo. Ser formos generalizar, um colchão teria que ser firme, e, ao mesmo tempo, teria também que ceder nos lugares certos. Por exemplo, na posição de decúbito lateral (de lado), o colchão teria que ceder na região dos ombros e dos quadris. Isto inviabiliza o colchão com suporte de madeira. Aí o correto seria um com densidade condizente ao biótipo da pessoa. Esta densidade varia de acordo com o peso e a altura do sujeito.

O problema é se o companheiro ou a companheira não compartilhar das mesmas medidas. Neste caso, o colchão pode beneficiar um e prejudicar o outro. O correto seria encontrar um colchão que fosse oferecido no mercado com duas densidades de cada lado. Este pequeno detalhe talvez resolvesse este dilema. Hoje em dia é possível adquirir tal produto.

Portanto, e de fato, não há necessidade de investir muito dinheiro na compra de um colchão. Qualquer um ortopédico de densidade definida pode resolver a parada. Um colchão de espuma é mais específico do que um colchão de mola. Um mais caro tem a vantagem de ter uma garantia maior, e a qualidade é indubitavelmente melhor. Mas é só. Alguns fabricantes oferecem colchões magnéticos, mas não há correlação científica definitiva que justificasse tal adição.

Claro, a compra de um colchão envolve também sorte. A mistura que dá origem a espuma tem que ser bem-feita. Senão, um colchão da mesma exata marca pode durar dez anos ou somente seis meses. É uma loteria — tal qual comprar um carro novo. Neste caso, uma garantia longa torna-se mais atraente.

Resumindo: o colchão depende do biótipo do cidadão, de ceder nos lugares certos e de uma certa dose de sorte.

Confusos? Há mais um fator para complicar esta já tão bagunçada equação. Não adianta comprar um colchão ideal se o travesseiro não for ideal. E vice-versa. Um bom travesseiro não é somente ortopédico. Depende da metragem do ombro do indivíduo; de quanto o colchão cede; e da firmeza do próprio travesseiro.

Resumindo: o travesseiro ideal depende do colchão ideal – para cada pessoa.

Com isto tudo, caro leitor, há uma maneira simples de saber se o colchão e o travesseiro estão em conformidade, digamos assim, ergonômica. Basta pedir para alguém observá-lo deitado de lado no tal colchão — e traçar uma linha imaginária entre a protuberância occipital externa, a vértebra proeminente e o primeiro tubérculo sacral. (Para os leigo, aquele calombozinho da nuca com o da base do pescoço e até chegar bem no meio das covinhas da bacia.)

Se esta linha for reta, sua coluna está descansando bem à noite. Se não, talvez seja hora de mudar de colchão e travesseiro. Para assim finalmente dormir bem com a coluna que tem.

About the Author:

Iury Borges Rocha formou-se Quiropraxista em 1996 pelo Palmer College of Chiropractic, em Davenport, Iowa - EUA. É também bacharel em Ciências pelo Palmer e tem Licenciatura em Comunicações pelo Scott Community College, em Bettendorf, Iowa, EUA. Atende em Ilhéus-BA e região. Atual Diretor Acadêmico e palestrante internacional da FLAQ e do IDQUIRO, já exerceu o cargo de Tesoureiro da ABQ e foi o primeiro Coordenador do programa de Quiropraxia da Feevale. Escreveu cerca de 300 artigos num período de cinco anos sobre diversos assuntos para o hoje extinto jornal Diário de Ilhéus — sempre tendo a coluna vertebral como pano de fundo.

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